Apologética não é bang-bang

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Por Thiago Oliveira


Antes de mais nada, precisamos definir “Apologética”. Pois bem, esta palavra significa “defesa verbal”. Quando falamos em Apologética, quase sempre nos referimos a defesa do Evangelho, pois foi no Cristianismo que ela foi desenvolvida. Os apologistas foram aqueles que de maneira sistemática, explanaram e demonstraram o Evangelho como sendo uma fé digna de credibilidade, autenticidade e superioridade com relação as demais religiões. Atualmente, as redes sociais disseminaram as práticas apologéticas, sobretudo, em páginas e blogs de confissão reformada, todavia, existe algo preocupante no tipo de apologética que encontramos na websfera.

Defender a fé é uma recomendação bíblica. Mas, gostaria muito que nós pudéssemos meditar nas seguintes palavras do apóstolo Pedro:

Antes, santificai a Cristo, como Senhor, em vosso coração; e estai sempre preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós.” (1 Pedro 3.15)

A primeira coisa a que chamo a atenção é o fato de que antes de defendermos o Evangelho, Cristo precisa ser santificado (i.é. separado) como o Senhor do nosso coração, local de onde procedem as fontes da vida (Pv 4.23). Cristo deve ter o domínio daquilo que pensamos e também deve dominar sobre a nossa conduta. Então, sendo Ele o Senhor, toda a honraria deve ser dada somente para Ele. Lembremos do louvor paulino (Rm11.36): “Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém”.

Tendo Cristo o domínio de nosso ser e da nossa prática, estaremos prontos para responder a qualquer um que nos indagar acerca de nossa esperança. O termo “qualquer”, usado por Pedro, é inclusivo e nos remete a todo tipo de circunstância. Desde a defesa perante um tribunal, num contexto de perseguição ao Evangelho, ou até mesmo uma resposta para um detrator da Palavra ou para alguém que verdadeiramente anseie escutar sobre as boas-novas, ou melhor, escutar sobre a esperança que temos em nosso Salvador, no qual cremos piamente que estamos nEle guardados e salvos da ira vindoura que recairá sobre os pecadores no dia do Juízo.

Todavia, a nossa resposta deve ser dada com mansidão. Aqui temos que novamente nos reportar para a santificação de Cristo em nossos corações. Pois, se Ele foi manso (Mt 11.29), porque então nós haveríamos de ser diferentes? Estaria o servo acima de seu Senhor? Absolutamente, não! No entanto esta mansidão tem faltado entre aqueles que dizem ter zelo pela sã doutrina. Diversos fóruns em blogs e redes sociais mostram a cólera com que irmãos tratam irmãos. Não falo nem da relação do cristão com um não-cristão. Basta ser de uma denominação ou corrente teológica diferente para vermos um verdadeiro “bang-bang”. Homens que querem vencer seu oponente em argumentos, muitas vezes, para satisfazer seu ego e não para glorificar a Deus.

Alguns destes irascíveis costumam citar Paulo como se a atitude do apóstolo coadunasse com o descabido furor que exalam pelos quatro cantos. Mas, seria mesmo Paulo alguém que defendia o Evangelho com agressividade? Vejamos o que ele ensina:

Em Colossenses 4.6 ele afirma que “a vossa palavra seja sempre agradável, temperada com sal, para que saibais como vos convém responder a cada um.” Aqui o apóstolo alerta que o modo de se falar é tão importante quanto o conteúdo. A figura de linguagem utilizada, temperar com sal, remete a uma tradução rabínica de tratar a Torá como o sal, conservante da pureza, que torna o alimento agradável ao paladar. Precisamos evitar os extremos. Uma comida insossa é ruim, tal como uma comida muito salgada. É preciso então equilibrar a balança, saber quando e como devemos falar do Evangelho, não para ganhar uma discussão, este nunca foi o objetivo paulino, mas sim para ganharmos as pessoas para a Verdade. Para que tenhamos êxito na nossa apologética, é extremamente necessário termos respeito e amabilidade para com o nosso próximo, por mais equivocado que ele esteja. Não quer dizer que devemos aceitar seu erro e sermos indulgentes. Digo apenas que devemos instruir com amabilidade e (porque não?) gentileza.

Os dois primeiros versículos de Romanos 15 nos dizem que os fortes devem suportar a fraqueza dos fracos. Força e fraqueza nesse contexto tem a ver com o conhecimento que adquirimos sobre Deus no decorrer da caminhada com o Senhor. Sabemos que este conhecimento não é meramente intelectual, pois existe aqui o conceito revelacional. Deus se revela a quem Ele bem quer e a uns Ele concede mais compreensão do que a outros. Cabe aqueles a quem muito foi dado, não se utilizarem dessa dádiva para se vangloriar ou agradar a si mesmos. Aos mais dotados de percepção das doutrinas bíblicas, que cumpram o trabalho de edificar os mais fracos nas questões da fé. Aqui a fraqueza envolve intelectualidade e, também, moralidade. Todavia, Paulo não nos instrui a tolerar os erros dos que denomina fracos. Ele lança a ideia de suportar, ou seja, conduzir em amor, estes irmãos, mesmo em suas fraquezas, para que eles sejam posterior e sistematicamente edificados no Corpo de Cristo.

É justamente neste ponto que vejo o quão distante estamos da recomendação apostólica de suportarmos uns aos outros em amor (Ef 4.2). Será mesmo que uma postagem de Facebook é um local ideal para a correção? Ali onde as palavras não tem feição e portanto aparentam ser mais frias do que deveriam ser, tentamos convencer irmãos, travestidos de oponentes, a pensarem de maneira coerentemente bíblica. Acontece que, quando somos impiedosos, desproporcionalmente debochados e intelectualmente vaidosos, não podemos cobrar coerência de ninguém. Façamos uma auto-análise.

Ainda usando um texto de Paulo, este quando escreve para Timóteo, dá a seguinte recomendação:

E rejeita as questões loucas, e sem instrução, sabendo que produzem contendas. E ao servo do Senhor não convém contender, mas sim, ser manso para com todos, apto para ensinar, sofredor; instruindo com mansidão os que resistem, a ver se porventura Deus lhes dará arrependimento para conhecerem a verdade, e tornarem a despertar, desprendendo-se dos laços do diabo, em que à vontade dele estão presos.” (2 Timóteo 2.23-26)

Esta passagem é fantástica. Paulo diz ao seu discípulo e filho na fé, que ele deve ser manso e não andar contendendo sobre coisas supérfluas. Vejo irmãos se engalfinhando por questões tais como: supra ou infralapsarianismo, batismo por imersão ou aspersão e etc. Não existe aqui uma regra para que não se debata sobre estes determinados assuntos. O que existe é uma recomendação para que estes não venham a ser encarados como coisas estritamente necessárias a comunhão, e que não causem divisões entre os membros do corpo de Cristo. Timóteo, mesmo diante dos sectários e hereges, tinha que “instruir com mansidão”. Atentemos ao fato que a mansidão é para os que persistem no erro (v.25). Na disciplina pode haver brandura. Ela deve estar atrelada a paciência e ao desejo de ver o arrependimento brotar do coração daquele que estava obstinado a permanecer no erro para que tornem a despertar, libertando-se dos laços diabólicos no qual estão presos.

Outra bela passagem bíblica que nos encoraja a sermos mais piedosos em nossa apologética se encontra em Judas 22 e 23: “E apiedai-vos de alguns, usando de discernimento; E salvai alguns com temor, arrebatando-os do fogo, odiando até a túnica manchada da carne.

Judas escreve aos seus leitores que eles devem ajudar aos crentes que não tem muito discernimento da Palavra, e que por isso chegam a duvidar dela. Qualquer um de nós conhece esse tipo de crente vacilante, que quando se depara com um questionamento cético fica com a sua crença abalada. Portanto, segundo nos diz o apóstolo, é necessário conduzir estes duvidosos para que estes voltem a crer. Uma outra categoria de pessoas a que Judas se refere, são os pecadores que estão perecendo. Ele utiliza a figura do fogo consumindo os pecadores e diz que nós deveríamos prontamente salvá-los das chamas. Mas não é Deus quem salva o pecador? Logicamente, a ideia aqui não é colocar a salvação em nossas mãos como sendo autores delas, todavia, somos ministros, por Deus comissionados a anunciar a Palavra da Salvação, como bem frisou Calvino. O termo final “odiando até a túnica manchada da carne” é uma admoestação para não nos contaminarmos com o pecado, comparado aqui com roupas sujas de excremento. Do pecado precisamos tomar distância, no entanto, devemos nos aproximar dos pecadores. Foi exatamente isto que Jesus fez durante todo o seu ministério.

Depois de analisarmos estas passagens bíblicas, não nos resta dúvida de que devemos abandonar a síndrome de “Dr. Jekyll”, um clássico personagem da literatura (O Médico e o Monstro) que ao tomar uma poção criada em laboratório se transformava num ser monstruosamente descontrolado. As queixas são muitas. Estou cansado de ver pessoas que foram destratadas em blogs e páginas que se dizem apologéticas. Há um desserviço a causa do evangelho toda vez que, por exemplo, um calvinista ofende um arminiano e vice-versa. Precisamos parar de proceder como loucos e aprender de Cristo, que foi manso e suave.

A Verdade deve sempre ser dita e continuemos a combater os falsos ensinamentos que vem sendo propagados, agora em velocidade recorde devido ao avanço dos meios de comunicação. Todavia, esse combate não pode ser feito de maneira irresponsável ao ponto de andarmos na contramão do que as Escrituras estabelecem com relação a apologética. Vamos acabar de vez com esse “bang-bang” e promover o Reino com amor e humildade. Nada é nosso, tudo é dEle.

Soli Deo Gloria.

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Fonte: Electus
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Uma avaliação do artigo “Em defesa do arminianismo”

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Por Franklin Ferreira


Em linhas gerais, o texto “Em defesa do arminianismo” (publicado na revista Obreiro Aprovado Ano 36, nº 68) é bom. O autor, o pastor assembleiano Silas Daniel, acerta ao distinguir entre o calvinismo (denominado no texto de “compatibilista”) e o hipercalvinismo (que, suponho, seja o que o autor chama de “calvinismo fatalista”). E ele também acerta ao tratar o primeiro como uma interpretação cristã legítima, e o segundo como um erro sério que precisa ser rejeitado. E sugere algumas boas razões para o ressurgimento da fé reformada no Brasil (prevalência do pelagianismo em muitos púlpitos, críticas caricaturais ao calvinismo e a superficialidade neopentecostal). Ao fim do artigo, o autor fala em tons fortes e vigorosos da graça salvífica oferecida pela fé em Cristo, de forma bíblica. Então, o tom irênico do autor é bom e saudável. 

Na tradição batista onde fui criado (fundamentalista e pietista, com alguma abertura à teologia liberal), o calvinismo ainda é tolamente tratado por alguns como uma “heresia perniciosa” (para usar as palavras do autor), muitas vezes assim rotulado ao lado de G12, “guerra espiritual” e outras esquisitices presentes no cenário evangélico brasileiro. Então, o tom adotado pelo pastor Silas em seu ensaio é um avanço importante no debate. E deve-se afirmar claramente, junto com o autor: o arminianismo não é pelagianismo, apesar desta posição ter prevalecido e ainda ser a visão religiosa de muitos pregadores e mestres evangélicos no Brasil, que têm como modelo Charles Finney; mas, dependendo de que autor se lê (já que uma das poucas confissões de fé arminianas representativas são os “Artigos da religião”, revisados por John Wesley), esta tradição pode ser considerada semipelagiana ou semiagostiniana (mencionados, mas não definidos no texto). 

Posto isso, o texto tem vários e sérios problemas, no campo da teologia e da história do pensamento cristão. Sobre o uso da Escritura, os versículos bíblicos são tratados como textos-prova. Não há sugestão de exegese ou de estudo léxico das palavras-chave, ou mesmo referências ao lugar das passagens na teologia bíblica. Isso fica evidente, por exemplo, na interpretação do autor da expressão “aos que dantes conheceu” (Rm 8.29), reduzida a mera previsão geral divina (ao interpretar 1Pe 1.2). Também não são indicados comentários bíblicos para suplementar as pressuposições do autor. Simplesmente presume-se que os ensinos arminianos são auto-evidentes nos versículos bíblicos citados. Há muito tempo atrás fui arminiano, e usei muitos daqueles versículos que o autor citou para “provar” o arminianismo e atacar o calvinismo. Mas, para cada texto bíblico citado há uma interpretação, por assim dizer, “calvinista”, que é muito mais coerente e consistente com o texto bíblico em si, o livro onde este está inserido e o contexto global da Escritura – e o leitor pode ir aos comentários de Agostinho, Martinho Lutero e João Calvino, ou aos de D. A. Carson, Douglas Moo, Donald Guthrie, F. F. Bruce e John Murray, para conferir a exegese das passagens-chave desta controvérsia. 

Pelo menos, o autor reconhece as várias tensões (e, por que não, as contradições) presentes na teologia arminiana, como ao tratar da presciência divina e do alcance da expiação: em outras palavras, o problema posto é: se Deus já sabia quem receberia a Cristo, por que este precisaria morrer por todos? Ou quando trata do significado da palavra “mundo”, sem levar em conta o significado da propiciação realizada por Cristo (ao citar 1Jo 2.2 como texto-prova da expiação geral). E quando admite algum tipo de predestinação (“sim, ele predetermina muitas coisas, mas não tudo”) ao mesmo tempo que, ao pressupor que Deus previu antes de predestinar, não trata de uma pergunta crucial, isto é, quem criou o que Deus previu? 

Também há vários problemas no campo da teologia histórica. Trato apenas dos principais. Diferente do que o autor afirma, quase todos os grandes teólogos medievais criam na predestinação, seguindo em maior ou menor grau o que Agostinho ensinou no século V: Próspero, Gottschalk, Anselmo, Bernardo, Bradwardine, Tomás de Kémpis e Tomás de Aquino (cf. S. Th: I, q. 23, a. 1, a. 2, a. 4, a. 7, a. 8; I-IIae, q. 117, a. 5; II-IIae, q. 174; III, q. 24, a. 1, a. 3). Os pré-reformadores Jan Hus e John Wycliffe também afirmaram o ensino da predestinação em moldes agostinianos. Um detalhe que chama a atenção é que ainda que Agostinho seja citado, sua compreensão sobre a predestinação e a graça não é oferecida no texto. 

O mais surpreendente é quando o autor afirma que Lutero abrandou a posição afirmada em seu tratado “Da vontade cativa”, e que passou a crer na possibilidade de se cair da graça (lendo erroneamente os Artigos de Esmacalde III.42-45, que, na verdade, refutava distorções anabatistas). Ao tratar de uma mudança de ênfase na teologia de Lutero, ele cita Herman Bavinck como fonte, mas não mencionou que este autor também afirmou que Lutero “nunca reverteu sua posição sobre predestinação”, e que os “verdadeiros luteranos” rejeitaram o sinergismo de Filipe Melanchthon (“Teologia Sistemática”, v. 2, p. 364).

Obviamente, há diferenças significativas entre os teólogos cristãos, e mesmo entre teólogos da tradição reformada. Por isso, um bom ponto de partida para tratar de temas teológicos controversos é começar com o que afirmam as confissões de fé que resumem as posições das tradições professadas, e não com as posições de teólogos, por mais importantes que estes sejam (por exemplo, nem todos os teólogos reformados ficam satisfeitos com a afirmação da CFW VI.1, de que Deus determinou permitir o primeiro pecado, mas esta confissão, e não a opinião dos teólogos, representa a posição reformada/puritana). 

Sobre a participação dos arminianos no Sínodo de Dort – que talvez seja o mais importante concílio protestante já ocorrido – é necessário deixar claro que estes não foram vítimas inocentes do poder do Estado ou dos calvinistas, como o autor parece opinar. Como John de Witt afirmou: “Os arminianos (...) utilizaram de toda engenhosidade para evitarem qualquer declaração [clara de seus ensinamentos] (...), exigiram que fosse seguida sua própria pauta de assuntos em lugar da do Sínodo, praticaram evasivas táticas de retardamento e obstruções (...) e rejeitaram a autoridade do Sínodo em julgá-los; isto a despeito do fato de ser legalmente um Sínodo da Igreja em que ocupavam cargos, à qual confessavam pertencer, e a cuja disciplina estavam obrigados a se submeter em virtude de suas ordenanças e votos!” (cf. O Sínodo de Dort, em Jornal Os Puritanos [Ano 3 nº 2, Março/Abril 1995], p. 27-30) E, como o pastor Silas reconhece, “os seguidores de Arminius na Holanda acabaram, com o passar do tempo, se afastando progressivamente do pensamento original de seu mentor”, rejeitando doutrinas como o pecado original, a expiação substitutiva e penal e até mesmo a divindade de Cristo, tornando-se, como nota o autor corretamente, “liberais em teologia”. 

Quando trata da controvérsia arminiana do século XVIII, o autor (apoiando-se em uma única fonte secundária) poderia ter colocado toda a polêmica em contexto, o que seria muito instrutivo para nós, hoje. Em meados de 1740, houve um confronto entre Wesley e George Whitefield; o primeiro supunha, erroneamente, que a doutrina da predestinação poderia conduzir ao antinominianismo. Mas a leitura dos escritos puritanos, por parte de Wesley, conduziu-o a uma reavaliação desta posição e, com isso, alcançou-se um acordo entre ambos os lados, o que permitiu uma cooperação na pregação do evangelho, já que nos temas centrais (pecado original, justificação pela fé e santificação) havia acordo. Mas a contenda reiniciou-se em meados de 1770, por causa não da doutrina da predestinação, mas do ensino da justificação – o suíço John Fletcher (Jean de la Fléchère), colega de John Wesley, começou a negar a doutrina da imputação da justiça de Cristo ao fiel. Em síntese, ele afirmou que a justificação requereria santificação pessoal e não a fé somente (cf. “Fourth Check to Antinomianism”). Nesta altura, Wesley vacilou na defesa desta doutrina importantíssima para a fé evangélica. O contundente texto de Augustus Toplady, “Arminianismo: o caminho para Roma”, foi escrito nesta época – e em resposta a uma distorção da doutrina bíblica da justificação pela graça, recebida mediante a fé somente, com todas as implicações doutrinais e devocionais daí decorrentes. Richard Watson, talvez o mais habilidoso teólogo metodista, escreveu no século XIX, sobre Fletcher: “Embora muito admirado entre os wesleyanos, suas doutrinas não são admitidas como norma” (cf. Iain H. Murray, “Wesley and Men Who Followed”). E, diferente da perspectiva do autor, de que “o arminianismo ergueu-se vitorioso” da controvérsia, os metodistas arminianos saíram da igreja episcopal, que, na época, ainda era majoritariamente calvinista, para fundar um dos ramos do metodismo, e do qual se originou os movimentos de santidade (o outro ramo, seguidor do calvinismo, era o metodismo galês, e se tornou presbiteriano, e não congregacional, como afirmou o autor). 

O estudo da história do pensamento cristão é muito importante. Mas, no fim, o que irá decidir toda discussão no âmbito da fé é a Escritura, que é “o juiz supremo, pelo qual todas as controvérsias religiosas têm de ser determinadas, e por quem serão examinados todos os decretos de concílios, todas as opiniões dos antigos escritores, todas as doutrinas de homens e opiniões particulares, o juiz supremo, em cuja sentença nos devemos firmar, não pode ser outro senão o Espírito Santo falando na Escritura” (CFW I.10). Portanto, o que conta é o que a Escritura ensina. Que ela seja estudada por meio de “exegese, exegese e mais exegese”, sempre em dependência do Espírito Santo. Pois devemos nos apegar somente e fielmente à Palavra de Deus, revelada nas Escrituras somente.

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Fonte: Perfil do autor no Facebook
- Publicado no blog Bereianos com permissão do autor.
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Creio em Deus Pai Todo Poderoso

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Por Denis Monteiro


Credo Apostólico, segundo alguns estudiosos, é um dos documentos mais antigos que temos na história da igreja - datado do 2º século, e é de onde tiramos a frase que intitula este artigo.


Eu pretendo, de forma breve, analisar algumas doutrinas implícitas em cada parte que compõe o documento. O Credo pode ser dividido em três partes, que mostram uma confissão clara na doutrina da Trindade: Creio em Deus, Creio em Jesus e Creio no Espírito. 

Na primeira parte o Credo resume de forma simples e profunda quem é Deus.

       • Deus é Pai
       • Deus é Todo Poderoso
       • Deus é criador do céu e da terra


1. Deus é Pai

Algumas pessoas influenciadas por teologias fracas, direta ou indiretamente, creem que Deus é Pai de todos (um tipo de Odim). A Bíblia mostra que Adão foi criado à imagem de Deus, logo toda a humanidade possui a imagem de Deus (Tg 3.9). Com a queda de nossos primeiros pais, toda a humanidade perdeu a comunhão com Deus, sendo Deus o nosso inimigo número um. Os textos abaixo mostram que, antes de sermos adotados, não éramos filhos de Deus:

Em que noutro tempo andastes segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe das potestades do ar, do espírito que agora opera nos filhos da desobediência. Ef 2.2 (ênfase acrescentada) 
... éramos por natureza filhos da ira, como os outros também. Ef 2.3c (ênfase acrescentada)  
Vós tendes por pai ao diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai. Jo 8.44a (ênfase acrescentada) 

 Essas três passagens do Novo Testamento mostram enfaticamente de que todos quantos vivem debaixo do pecado não são filhos de Deus. Jesus em João 8.42 diz, se estes que são filhos do Diabo, fossem filhos de Deus eles amariam a Cristo. Uma das provas que podemos ver se alguém é filho de Deus, é ver se esta pessoa vive a cada dia amando a Cristo. Amando não da boca para fora, mas sabendo quem Ele era e é, e o que Ele fez na cruz em favor de muitos. Uma vida de amor por Cristo, é uma vida de submissão, assim como a mulher é submissa ao seu marido. 

Como o pecador pode se tornar filho de Deus? 


Somente pela adoção. A adoção, segundo J.I Packer, é transformar o seu povo em seus filhos.[1] A adoção é o coroamento da justificação (o ato pelo qual Deus, o Juiz do Mundo, nos aceita). Por intermédio da morte de Cristo fomos resgatados para que recebêssemos a adoção de filhos (Gl 4.4,5). O termo adoção, descrito por Paulo em Gálatas 4, mostra claramente que nós não éramos filhos de Deus.

Aqueles que são adotados são os mesmos que são nascidos da vontade de Deus (Nasceram de novo – Regeneração), 
Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que crêem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus. (João 1.12-13). E assim, somos herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo (Rm 8.17).


As evidências da nossa filiação

Guiados pelo Espírito - Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus.” (Rm 8.14). 


Ser guiado pelo Espírito de Deus, neste caso, não quer dizer que Deus me levou a aceitar aquele emprego, ou aquele ou aquela namorada. Quando o Espírito nos guia, o caminho pelo qual Ele nos conduz é o caminho da justiça para a santificação. Ele inclina o nosso coração a servir a Deus, a ter fome e sede para obedecer a Cristo. 

R.C. Sproul diz:

“Não é uma questão de biologia, mas de obediência. Somos filhos daquele a quem obedecemos e, se obedecemos à concupiscência da carne, se obedecemos às tendências de Satanás, então somos filhos do diabo, não de Abraão ou de Deus. É por isso que Paulo diz que aqueles cujas vidas são dirigidas pelo Espirito de Deus são filhos de Deus, eles seguem e obedecem àquele que os leva ao caminho de Deus. [2]

Testemunho interno do Espírito
 - 
O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus. (Rm 8.16)


O meio pelo qual o Espírito testifica que somos filhos de Deus não é de modo místico ou algo sussurrado em nossos ouvidos: “Calma, você é um dos nossos”. O meio pelo qual o Espírito testifica é com, e através, da Palavra de Deus. Se quisermos ser guiados pelo Espírito de Deus, mergulhemos na Palavra dEle. Ela é a lâmpada para nossos pés e a luz do nosso caminho (Sl 119.105). 

Fruto do Espírito – Nisto são manifestos os filhos de Deus e os filhos do diabo: todo aquele que não pratica justiça não procede de Deus, nem aquele que não ama a seu irmão. (1 Jo 3.10)

Paulo exorta em Gálatas 5.25 de que devemos andar no Espírito, e versos antes mostra que o Espírito produz fruto. Logo, a nossa vida, constantemente, deve ter como amostra de que andamos no Espírito e somos filhos de Deus, o fruto descrito em Gálatas 5.22,23. 

Obediência - Porque qualquer que fizer a vontade de meu Pai celeste, esse é meu irmão, irmã e mãe. (Mt 12.50)


Aqueles que obedecem a Deus, estes, segundo Jesus Cristo, fazem parte da família de Cristo. Porque no último dia muitos dirão que “profetizaram, expulsaram demônios e que fizeram várias maravilhas”. E Cristo lhes dirá abertamente “nunca vos conheci, apartem-vos de mim, os que praticais a iniqüidade. (Mt 7.22,23). A vontade de Deus está revelada em Sua própria Palavra, obedeçamos. 

Comunhão integral – “o que temos visto e ouvido anunciaram também a vós outros, para que vós, igualmente, mantenhais comunhão conosco. Ora, a nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho, Jesus Cristo”. (1 Jo 1.3)

Se somos filhos de Deus então somos irmãos de Cristo, o nosso Senhor. Logo, todos quantos foram comprados por Cristo são nossos irmãos. Portanto, temos que desenvolver essa comunhão com Deus e Cristo em nossa união fraterna como igreja, corpo de Cristo. Pois não há sentido de que um membro viva fora do seu corpo, que é Cristo. 

São disciplinados por Deus - “porque o Senhor corrige a quem ama e açoita a todo filho a quem recebe”. (Hb 12.6)

Os filhos de Deus, quando pecam, são disciplinados por Deus para que abandonem os seus pecados e se arrependam, para que se tornem participantes de sua santidade (Hb 12.10). Todas as vezes que Deus nos corrige, não nos corrige porque Ele é sádico ou vingativo, mas porque Ele quer que sejamos recuperados. O fato de Deus nos corrigir mostra o quanto Ele nos ama, pois se não nos amasse Ele não corrigiria os nossos pecados, mas nos lançaria no inferno após pecarmos contra Ele. 

Que o nosso entendimento da disciplina de Deus seja como a do salmista: “Foi-me bom ter eu passado pela aflição, para que aprendesse os teus decretos” (Sl 119.71). 

E assim podemos entender o que diz a pergunta 33 do Catecismo de Heidelberg:

“Por que é Ele chamado Filho UNIGÊNITO DE DEUS, se nós também somos filhos de Deus?” 
Resposta: “Porque só Cristo é o Filho eterno de Deus, ao passo que nós, por sua causa, e pela graça, somos recebidos como filhos de Deus”. 

2. Deus é Todo Poderoso


Ao invés de tratar do título “Todo Poderoso”, tentarei tratar de um tema muito complicado: o problema do mal. 

Sei que é difícil tratar deste tema, mas creio que vale algumas reflexões sobre o assunto. 

O famoso dilema se mostra assim:


        1. Se Deus é onipotente, ele pode impedir o mal.
        2. Se Deus é bom, ele quer impedir o mal.
        3. Mas o mal existe.
        Conclusão: Ou Deus não é onipotente, ou não é bom.[3] 


Como um Deus Todo Poderoso, como mostra a Escritura e testifica o Credo, pode permitir que o mal moral exista? Estas são algumas das posições mais defendidas por alguns sobre este dilema:


Defesa da não realidade do mal

Essa defesa, em sua maioria, parte de religiões orientais (p.e. budismo e ciência cristã). Eles pregam que o mal é uma ilusão. Mas, biblicamente e logicamente, não podemos sustentar esse argumento. Pois, se o mal é uma ilusão, logo, será uma ilusão problemática, que porta dor, sofrimento e morte. Se o mal é uma ilusão, logo, o que diz Isaias sobre a morte de Cristo, o qual sofreria por nossos pecados, é uma ilusão. Sendo assim, não temos nenhuma confiança em Cristo, mas não é isso que a Bíblia mostra. 

Defesa da fraqueza divina

Essa posição, atualmente, pode ser vista pelos teólogos do processo ou teísmo aberto. Tais teólogos defendem que Deus não é onipotente, onisciente e/ou soberano. Então, partindo deste ponto de vista, eles entendem que Deus se esforça para bloquear o mal, mas não consegue. Porém, biblicamente, não é esse o testemunho. A Bíblia mostra que Deus é onisciente (Sl 139; Hb 4.11-13; Is 46.10; 1Jo 3.20), onipotente (Sl 115.3; Is 14.24,27; 46.10; 55.11; Lc 18.27); e soberano (Rm 11.33-36; 1Tm 6.15-16). Então, usar tal argumento para resolver o problema é irônico. Como crer que um deus fraco, pode fazer com que resolva este problema? 

Defesa do melhor mundo possível

Alguns filósofos têm argumentado que o mal neste mundo é nada menos  que o mundo melhor que Deus poderia criar. Para esta visão o mal seria necessário para atingir certos fins bons. Por exemplo, o fato de haver o sofrimento é para que haja compaixões pelos sofredores. O problema é que Deus é eterno e seus atributos sempre o acompanharam, logo, Deus, mesmo sem o mal, seria compassível. Outro problema é que o texto sagrado nos relata que a criação era boa mesmo sem a presença do mal. Portanto, a presença do mal não tornaria nada perfeito, até porque, no novo Céu e nova Terra não haverá a presença do sofrimento e será um estado eterno de gozo na presença do nosso Senhor. 

Defesa do livre arbítrio

A defesa do livre arbítrio é a mais comum que você já ouviu ou ouvirá. Os defensores desta posição dizem que o mal veio pela livre escolha das criaturas racionais, onde que, em nenhum momento a escolha era pré-ordenada por Deus. Em certo sentido, o homem pode fazer suas escolhas. Mas essas escolhas são de acordo com os desejos e circunstâncias de cada um, quer sejam santos ou ímpios. Portanto essa liberdade não é libertária, mas causada por algo que a influenciou, até mesmo sendo determinada por Deus. 

Esse é o testemunho da Escritura, ela mostra com frequência Deus determinando nossas livres escolhas e até mesmo más escolhas (cf. Gn 50.20; 2Sm 24.1; Pv 16.9; Lc 24.45; Jo 6.44, 65; At 2.23,47; 11.18; 13.48; 16.14; Rm 8.28 – 9; Ef 1.11; 2.8-10; Fp 1.29). 

Defesa da construção de caráter

A quinta defesa trabalha o argumento de que o homem foi criado em um estado de imaturidade moral e que tais sofrimentos fariam com que ele desenvolvesse tal maturidade. É bem verdade que o sofrimento pode ser um modo de aperfeiçoamento, como mostra Hebreus 12. Mas o texto trabalha com pecadores redimidos – uma situação um tanto diferente. Segundo as escrituras mostram, quando Deus criou o ser humano, Ele conclui o sexto dia dizendo que “era MUITO bom”, portanto, não havia imaturidade nisso, mas a imperfeição veio com a queda (Gn 3.17). E, por fim, é bem claro na Escritura que nem todo sofrimento irá construir caráter, a nossa santificação é por intermédio da ação do Espirito Santo juntamente com os meios de graça.

Essas foram algumas respostas a este problema. Mas, será que existe uma resposta que podemos utilizar? Na verdade, eu não conheço uma resposta satisfatória, porém, a partir de minhas leituras, entendo que podemos ver o mal da seguinte forma. 

Confissão de Fé de Westminster, diz:

“Desde toda a eternidade, Deus, pelo muito sábio e santo conselho da sua própria vontade, ordenou livre e inalteravelmente tudo quanto acontece, porém de modo que nem Deus é o autor do pecado, nem violentada é a vontade da criatura, nem é tirada a liberdade ou contingência das causas secundárias, antes estabelecidas”. (III.I)

Ou seja, mesmo que Deus tenha ordenado tudo quanto existe, Deus não é o autor do mal e é isso que diz a Escritura, quando diz o profeta que “Tu és tão puro de olhos, que não podes ver o mal” (Hc 1.13). E assim podemos formar um silogismo cristão:


       • Premissa 1: Deus é todo-bom (onibenevolente)
       • Premissa 2: Deus é todo-poderoso (onipotente)
       • Premissa 3: Sofrimento e mal existem


Conclusão: Deus deve ter tido boas razões para permitir o mal e o sofrimento. Pois, é visto pelo testemunho escriturístico que Deus usa o mal e o sofrimento para alcançar um bem maior, mesmo que não saibamos qual é a razão. E assim a denominamos de a Defesa do Bem Maior. 


O texto paulino diz que “tudo coopera para o bem de quem ama a Deus” (Rm 8.28). Então, alegar que a presença do mal no mundo é boa,  pode ser válido. Porque até mesmo algumas vezes, temos que passar por algum mal, sermos afligidos com dor por um bom propósito: cirurgia para uma cura, punições em crianças para discipliná-las. Portanto, talvez Deus tenha um bom propósito em permitir o mal. 

A defesa do bem maior parte da nossa base sólida de argumentação, as Escrituras. E as Escrituras nos mostram que Deus usa o mal de forma positiva, como nos mostra John Frame:

Para provar os seus servos (Jó; 1Pe 1.7; Tg 1.13), para discipliná-los (Hb 12.7-11), para preservar a vida deles (Gn 50.20), para ensinar paciência e perseverança (Tg 1.3-4), para redirecionar a sua atenção para o que é mais importante (Sl 37), para capacitá-los a consolar e fortalecer outras pessoas (2Co 1.3-7), para habilitá-los a dar vigoroso testemunho da verdade (At 7), para dar-lhes maior alegria quando o sofrimento é substituído pela glória (1Pe 4.13), para julgar os ímpios tanto no decorrer da história (Dt 28.15-68), como na vida por vir (Mt 27.41-46), para recompensar os crentes perseguidos (Mt 5.10-12) e para manifestar a obra de Deus (Jo 9.3; cf. Êx 9.16; Rm 9.17). [4]

As Escrituras lidam com o problema do mal de forma teocêntrica, porque todas as vezes que a objeção do mal no mundo é levantada, é devido a questão que a humanidade supostamente ser boa. O propósito primário e último da nossa existência é “glorificar a Deus e gozá-lo para sempre”. Claro que a Bíblia não proíbe a felicidade humana, mas esta felicidade deve ser para a glória de Deus. 


E, por que é teocêntrica? Porque o único inocente que existiu e existe foi tratado como pecador, mesmo sem cometer nenhum pecado, e o mesmo morreu no lugar dos filhos de Deus. Em Cristo, a ira de Deus, por causa da maldade humana é derramada na cruz.

Deus rege este mundo em seus padrões e temos que definir o que seria o nosso conceito de bondade. Nisso, cremos que Deus é o absoluto moral, e se o incrédulo trata o problema do mal, nós tratamos do problema do bem. Primeiro como um incrédulo, que não crê em Deus, sabe o que é o bem e o mal? Se não há absolutos, ele não saberá o que é realmente bem e mal. E esse é o problema que o incrédulo pode enfrentar, pois mesmo com o mal existente há pessoas que desenvolvem habilidades e dons maravilhosos, os quais foram concedidos por Deus, o que chamamos de graça comum. “O Senhor é bom para todos, e as suas misericórdias são sobre todas as suas obras” e “Abres a mão e satisfazes de benevolência a todo vivente” (Sl 145.9,16). Ou seja, como pode haver pessoas com dons, talentos e aptidões em um mundo mal? 

Então, a minha conclusão sobre a defesa do bem maior é que, certamente, o bem que Deus dá e tem a revelar no último dia é bem maior e maravilhoso do que os males que temos visto, porque “a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação” (2Co 4.7). De modo maravilhoso na vida de José, Deus agiu providencialmente para extrair o bem do mal, quando isso parecia uma impossibilidade total, nós não poderíamos confiar que Deus extrairá bem dos restantes de males que vivenciamos? 

3. Deus é criador dos céus e da terra

A minha explicação aqui não é sobre como surgiu o mundo, criacionismo ou evolucionismo. Mas para que Deus criou este mundo, e tal descrição será pelo viés bíblico, partindo do Senhor como um Senhor pactual. 

A Escritura revela que todas as coisas foram criadas em Cristo e para Cristo. Deus estabeleceu formas de como a humanidade deveria se portar diante do seu Criador. 

No livro de Gênesis temos o que chamamos de mandatos pactuais, assim como a criação nos mostra que devemos adorar a Deus somente, Deus nos criou para um relacionamento pactual cúltico com Ele (Mandato Espiritual), um relacionamento entre a família que glorifique a Deus (Mandato Social) e que a nossa cultura, arte e trabalho sejam para a glória de Deus (Mandato Cultural). 

Mandato Espiritual - Deus criou Adão e Eva como nossos primeiros pais, à sua imagem e semelhança. Este mandato envolve um relacionamento com o Deus que nos fez a Sua imagem (Gn 1.26). Uma paz entre Ele e suas criaturas, o qual, também, estabeleceu um dia de descanso de nossas obras para dedicarmos inteiramente a Ele em santidade. 

Mandato Social – Deus ordena aos nossos primeiros pais que eles deveriam ser fecundos, que o homem deve ser a cabeça e que a mulher seria a auxiliadora.[5] Este mandato que envolve um relacionamento não só com Deus, envolve também a família que por Deus fora criada - a liderança dos pais em saber guiar as suas famílias, segundo a ordem de Deus. 

Mandato Cultural – A palavra “cultura” tem a mesma raiz de “cultivar”, a qual aparece em Gn 2.15 na ordem dada por Deus à Adão que ele deveria “cultivar a terra”. Este mandato tem como sentido tirar da terra o seu cultivo, não só na forma de trabalho braçal, mas nas artes, ciência, música e etc.. Ou seja, tudo aquilo que envolve cultura. 

Mas, com a queda de nossos primeiros pais, este relacionamento é quebrado, fazendo com que todos estes mandatos fossem danificados. O homem já não consegue adorar a Deus realmente, porque passou a ser idólatra, criando para si deuses, vivendo em guerra com sua família, fazendo que pais matem os filhos e os filhos matem os pais, e seu trabalho juntamente com sua cultura, foi danificado e penoso, a terra foi amaldiçoada por causa dele.

Assim como em Cristo e para Cristo o mundo é criado, o é também na nova criação, o qual eu chamo de parte um. Paulo usa o exemplo da criação em Gn 1.3 para falar da luz que Deus fez aparecer em nossos corações enegrecidos pelo pecado: “Porque Deus, disse que das trevas resplandecesse a luz, é quem resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo” (2 Co 4.6). Assim, podemos ver que a nossa salvação é parte do ato criativo de Deus, pois somos chamados de “nova criatura” (2 Co 5.17). E, da mesma forma que Deus criou o homem (humanidade) à sua imagem, recria os crentes à imagem de Cristo (Rm 8.29). Assim como por sua Palavra Ele criou e sustenta todas as coisas (Sl 33.6,9), também, por sua Palavra, doa-nos a fé para cremos em Cristo (Rm 10.17; Ef 1.13). 

A nossa transformação pela graça de Deus é apenas o começo dos novos céus e nova terra (parte dois e última) (Is 65.17-18; 66.22; 2Pe 3.10-13; Ap 21.1-4) nos quais habita a justiça de Deus. Os crentes são o princípio da obra redentora de Deus (Cl 1.20) que resultará na consumação final, porque a presente criação como demonstrou acima, foi amaldiçoada pela queda do homem (Gn 3.16-19),

Porque a ardente expectação da criatura espera a manifestação dos filhos de Deus. Porque a criação ficou sujeita à vaidade, não por sua vontade, mas por causa do que a sujeitou, na esperança de que também a mesma criatura será libertada da servidão da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus” (Rm 8.19-21).

Crer que Deus é o criador dos céus e da terra é crer que o mesmo Deus nos fez novas criaturas, por intermédio de Seu Filho, para que vivamos nos Novos Céus e Nova Terra. Pois, de forma pactual, Cristo derrama seu sangue, o sangue da nova aliança, para fazer de dois um só povo. 

Conclusão

O Credo dos Apóstolos é um documento muito importante para a instrução da fé cristã e um documento que permanece atualizado, do qual podemos tirar várias lições. Ele começa de forma maravilhosa, mostrando e exaltando a Deus, nos dando o exemplo de como deve ser a nossa vida – crendo que Deus é Soberano sobre tudo e todos; um Deus amoroso que criou todas as coisas para o louvor de Sua glória. Mundo este o qual Deus tem total controle e, misericordiosamente, age graciosamente com todos os seres humanos, mesmo que alguns não façam parte de Seu rebanho, Deus é misericordioso.

Coloquemos a nossa confiança neste Deus e Pai Todo Poderoso que criou os céus e a terra.

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Notas:
[1] PACKER, J.I., Teologia Concisa. 2.ed. – São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 147. 
[2] SPROUL, R.C., Estudos expositivos em Romanos – São Paulo: Cultura Cristã, 2011, p.243
[3] FRAME, John. A doutrina de Deus. – São Paulo: Cultura Cristã, 2013, p.136
[4] Ibid., 143
[5] Algumas cristãs feministas criticam o termo auxiliadora, alegando que tal título menospreza a mulher. Mas o que elas não sabem que o titulo “auxiliadora” é aplicado à mulher e depois a Deus (cf. Sl 33.22; 38.33). Ou seja, quando a mulher cumpre o seu papel de auxiliadora ela cumpre um papel que se refere à imagem de Deus. 

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Fonte: Bereianos
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Lúcifer: quem ou o quê?

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Por Robert L. Alden


A única menção de Lúcifer na Bíblia está em Isaías 14:12. As notas marginais de muitas Bíblias dirigem a atenção para Lucas 10:18, onde lemos as palavras de Jesus: “Eu via Satanás, como raio, cair do céu”. Eu não aprovo tal relação e buscarei mostrar o motivo nos parágrafos seguintes. A tradução da frase helel ben shachar em Isaías 14:12 não é fácil. O bem shachar não é o problema.[1] A frase significa “filho da alva” ou similares. A estrela da manhã é o filho da manhã. O termo hebraico ben – “filho” significa algo muito próximo, dependente ou descrito pela palavra seguinte no estado absoluto.[2] Mas helel é um nome? É um substantivo comum? É um verbo? A palavra helel aparece em Zacarias 11:2 em paralelo com um verbo cujas letras radicais são yll. Assim, ambos significam “uivo” ou “berro” e são aparentemente onomatopéias. Em Ezequiel 21:12 (v. 17 em hebraico) temos uma situação similar. Ali helel é paralelo a z’q, que significa “gritar”. Jeremias 47:2 tem uma forma relacionada (hiph’il) e ali a palavra é traduzida como “lamento”. A versão síria, entre outras, entende assim a palavra em questão: “Como caíste do céu! Uivo na manhã…”.[3]

Todavia, muitos tradutores e comentaristas escolhem traduzir a palavra como um substantivo. O grego tem heosphoros e o latim lucifer. Os dois termos significam “portador de luz”. As traduções da Septuaginta e da Vulgata, juntamente com os principais rabinos e a maioria dos antigos escritores cristãos entendiam a palavra como um derivativo de hll, “brilhar”. Por conseguinte, ela significa “aquele que brilha” ou “aquele que resplandece”. Isso, sem dúvida, se encaixa melhor com o restante da frase ben shachar, “filho da alva”. 

Tertuliano, comentando sobre Isaías 14:12, disse: “Isso deve significar o diabo…”.[4] Orígenes, também, prontamente identificou “Lúcifer” com Satanás.[5] O Paraíso Perdido de John Milton contribuiu para a disseminação dessa noção errônea:

               … Cidade e corte do infernal tirano,
               Que Lúcifer chamado foi outrora
               Por se lhe assemelhar da tarde a estrela… [6]

Disso surgiu a perversão popular do belo nome Lúcifer para significar o Diabo.[7]

O argumento para entender helel como uma forma substantiva derivada do verbo significando “brilhar” é forte. Pelo menos três idiomas semíticos em adição ao hebraico têm uma forma dessa palavra e todas significam “brilho” ou “luz”. Há o acadiano ellu, o ugarítico hll e o árabe halla. “Lua nova” em árabe é hilal.[8] A forma feminina do acadiano é ellitu e é um nome para a deusa Ishtar. Ela é chamada também de mushtilil, “aquela que resplandece”.[9] Ela é Ashtar em fenício e ugarítico.[10] Os árabes chamam Vênus de zahra, “o brilho resplandecente”.[11] Considere também o germânico Helle, “brilho”.

Há uma observação adicional com respeito à estrela da manhã e a deusa.[12] Isaías 14:12 tem “filho” da manhã, não um feminino como esperaríamos. Além do mais, a tradução grega é uma palavra masculina.[13] Como sabemos agora, as estrelas da manhã e da noite são as mesmas, embora os antigos semíticos viam-nas como gêmeas. Albright julga a partir da evidência acadiana que esse deus era originalmente bi-sexual, sendo macho de manhã e fêmea de noite.[14] Na literatura ugarítica os nomes das crianças seduzidas pelo deus El são shchr e shlm.[15] Dessa forma, elas representam o nascer-do-sol e o pôr-do-sol. Temos sachar em árabe, seru em acadiano e sachra em aramaico para a manhã e shalam shamshi em acadiano para a noite.[16] A palavra germânica “Morgenröte” pode descrever melhor shachar, sendo ela aquele breve momento antes do romper da aurora.[17]

Por causa da conexão das palavras em Isaías com aquelas que descrevem a mitologia não-israelita, muitos têm sido rápidos em fazer a associação. Eissfeldt, por exemplo, diz que isso e Ezequiel 28:1-19 sobressaem excepcionalmente como mitos reais, isto é, eles não foram transformados ou convertidos ao padrão de pensamento teológico hebraico.[18] Tal conexão é desnecessária. Primeiro, não temos nenhuma evidência de uma história do Oriente Médio lidando com a rebelião de um deus mais jovem contra um deus principal. Em segundo lugar, Isaías poderia muito bem ter feito referência à glória da alva e usado à estrela da manhã para ilustrar seu ponto puramente em e de si mesmo.

Discutimos o significado das palavras helel ben shachar e descobrimos ser melhor traduzi-las como “aquele que brilha, filho da manhã” ou similares. “Lúcifer” é perfeitamente bom também (especialmente para o povo de fala latina), exceto pelo fato de ter sido mal-interpretada tão grandemente que é melhor evitarmos a mesma.

Mas a pergunta permanece – por que isso não pode ser o Diabo? Consideremos o contexto. Os capítulos 13 e 14 de Isaías lidam com Babilônia. Lemos em Isaías 13:1: “O oráculo com respeito à Babilônia, que viu Isaías, filho de Amós”. O capítulo 13 lida com a nação como um todo. O versículo 19 resume o capítulo:

E Babilônia, o ornamento dos reinos, a glória e a soberba dos caldeus, será como Sodoma e Gomorra, quando Deus as transtornou.

O capítulo 14 abre com as palavras confortantes em prosa à casa de Jacó (vv. 1-3). Então Deus os instruiu a cantar esse cântico sarcástico contra o rei da Babilônia (v. 4). Os versículos 7 até o 20 são um lamento zombeteiro. Primeiro as terras regozijam-se, especialmente as árvores, pois o lenhador não vem mais cortá-la – isto é, o rei está morto. O inferno é o cenário dos versículos 9-26. O fantasma daqueles que já estão lá expressam surpresa diante dos recém-chegados. “Tu também”, dizem eles (v. 10). O versículo 12 é uma citação dos indivíduos no inferno.

               Como caíste desde o céu,
               ó Estrela da Manhã, filho da Alva!

Eles continuam, lembrando o rei das suas ostentações de igualdade e mesmo superioridade a Deus, mas conclui observando que sua morte foi muito vergonhosa, tendo sido “lançado da tua sepultura…”. Resumindo, esse lamento nos fala da queda de uma Babilônia tirana. Seu reino de terror terminou e ele não deve ser mais temido. Isso descreve Satanás também? O acusador caiu de uma posição de poder? O adversário cessou de governar o mundo com “golpes incessantes e perseguição dura” (v. 6)? Pelo contrário, Satanás tem muito poder. Ele é o deus deste mundo (2Co 4:4) e o príncipe do poder dos ares (Ef 2:2). Em nenhum sentido ele caiu de uma posição de reinado neste mundo. O rei da Babilônia se foi e não é mais ouvido. Não é assim com Satanás! Sua “queda” marcou o início do seu reinado perverso. A queda do rei da Babilônia marcou o fim do seu reinado perverso. Lúcifer não pode ser Satanás. Isaías não está falando de Satanás no capítulo 14.[19]

Antes de concluir, seria interessante examinar as expressões bíblicas relacionadas a isso em Isaías 14:12.[22] Estrelas e em particular a estrela da manhã (que é na verdade um planeta) são algumas vezes usadas para o Messias, bem como para Satanás. Em Números 24:17b lemos: uma estrela procederá de Jacó e um cetro subirá de Israel.

Lemos em 2 Pedro 2:19: “E temos, mui firme, a palavra dos profetas, à qual bem fazeis em estar atentos, como a uma luz que alumia em lugar escuro, até que o dia amanheça, e a estrela da alva apareça em vossos corações”. Ao anjo da igreja em Tiatira, João foi ordenado a escrever o seguinte (Ap. 2:28): “E dar-lhe-ei a estrela da manhã”. Apocalipse 22:16 é mais conclusivo: “Eu, Jesus, enviei o meu anjo, para vos testificar estas coisas nas igrejas. Eu sou a raiz e a geração de Davi, a resplandecente estrela da manhã”.

Não negamos a conexão de Satanás com a luz. Nem negamos que ele teve um certo tipo de queda.[23] Observe Lucas 10:18 novamente: “Eu via Satanás, como raio, cair do céu”. Em adição, encontramos 2Co 11:14: “E não é maravilha, porque o próprio Satanás se transfigura em anjo de luz”. Em nenhum desses exemplos a luz é algo mau. No último o termo é especialmente algo bom. No livro apócrifo de Eclesiásticos (50:6), lemos que Simão o filho de Onias era “como a estrela da manhã no meio de uma nuvem e como a lua nos dias de lua cheia” quando ele saiu do santuário. Finalmente, havia o falso messias Bar Kochba. Seu nome significa “filho de uma estrela”.

Para resumir e concluir, observemos simplesmente esses fatores salientes. Lúcifer é perfeitamente uma boa tradução de hll em Isaías 14:12. O significado “portador de luz” ou “estrela da manhã” é apropriado. Mas o capítulo lida somente com a queda do rei de Babilônia e esse versículo em particular. Que Satanás inspirou o rei perverso enquanto ele governava todos os homens degenerados é inegável, mas isso é muito diferente de dizer que Lúcifer é Satanás. A estrela da manhã é algo belo de contemplar e tem uma tarefa mui notável nos céus, aquela de anunciar o novo dia. O rei ostentava ser tão grande quanto Deus, e Isaías assemelha o mesmo àquela estrela que é bela por um momento, mas rapidamente é eclipsada pela glória do próprio sol. Que Satanás fez tal ostentação não é conhecido.[21] Não temos justificativa para tal identificação aqui, assim como não temos em Ezequiel 28, onde o rei de Tiro está em vista. Lúcifer é somente o arrogante, porém agora caído rei da Babilônia.

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Notas:
1. Although Winckler (Geschichte Israel, ii, 24) sugere shahar para shachar; por consguinte, “filho da lua”. A palavra aparece em Judas 8:21, 26 e Isaías 3:18.
2. Cf. Is. 5:1, “uma colina muito frutífera” é literalmente “um chifre do filho do oleo”.
3. George M. Lamsa, The Holy Bible from Ancient Eastern Manuscripts (Philadelphia: Holman, 1957).
4. Against Marcion, Bk. V, ch. xviii (em The Ante‐Nicene Fathers, ed. Alexander Roberts and James Donaldson [Grand Rapids: Eerdmans, 1951], Vol. III, p. 466).
5. De Principiis, Bk. 1, ch. v (em Ibid. Vol. IV, p. 259).
6. (Chicago: Homewood Publishing Co.) p. 364s.
7. Cf. Joseph Addison Alexander, Commentary on the Prophecies of Isaiah (Grand Rapids: Zondervan, 1963 [originalmente publicado em 1865]), p. 295.
8. Lexicon in Veteris Testamenti, ed. Ludwig Köhler and Walter Baumgartner (Leiden: Brill, 1951).
9. H. Skinner, Isaiah I‐XXXIX em Cambridge Bible for Schools and Colleges ed. A. F. Kirkpatrick (Cambridge: University Press, 1954), p. 122.
10. P. Grelot, “Sur la Vocalisation de hyll (Is. XIG 12)” em Vetus Testamentum, 6 (1956), pp. 303s.
11. Edward J. Young, The Book of Isaiah (Grand Rapids: Eerdmans, 1965), Vol. I, p. 440n.
12. Gunkel foi o primeiro a igualar helel com a estrela da manhã. Veja seu Schoplung und Chaos im Urzeit und Endzeit (Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 2nd ed. 1921), pp. 255s.
13. Franz Delitzsch, Isaiah I in Commentaries on the Old Testament, trans. James Martin (Grand Rapids: Eerdmans, 1950), pp. 311s.
14. Archaeology and the Religion of Israel (Baltimore: Johns Hopkins, 1953), pp. 83s.
15. Há também um ben ’bd shchr numa lista de nome em 308 1, 19 de acordo com o catálogo de Gorden.
16. Cf. Young, Ibid. and Theodor H. Gaster, “A Canaanite Ritual Drama: The Spring Festival at Ugarit,” em Journal of the American Oriental Society, LXVI 1946, pp. 69ss.
17. Cf. Ludwig Köhler, “Die Morgenröte im Alten Testament,” em Zeitschrift für die Alttestamentliche Wissenschaft, 4 (1926), pp. 56ss.
18. The Old Testament: An Introduction, trans. P. R. Ackroyd (New York: Harper & Row, 1965), p. 36. Cf também Brevard S. Childs, Myth and Reality in the Old Testament (Naperville, Ill.: Alec Allenson, 1960), p. 68; Gottfried Quell, “Jesaja 14, 1–23,” em Erlanger Forschungen Reihe A, Band 10 (Erlangen: Rost, 1959 [Festschrift Friedrich Baumgärtel]), pp. 150–53; Julian Morgenstern em Hebrew Union College Annual 14 (1939), pp. 109ss; e Edmond Jacob, Theology of the Old Testament, trans. A. W. Heathcote & P. J. Allcock (London: Hodder & Stoughton, 1958), p. 327s.
19. Nem Ezequiel em Ezequiel 28 quando a queda do rei de Tiro está em vista.
20. Cf. também João 8:44, “… o diabo…um homicida desde o princípio…”.
21. Cf. Ap. 12:8–9.

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Sobre o autor: Robert L. Alden foi professor Assistente de Antigo Testamento, Seminário Batista Conservador, Denver, Colorado.

Fonte: Bulletin of the Evangelical Theological Society 11:1 (Winter 1968):35-39.
Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto. Traduzido em agosto de 2008.
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O Deus Falível do Molinismo

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Por James N. Anderson


Recentemente ouvi o bate-papo sobre Molinismo e Calvinismo entre William Lane Craig e Paul Helm no programa de rádio Unbelievable? de Justin Brierley. Foi mais uma conversa que um debate, mas ainda assim vale a pena ouvir. Nesta postagem eu quero expandir um ponto levantado por Helm, mas não desenvolvido por ele. Primeiro eu resumirei os principais dogmas do Molinismo antes de discutir o que eu considero ser uma séria objeção a ele (seja paciente – a primeira metade desta postagem é apenas a armadilha).

Molinismo é uma teoria filosófica planejada para reconciliar uma forte visão da providência divina (segundo a qual Deus preordena todas as coisas) com uma visão libertária do livre-arbítrio e uma visão sinergista da salvação (segundo a qual não é causada por Deus para qualquer arrependimento e crença; ao invés, os pecadores cooperaram livremente com a graça resistível de Deus a fim de serem salvos). De acordo com o Molinismo, Deus é capaz de, providencialmente, dirigir eventos por meio de seu conhecimento médio, isto é, seu conhecimento do que qualquer criatura libertariana-livre escolheria em qualquer circunstância específica. Por exemplo, Deus sabia de antemão antes do tempo de sua decisão de criar este mundo que eu livremente escolheria um Boston Kreme se eu fosse ao Dukin’ Donuts na noite de 19 de fevereiro de 2014 em tais e tais circunstâncias exatas. Deus, então, é capaz de planejar eventos do primeiro ao último em muitos detalhes por pré-arranjar as circunstâncias precisas nas quais suas criaturas se encontrariam e fariam suas escolhas livres. Deus não causou as escolhas, ele apenas garantiu-lhes em algum forte sentido por orquestrar as circunstâncias à luz de seu conhecimento médio.

Molinistas estão, portanto, comprometidos com três afirmações principais. Primeiro, Deus preordenou todas as coisas, incluindo as livres escolhas de suas criaturas. Craig foi bastante enfático sobre isso durante a conversa com Helm. Ele declarou que Deus ‘preordenou’ todas as coisas e ironizou que ele poderia afirmar quase tudo que a Confissão de Fé de Westminster diz sobre o Decreto eterno de Deus e a Providência de Deus – à parte da rejeição deliberada confissão do Molinismo (no a cláusula final em CFW 3.2)

A razão de Molinistas tais como o Craig quererem afirmar isto é porque eles reconhecem que a Bíblia tem uma forte visão da providência (e.g Gen. 50:20; Matt. 10:29-30; Acts 4:27-28; Rom. 8:28; Eph. 1:11). E eles devem ser elogiados por reconhecerem isso (embora, como explicarei em breve, a visão bíblica é mesmo mais forte do que eles pensam).

Em segundo lugar, por afirmar uma visão libertária do livre-arbítrio, os Molinistas estão comprometidos com ideia de que se uma pessoa S escolhe livremente A em uma circunstância específica C, então deve ser possível para S não ter escolhido A. Pode ser mais provável (talvez até esmagadoramente assim) que S escolherá A sobre não-A, mas não deve ser possível para S ter escolhido de outra forma. (Aqui estou sem levar em conta a distinção que alguns libertários fazem entre escolhas derivativas e não-derivativamente livres. No que se segue, para simplificar, vou ignorar as escolhas derivativamente livres. Não penso que a distinção afete meu argumento).

Molinistas, então, estão comprometidos com o seguinte:

(1) Se S escolhe livremente A em C, então é possível para S não escolher A em C.

Ou, colocando a questão em termos de mundos possíveis:

(1’) Se S escolhe livremente A em C, então existe ao menos um mundo possível no qual S não escolhe A.

Observe que nessa demonstração, C aqui deveria ser entendido como, de fato, a história inteira do universo até o momento da escolha de S. O ponto é que a escolha de S não é determinada (ou, pelo menos causadamente determinada) por qualquer evento anterior ou estados do universo (incluindo o caráter de S, experiências passadas, memórias, crenças, desejos etc)

Em terceiro lugar, o Molinista afirma que Deus tem conhecimento médio, isto é, conhecimento dos contrafactuais da liberdade (por falta de um nome melhor). Deus, então, sabe, antes de sua decisão de criar um mundo particular, verdades condicionais subjuntivas como a que se segue:

 (2) Se S estivesse em C, S livremente escolheria A.

Este é o conhecimento, afirma o Molinista, que permite a Deus preordenar os eventos. Desde que Deus conhece o que cada possível criatura escolheria livremente em cada possível circunstância, consequentemente ele pode planejar. Ele pode saber de antemão como as coisas iriam se ele fosse para criar determinadas pessoas e arranjá-las para fazerem suas escolhas em circunstâncias particulares.

Isso significa que Deus não pode atualizar qualquer mundo possível. Molinistas como Craig farão distinção entre mundos possíveis e mundos factíveis.[2] Todos os mundos factíveis são mundos possíveis, mas nem todos os mundos possíveis são mundos factíveis. Um mundo factível é um mundo possível que Deus pode atualizar com base em seu conhecimento médio: seu conhecimento de verdades como (2). Ele pode “atualizar fracamente” qualquer desses mundos factíveis por “atualizar fortemente” aqueles elementos do mundo sob seu controle causal, a saber, cujas criaturas existem e em cujas circunstâncias elas se encontram. Por seu conhecimento médio, Deus conhece quais mundos possíveis são mundos factíveis, e ele decide (com base em certos critérios) quais dos mundos factíveis (fracamente) atualizar. E esta é a visão Molinista da divina preordenação.

Deveria ser observado que o Molinista não é sempre claro sobre o que conta como circunstâncias em verdades como (2). As circunstâncias incluem o decreto de Deus ou a presciência de Deus, por exemplo? Felizmente, nós não precisamos resolver essa questão aqui, tão logo reconheçamos isso, o que quer que esteja incluído em C em (2) também deve ser incluído em C em (1) e (1’)

[Addendum: Greg Welty assinalou o que eu coloquei acima. Vejam abaixo seus comentários e minhas respostas. Em suma, não importa como as circunstâncias são definidas, mas eu penso que o Molinista enfrenta sérios problemas de qualquer maneira]

Bem, tanto para o contexto, a questão que eu quero colocar é simplesmente esta:

Deus é infalível na visão Molinista?

Eu suspeito que muitos seriam inclinados a responder sim. Face a essa situação, esperaríamos Deus ser infalível. “Deus falível” dificilmente soa bem! Mais significantemente, a Bíblia ensina explicitamente que os planos de Deus não podem falhar. Os propósitos de Deus sempre serão cumpridos.

Então Jó respondeu ao Senhor, dizendo: ‘Eu sei que tu podes fazer todas as coisas, e que nenhum dos teus propósitos pode ser frustrado.” (Jó 42.1, 2)

Muitos são os planos na mente de um homem, mas é o propósito do Senhor que prevalecerá.” (Prov. 19.21)

O SENHOR dos Exércitos jurou: Como pensei, assim se cumprirá; como determinei, assim acontecerá[...]O SENHOR dos Exércitos determinou isso! Quem o invalidará? A sua mão está estendida! Quem a fará recuar?.” (Is. 14.24, 27)

Lembrai-vos disso e considerai; trazei-o à memória, ó transgressores. Lembrai-vos das coisas passadas desde a antiguidade: Que eu sou Deus, e não há outro; eu sou Deus, e não há outro semelhante a mim.  Sou eu que anuncio o fim desde o princípio, e desde a antiguidade, as coisas que ainda não sucederam; sou eu que digo: O meu conselho subsistirá, e realizarei toda a minha vontade,  chamando do oriente uma ave de rapina, e de uma nação distante, o homem do meu conselho; sim, eu disse e cumprirei essas coisas. Estabeleci esse propósito e também o executarei. (Is 46.8 – 11)

Porque, assim como a chuva e a neve descem dos céus e não voltam para lá, mas regam a terra e a fazem produzir e brotar, para que dê semente ao semeador e pão ao que come, assim será a palavra que sair da minha boca; não voltará para mim vazia, mas fará o que me agrada e cumprirá com êxito o propósito da sua missão.” (Is 55.10, 11)

Claro, o Molinista está familiarizado com esses textos. A forte visão da providência divina expressa na Escritura é uma das razões que favorece o Molinismo sobre outras posições que compartilham um compromisso com o livre-arbítrio libertário.

Todavia, deveria estar claro a partir o exposto acima que, de acordo com a posição Molinista existem mundos possíveis nos quais os planos de Deus falham. Porque o Molinista está comprometido em afirmar que, embora Deus conheça que S escolheria A em C, e ele não atualiza C porque ele planeja para S escolher A, não deixa de ser possível para S não escolher A em C (Craig claramente afirma este ponto várias vezes em sua conversa com Helm). Em outras palavras, existem mundos possíveis nos quais Deus atualiza C de modo que S escolherá A, mas S não escolhe A. Existem mundos possíveis nos quais o decreto eterno de Deus não acontecerá, porque agentes livre-libertários farão outra coisa do que ele tinha planejado.

A conclusão é esta: com base na posição Molinista existem alguns mundos possíveis nos quais Deus é falível. De fato, existem muitos, mas muitos de tais mundos. Qualquer mundo em que o plano de Deus falhe é um mundo no qual Deus é falível. Parece-me que esta conclusão é construída sobre o sistema molinista.

Então, o que um Molinista poderia dizer em sua resposta? Uma resposta seria a de dizer que Deus não é necessariamente infalível: ele não é infalível em todo mundo possível, mas ele é infalível neste mundo (pelo menos). Deus é contingentemente infalível.

Mas eu penso que existem diversos problemas sérios com esta resposta. Em primeiro lugar, a própria noção de “infalibilidade contingente” é logicamente suspeita. Diante disso, infalibilidade seria um conceito modal. Ela diz respeito à falha possível, não simplesmente a falha real. Infalível não significa não falível, e falível significa capaz de falhar. Se uma pessoa é falível, não o é porque ele tem falhado ou porque ele falhará mas porque ele poderia falhar. Afinal, não há nada logicamente inconsistente em dizer que S é falível, mas S não falhou (ou falharia) realmente. O que seria inconsistente de maneira direta seria dizer que S é falível, mas S não pode falhar.

Portanto, não poderíamos descrever alguém como infalível simplesmente porque ele realmente tem sucesso em todos os casos, mesmo que ele possa ter falhado em algum ponto. Infalibilidade, certamente, exige que alguém não pode falhar, mesmo em princípio. Então, não é claro que a noção de “infalibilidade contingente” é mesmo coerente.

Se eu estou certo sobre isso, então o Molinista não deveria dizer que Deus é infalível. Pois, se Deus não é infalível em todo mundo possível, então ele não é infalível em qualquer mundo possível, incluindo o mundo atual. (Eu observo, para registro, que este argumento pressupõe alguns princípios modais amplamente-controlados que eu não estou a defender aqui, precisamente porque eles são amplamente controlados!).

Em Segundo lugar, esses mundos com falhas-divinas apresentam um problema para o Molinista que está comprometido com o ser perfeito da teologia (que é maioria, penso). Se Deus é apenas contingentemente infalível, segue-se que Deus não possui máxima grandeza: pois um ser que é necessariamente infalível é maior que um ser que é contingentemente infalível. Um ser que é infalível em todos os mundos possíveis é maior que um ser que é infalível em apenas alguns mundos possíveis. (É digno de nota que Alvin Plantinga, que introduziu a noção de grandeza máxima em sua defesa do Argumento Ontológico, é um dos mais proeminentes advogados do Molinismo).

A única saída desta situação para o Molinista, tanto quanto eu posso ver, é tomar a rota que eu sugeri acima: abandonar a tese de que Deus é infalível (neste mundo ou em qualquer outro mundo possível).

Parece-me que de tudo isso expõe uma tensão não resolvida no coração do Molinismo. Quando fazemos a pergunta “Os humanos podem frustrar os planos de Deus?”, o Molinista é colocado em duas direções. Por um lado, ele desejará responder não. Afinal, Deus preordenou todas as coisas! Deus tem um decreto eterno. É inconcebível para o Molinista que o decreto de Deus fracassasse.

Mas, ao mesmo tempo, o Molinista também deve responder sim, por causa de seu comprometimento com o liver-arbítrio libertário. Ele quer afirmar (como Craig explicitamente o faz) que, embora S escolheria A em C (e, de fato, irá escolher A se Deus o decretou), e, no entanto, é possível para S não escolher A em C – e, assim, realmente é possível para S agir contrário aos planos de Deus.

Em suma, o Molinista quer ter o melhor de dois mundos.

Outro modo de ver o problema é perguntar se os mundos não-factíveis realmente são possíveis. Suponha que, de todos os mundos factíveis que ele considerou, Deus opte pelo mundo X. Não parece coerente imaginar Deus pensando: “Eu vou atualizar X um pouco (fracamente) – este é o meu decreto – mas eu sei que há uma possibilidade real de que vou terminar com outro mundo, por causa da possibilidade real que agentes livres-libertários agirão de outro modo que eu tenho planejado”. Mas, se isso não é coerente, em que sentido esses mundos são mundos realmente possíveis?

Como se percebe, essa tensão no centro do Molinismo surge porque ele ambiciona ser deterministicamente indeterminista. “Indeterminismo” por causa de seu compromisso com o livre-arbítrio libertário. “Determinista” porque o decreto de Deus, de alguma forma (não sabemos como) determina de antemão que suas criaturas farão certas escolhas. Isso pode não ser um determinismo causal, mas, apesar de tudo, é determinismo (como muitos Arminianos não-Molinistas, tais como Roger Olson, podem ver claramente). Se preordenar que S escolhe A não significa predeterminar que S escolha A, então o que significa?

O Molinismo é, certamente, uma teoria impressionante. Mas, é apenas impressionante na medida em que um truque de “jogo de copinhos e bolinha” é impressionante. É, par excellence, um truque de mão filosófico. Os Molinistas têm que ser hábeis na arte da desorientação. Agora você vê o determinismo.... e agora não vê mais!

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Notas: 
[1] Dr. James Anderson é um ministro ordenado na Associate Reformed Presbyterian Church. Dr. Anderson é professor no Reformed Theological Seminary. Especialista em Teologia Filosófica, Epistemologia da Religião e Apologética Cristã. Sua tese de doutorado, na Universidade de Edinburgh, explorou a natureza paradoxal de certas doutrinas cristãs e suas implicações para a racionalidade da fé cristã. Suas pesquisas e escritos concentram-se no pressuposicionalismo de Cornelius Van Til, particularmente sua defesa do Argumento Transcendental. Dr. Anderson tem uma antiga contribuição ao trazer a tradição Reformada em um maior diálogo com a filosofia analítica contemporânea. Ele é membro da Society of Christian Philosophers, da British Society for the Philosophy of Religion, e da Evangelical Philosophical Society.
[2] “possible world” e “feasible world”

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Fonte: Analogical Thoughts
Tradução: Por Rev. Gaspar de Souza
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