Here we stand: Uma declaração evangélica com relação ao matrimônio

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Uma coalizão de diversos líderes evangélicos reunidos pela Ethics and Religious Liberty Commission [Comissão da Liberdade Religiosa e Ética - EUA] publicou o seguinte documento:

Como cristãos evangélicos, discordamos da decisão da Suprema Corte que redefine o casamento. O Estado não criou a família, e, portanto, não deveria recriá-la à sua própria imagem. Não nos submetemos a essa visão porque a autoridade bíblica assim exige de nós. O resultado da decisão da Suprema Corte em redefinir o casamento representa o que aparentemente é a consequência de meio século no qual se testemunha o declínio matrimonial por meio do divórcio, a coabitação e uma cosmovisão de liberdade sexual quase ilimitada. As ações da Suprema Corte colocam em risco uma fábrica social já volátil ao indispor aqueles cujas crenças relativas ao casamento são motivadas por profundas convicções bíblicas e que buscam o bem comum.

A Bíblia ensina claramente a verdade imutável de que o casamento consiste de um homem e uma mulher. De Gênesis a Apocalipse, a autoridade das Escrituras testemunha acerca da natureza do matrimônio bíblico como estando exclusivamente restrito à complementaridade entre homem e mulher. Esta verdade é inegociável. O próprio Senhor Jesus afirmou que o casamento é desde o princípio (Mt 19:4-6), de forma que nenhuma instituição humana possui a autoridade para redefinir o casamento, assim como nenhuma instituição humana tem autoridade para redefinir o Evangelho, do qual o casamento, de forma misteriosa, constitui-se como reflexo (Ef 5:32). A decisão da Suprema Corte em redefinir o casamento demonstra um julgamento equivocado ao desconsiderar aquilo que a História e incontáveis civilizações nos transmitiram – todavia, representa também uma consequência na qual os próprios evangélicos, infelizmente, possuem sua parcela de culpa. Frequentemente, evangélicos professos falharam em encarnar os ideais que nos são tão queridos e que cremos serem centrais à proclamação do Evangelho.

As igrejas evangélicas devem ser fiéis ao testemunho bíblico acerca do casamento, independentemente das mudanças culturais. As igrejas evangélicas na América do Norte se encontram agora num novo cenário moral que nos conclama a atuar num contexto cada vez mais hostil à ética sexual bíblica. Isso não é algo inédito na história da igreja. Desde seus primórdios, seja nas margens da sociedade ou numa instância de influência, a igreja é definida sempre pelo Evangelho. Insistimos, pois, na afirmação de que o Evangelho traz as boas-novas para todas as pessoas, independente de a cultura considerá-las ou não como boas-novas.

O Evangelho deve moldar nossa abordagem ao testemunho público. Como evangélicos movidos pelas boas-novas de que Deus oferece reconciliação por meio da vida, morte e ressurreição de Seu Filho, Jesus, nos comprometemos a:

1) Respeitar e orar pelas autoridades que sobre nós governam, mesmo que venhamos a trabalhar, mediante o processo democrático, a fim de reconstruir a cultura do matrimônio (Rm 13:1-7);
2) Ensinar a verdade a respeito do matrimônio bíblico de uma forma que traga restauração e cura a uma cultura sexualmente deteriorada;
3) Afirmar o mandato bíblico de que todas as pessoas, incluindo indivíduos da comunidade LGBT, são criadas à imagem de Deus e merecem, portanto, dignidade e respeito;
4) Amar nosso próximo a despeito de quaisquer discordâncias que surjam como resultado dos conflitos de crenças acerca do casamento;
5) Viver com respeito e civilmente juntamente com aqueles que possam discordar de nós, visando o bem comum;
6) Cultivar uma cultura comum de liberdade religiosa que permita o florescimento da liberdade de viver e crer diferentemente. 

A redefinição do casamento não deveria acarretar a erosão da liberdade religiosa. Nos próximos anos, as instituições evangélicas poderão ser intimadas a sacrificar suas crenças sagradas sobre o casamento e sexualidade a fim de se acomodarem àquilo que a cultura exige e que a lei requer. Não temos a opção de acatar essas exigências sem violar nossas consciências e renunciar o Evangelho. Não permitiremos que o governo coaja ou infrinja os direitos das instituições em viverem segundo a crença sagrada de que apenas homens e mulheres podem contrair matrimônio entre si.

O Evangelho de Jesus Cristo determina a forma e o tom de nosso ministério. A teologia cristã considera seus ensinamentos a respeito do casamento tanto atemporais quanto imutáveis, consequentemente devemos permanecer firmes nessa crença. Ofensas e pânico não são as respostas daqueles que confiam nas promessas de um Cristo Jesus que reina. Embora acreditemos que a Suprema Corte se equivocou em sua decisão, nos comprometemos a permanecer observando firme e fielmente o ensino bíblico de que o casamento é a principal pedra angular da sociedade, projetada para unir os homens, mulheres e crianças. Prometemos, portanto, proclamar e viver essa verdade a todo custo, com convicções que são apregoadas com bondade e amor.

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Nota:
[1] A expressão "Here I stand" pode ser traduzida como "Eis-nos aqui" ou "Assim nos posicionamos". Na verdade, trata-se de uma alusão ao dito de Lutero na Dieta de Worms: "Hier stehe ich. Ich kann nicht anders", que, na versão em inglês, foi traduzido para "Here I stand, I can do no other." [Esta é a minha posição. Não posso fazer nada mais]. Desse modo, é uma expressão que remonta à coragem dos primeiros reformadores em asseverar seu comprometimento com a verdade bíblica, ao invés de diluir ou se conformar com a mentalidade e cultura predominantes.

Signatários:

A.B Vines, Senior Pastor, New Seasons Church
Afshin Ziafat, Lead Pastor, Providence Church, Frisco, Texas
Alistair Begg, Senior Pastor, Parkside Church
Andrew T. Walker, Director of Policy Studies, Ethics and Religious Liberty Commission
Barrett Duke, Vice President for Public Policy and Research and Director of the Research Institute, Ethics and Religious Liberty Commission
Bart Barber, Pastor, First Baptist Church of Farmersville
Bruce Frank, Senior Pastor, Biltmore Baptist Church
Bruce Riley Ashford, Provost, Southeastern Baptist Theological Seminary
Bryan Carter, Pastor, Concord Church
Bryan Chapell, Senior Pastor, Grace Presbyterian Church
Bryan Loritts, Pastor of Preaching and Mission, Trinity Grace Church, Kainos Movement
Bryant Wright, Senior Pastor, Johnson Ferry Baptist Church
Carmen Fowler LaBerge, President, Presbyterian Lay Committee
Christine Hoover, Author
Christopher Yuan, Speaker, Author, Bible teacher
Clint Pressley, Pastor, Hickory Grove Baptist Church
Collin Hansen, Editorial Director, The Gospel Coalition
D. A. Carson, Research Professor of New Testament, Trinity Evangelical Divinity School
D.A. Horton, Director of ReachLife Ministries, National Coordinator for Urban Student Missions
Daniel Darling, Vice-President of Communications, The Ethics and Religious Liberty Commission
Daniel Patterson, Chief of Staff, The Ethics and Religious Liberty Commission
Danny Akin, President, Southeastern Baptist Theological Seminary
David E. Prince, Assistant Professor of Christian Preaching, The Southern Baptist Theological Seminary
David French, National Review
David Jeremiah, Senior Pastor, Shadow Mountain Community Church
David Platt, President, International Mission Board
David S. Dockery, President, Trinity International University/Trinity Evangelical Divinity School
David Uth, Senior Pastor, First Baptist Orlando
Dean Inserra, Lead Pastor, City Church, Tallahassee
Dennis Rainey, President, FamilyLife Today
Denny Burk, Professor of Biblical Studies, Boyce College
Edgar Aponte, Director of Hispanic Leadership Development, Southeastern Baptist Theological Seminary
Eric M. Mason, Lead Pastor, Epiphany Fellowship Church
Eric Teetsel, Executive Director, Manhattan Declaration
Erik Reed, Pastor, Journey Church
Erwin W. Lutzer, Senior Pastor, The Moody Church
Felix Cabrera, Pastor, Iglesia Bautista Central, Oklahoma City
Frank Page, President and CEO of the SBC Executive Committee
Fred Luter, Pastor, Franklin Avenue Baptist Church
Gabriel Salguero, President, National Latino Evangelical Coalition
Greg Laurie, Senior Pastor, Harvest Christian Fellowship
H.B. Charles Jr., Pastor-Teacher, Shiloh Metropolitan Baptist Church
Heath Lambert, Executive Director, Association of Certified Biblical Counselors
Hunter Baker, Associate Professor of Political Science and Dean of Instruction, Union University
J. Ligon Duncan III, Chancellor & CEO, John E. Richards Professor of Systematic and Historical Theology, Reformed Theological Seminary
J. P. Moreland, Distinguished Professor of Philosophy, Biola University
J.D. Greear, Pastor, The Summit Church
J.I. Packer, Board of Governors’ Professor, Theology Regent College
Jack Graham, Pastor, Prestonwood Baptist Church
Jackie Hill Perry, Writer, Speaker, Artist
James MacDonald, Senior Pastor, Harvest Bible Chapel
Jason Allen, President, Midwestern Baptist Theological Seminary
Jason Duesing, Provost, Midwestern Baptist Theological Seminary
Jeff Iorg, President, Golden Gate Baptist Theological Seminary
Jeffrey K. Jue, Provost, Westminster Theological Seminary
Jim Baucom, Senior Pastor, Columbia Baptist Church
Jim Daly, President, Focus on the Family
Jimmy Scroggins, Lead Pastor, Family Church, West Palm Beach
John Bradosky, Presiding Bishop, North American Lutheran Church
John Huffman, Board Chair Christianity Today and Gordon-Conwell Theological Seminary
John Stonestreet, Speaker and Fellow, The Chuck Colson Center for Christian Worldview
Johnny Hunt, Pastor, First Baptist Church of Woodstock
Jonathan Leeman, Editorial Director, 9Marks
Jose Abella, Pastor, Providence Road Church, Miami
Juan R. Sanchez, Jr., Senior Pastor, High Pointe Baptist Church, Austin, Texas
Justin Taylor, Author and Blogger
Karen Swallow Prior, Professor of English, Liberty University
Ken Whitten, Senior Pastor, Idlewild Baptist Church
Kevin DeYoung, Senior Pastor, University Reformed Church
Kevin Ezell, President, North American Mission Board
Kevin Smith, Teaching Pastor, Highview Baptist Church
Mac Brunson, Pastor, First Baptist Church Jacksonville
Mark Dever, Senior Pastor, Capitol Hill Baptist Church
Marvin Olasky, Editor-in-chief, WORLD Magazine
Matt Carter, Pastor of Preaching and Vision, The Austin Stone Community Church
Matt Chandler, Lead Teaching Pastor, The Village Church
Matthew Lee Anderson, Lead Writer, Mere Orthodoxy
Michael Youssef, Pastor, The Church of The Apostles in Atlanta, GA
Mike Cosper, Pastor of Worship and Arts, Sojourn Community Church
Mike Glenn, Senior Pastor, Brentwood Baptist Church
Naghmeh Abedini
Nancy Leigh DeMoss, Revive our Hearts
Nathan Finn, Dean of the School of Theology and Missions and Professor of Christian Thought and Tradition, Union University
Nathan Lino, Lead Pastor, Northeast Houston Baptist Church
Owen Strachan, President, The Council on Biblical Manhood and Womanhood
Paige Patterson, President, Southwestern Baptist Theological Seminary
Paul Chitwood, Executive Director, Kentucky Baptist Convention
Paul David Tripp, Pastor, Author, and International Conference Speaker
Paul Nyquist, President and CEO, Moody Bible Institute
Phillip Bethancourt, Executive Vice President, Ethics and Religious Liberty Commission
R. Albert Mohler, Jr., President, The Southern Baptist Theological Seminary
Ramon Osorio, Hispanic National Church Mobilizer, North American Mission Board
Randy Alcorn, Director, Eternal Perspectives Ministries
Raudel Hernandez, Pastor, Summit Español Raleigh, NC
Ray Ortlund, Lead Pastor, Immanuel Nashville
Ray Pritchard, President, Keep Believing Ministries
Richard D. Land, President, Southern Evangelical Seminary
Richard Mouw, Professor of Faith and Public Life, Fuller Seminary
Robert Sloan, President, Houston Baptist University
Roger Spradlin, Senior Pastor, Valley Baptist Church, Bakersfield, Calif.
Roland C. Warren, President & CEO, Care Net
Ron Johnson, Senior Pastor, Village Bible Church
Ron Sider, Senior Distinguished Professor of Theology, Holistic Ministry and Public Policy, Palmer Seminary at Eastern University
Ronnie Floyd, President, Southern Baptist Convention | Senior Pastor, Cross Church
Rosaria Butterfield, Author and Speaker
Russell Moore, President, Ethics and Religious Liberty Commission
Sam Storms, Lead Pastor for Preaching and Vision, Bridgeway Church
Samuel Rodriguez, President, National Hispanic Christian Leadership Conference
Samuel W. "Dub" Oliver, President, Union University
Steve Gaines, Pastor, Bellevue Baptist Church
Thom Rainer, President, LifeWay Christian Resources
Thomas White, President, Cedarville University
Timothy George, Dean and Professor of Divinity, Beeson Divinity School
Todd Wagner, Senior Pastor, Watermark Church
Tommy Nelson, Senior Pastor, Denton Bible Church
Tony Evans, Senior Pastor, Oak Cliff Bible Fellowship
Tony Merida, Pastor for Preaching, Imago Dei Church
Tory Baucum, Rector, Truro Anglican Church
Trey Brunson, First Baptist Church Jacksonville
Trillia Newbell, Director of Community Outreach, Ethics and Religious Liberty Commission
Trip Lee, Rapper, singer, poet and author
Vance Pitman, Senior Pastor, Hope Church, Las Vegas

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Fonte: Christianity Today
Tradução: Fabrício Tavares
Divulgação: Bereianos
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Casamento, divórcio e novo casamento - 2/3

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iiiii. Diretrizes para os solteiros, divorciados e viúvas (vs.6-9) 
  
Todavia, o versículo 6 está ligado ao versículo 5c, e não ao contexto inteiro, que compreende os versículos 1-5. O termo concessão συγγνώμην (syngnó̱mi̱n) denota um “sentimento compartilhado”, “ter opinião com”, e refere-se à abstinência sexual que Paulo permite que o casal observe por um tempo. 

Com o pronome demonstrativo isto, o apóstolo não se refere ao casamento em si, mas à abstinência sexual, que é uma exceção de regra dos direitos conjugais (vs.5b), do qual ele é concorde. No entanto, é importante frisar que o apóstolo não impõe essa “licença” para a abstinência sexual como um mandamento.  

Apesar de ter o dom de celibato e a capacidade para a abstinência sexual, o apóstolo não institui este dom para aqueles que não o possuem. “Paulo estabeleceu os deveres de todos os casados, mas não estabelece como dever que todos devem casar-se”.[11] No versículo 7-8, Paulo orienta três classes de pessoas: 1) os que nunca se casaram; 2) os divorciados; 3) as viúvas. 

A vontade do apóstolo é que os homens que nunca se casaram, os divorciados e a viúvas não se casem, mas permaneçam solteiros como ele. Essa afirmação expressa sua vontade, mas não um desejo improvável. Mas por qual motivo Paulo preferia que os solteiros não buscassem o casamento (vs.26,28)? O que Paulo tinha em mente com a expressão por causa da angustiosa situação no presente (vs.26a). Duas coisas, pelo menos. Senão vejamos:

1) Paulo poderia ter em mente as muitas circunstâncias presentes que afligem um casamento, como doenças, problemas financeiros, familiares, com os filhos e com o próprio cônjuge.

2) Tendo em vista o contexto histórico da carta de 1 Coríntios, a tribulação daquela época que Paulo se refere “era a destruição de Jerusalém, que ocorreu cerca de quinze anos após Paulo ter escrito 1 Coríntios. Uma das mais severas pressões que tal crise provocaria seria o impacto destruidor na vida familiar”.[12]

Hernandes Dias Lopes expande:

Paulo está se referindo ao tempo tenebroso de implacável perseguição que a igreja estava prestes a enfrentar. Paulo estava em Éfeso quando escreveu essa carta (2Co 1.8). Esse era o clima que estava surgindo no horizonte. Jerusalém estava prestes a ser cercada. Suas muralhas seriam quebradas. Jesus já havia falado em seu sermão profético: Ai das grávidas e das que amamentarem naqueles dias (Mt 24.19). Por que Jesus disse isso no sermão profético?  
No ano 70 d.C., quando Tito Vespasiano entrou em Jerusalém e quebrou os seus muros, seus soldados rasgaram as entranhas das grávidas com a espada. As mulheres grávidas não podiam correr para se livrarem. Paulo está dizendo que quem é casado numa hora de tribulação, de guerra, de perseguição, de fuga, sofre terrivelmente. Já imaginou um pai fugindo e deixando um filho para trás? Já imaginou uma mãe fugindo da guerra e deixando uma filha indefesa para trás? Já imaginou um marido fugindo e deixando sua mulher para trás? Paulo está mostrando que o clima prenunciava um tempo de uma guerra que estava chegando. Nero já despontava com sua insanidade. O cenário para a perseguição implacável aos cristãos estava montado. Roma seria incendiada em 64 d.C., e os cristãos seriam caçados, perseguidos e mortos por todos os cantos do império.[13]

O casamento é uma instituição de Deus, sendo algo bom e recomendável; entretanto, nem todas as pessoas devem almejar o casamento. Existem homens e mulheres que não possuem a vontade de se casar porque receberam de Deus a capacidade para conter-se pelo celibato. Por outro lado, existem homens e mulheres que não foram dotados com a continência; esses, portanto, devem se casar para não viverem pecando na área sexual. Paulo recebeu o dom para o celibato e se alegrou com essa condição, mas entendia que nem todas as pessoas recebem os mesmos dons. Destarte ele ensina que Deus outorga a cada pessoa o seu dom. Calvino escreve:

O estado de solteiro desfruta de muitas vantagens, e que estas não sejam subestimadas, contanto que cada um viva feliz com sua condição pessoal. Portanto, ainda que a virgindade [ou pureza sexual] seja exaltada até o terceiro céu, não obstante ainda permanece sendo verdadeiro que ela não é praticável a todos, senão apenas aos que a recebem como dom especial de Deus.[14]   
Tendo aconselhado aos não casados, Paulo, agora, dirige-se aos desprovidos da continência, dizendo no versículo 9: Mas, se vocês não podem dominar o desejo sexual, então casem, pois é melhor casar do que ficar queimando de desejo. (NTLH) Ou, conforme traduziu a NVI – pois é melhor casar do que ficar ardendo de desejo.

No grego, o verbo πυρονσθαι (pyrousthai) significa “arder, queimar”. No entanto, para que o sentido fique claro no contexto, devemos acrescentar a expressão desejo sexual. Os tradutores entendem que o verbo por si é incompleto, e por isso necessita de uma explicação. Portanto, conforme a NTLH e a NVI traduziram, o verbo arder, nesse contexto, é relacionado à incontinência. 

Paulo sabe que existem pessoas não casadas que não conseguem exercer o autocontrole na área sexual. A incontinência (desejo sexual) não é pecado, mas ceder a ela é pecado. Aquele que busca o prazer sexual através de meios pecaminosos, tais como a masturbação, pornografia e a fornicação, comete pecado. A fim de solucionar o problema da incontinência, Paulo sugere aos incontinentes que se casem. 
  
Com isso, Paulo não está repreendendo nem desaprovando os que não possuem continência. Pelo contrário, para evitar a possibilidade de ruir em pecado pela incontinência, o apóstolo ordena o casamento para os que não são casados. MacArthur acrescenta que uma pessoa não pode viver feliz e servir ao Senhor efetivamente se dominado por desejo sexual não satisfeito.15 O casamento é o meio para que os incontinentes vivam de maneira santa e felizes em servir a Deus.  
                               
b) A estabilidade do casamento (7.10-11)

Muitos cristãos que vivenciam crises no casamento, com receio do que os outros vão pensar, ficam reclusos e se fazem perguntas num tipo de introspecção. Através de três imperativos, Paulo responde a estas perguntas. Senão vejamos:

O que fazer quando um dos cônjuges se arrepende de ter casado? O que fazer quando um casamento se torna insustentável? Existem muitos casais dentro das igrejas que se arrependeram de ter-se casado, reconhecendo que cometeram um erro. Dentre os motivos do arrependimento, muitos alegam incompatibilidade, precipitação, que no casamento o cônjuge demonstrou ser uma pessoa ociosa, malandra, agressiva e pervertida sexualmente. Em suma, no casamento, o cônjuge esboçou uma faceta completamente diferente da que era no namoro. Sendo assim, o que fazer nessa situação? Cada caso deve ser analisado da melhor forma possível e sobre a égide das Escrituras. Senão vejamos o que Paulo orienta:  
     
i. O casal não deve se separar (vs.10)

Paulo, aqui, dirige-se àqueles que se casaram e estão casados. Mesmo tendo autoridade (veja 5.5, 12; 6.18; 7.5, 8), ele, agora, recorre à autoridade do Senhor Jesus. Paulo utiliza de um método retórico chamado “correctio” para esboçar mais autoridade no imperativo. Com isso, não temos apenas uma mera lembrança do apóstolo de que não foi ele quem disse tais palavras, mas Jesus. Não é muito comum encontrarmos Paulo evocar as palavras de Jesus (veja 1Co 9.14; 11.23; 1Ts 4.15; 1Tm 5.18), o que demonstra ainda mais autoridade à instrução subsequente.

O interessante é que essa prescrição não é uma citação literal das palavras de Jesus, mas uma paráfrase, isto é, uma interpretação, um comentário dos seus ensinos acerca do divórcio (Mt 5.31-32; 19.3-12; Mc 10.2-12; Lc 16.18). Paulo não estabelece uma distinção de autoridade entre o que ele diz e o que o Senhor disse. O cerne é esclarecer que o próprio Jesus deixou instrução sobre a questão do divórcio, enquanto sobre outros assuntos Paulo, como apóstolo de Cristo, é quem aplica e distende os seus ensinamentos (veja o vs.12, 25,40).  

Simon Kistemaker ressalta:

Paulo afirma que ele tem uma ordem para pessoas casadas que vem não dele, mas do Senhor. Ele usa as palavras de uma tradição oral do Evangelho. Supomos que Paulo tenha ouvido essa declaração dos outros apóstolos, provavelmente de Simão Pedro (Gl 1.18, 19), e assim recebeu-a indiretamente de Jesus. Paulo cita a palavra de Jesus preservada na tradição evangélica, que para ele e os coríntios têm autoridade divina. Na verdade, os apóstolos e a Igreja primitiva conferiam a mesma importância às Escrituras do Antigo Testamento e ao Evangelho oral ou escrito. Para eles, ambos tinham igual autoridade. E Paulo sabia que, com respeito ao casamento e divórcio, os cristãos coríntios ouviriam e obedeceriam à voz de Jesus. Escrevendo sobre esse assunto, Paulo não exerce mais a sua autoridade, e sim a do Senhor. Paulo se põe de lado e permite que Jesus fale diretamente aos coríntios.[16]
Nessa carta, Paulo revela que por muitas vezes recebeu palavras ou ordens do Senhor, que podem lhe ter vindo diretamente por visão ou indiretamente por meio dos apóstolos (veja 9.14; 11.23; 14.37; 15.3; compare com 1Ts 4.15)”.[17] 

Todavia, o evangelho de Marcus relata o embate teológico entre Jesus e os fariseus (Mc 10.2-12). Eles o indagaram acerca do divórcio. Jesus, por sua vez, recorreu à Escritura, citando o relato da criação (Gn 1.27; 2.24). Por conseguinte, Jesus acrescenta seu comentário, dizendo: De modo que já não são dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não separe o homem (Mc 10.8b-9). 

Desejando saber mais sobre a questão do divórcio, os discípulos decidem inquirir Jesus em busca de mais respostas. Sendo assim, Jesus acentua: O homem que se divorciar de sua esposa e casar com outra comete adultério contra aquela. E se a esposa se divorciar de seu marido e casar com outro, comete adultério (Mc 10.11-12). (minha tradução)     
  
Os judeus e os gentios da época de Paulo tinham uma concepção semelhante a respeito do divórcio. Entretanto, antes da releitura da Torá proposta por Hilel, a tradição judaica admitia o divórcio apenas por três motivos: falha em fornecer alimento, falha em fornecer roupas e descumprimento dos deveres conjugais, baseando-se em Êxodo 21.10-11 e Deuteronômio 24.1-4. Essa foi a interpretação da lei durante anos. O rabino Hilel, no entanto, no primeiro século antes de Cristo, mudou a interpretação de Deuteronômio 24.1-4, afirmando que o homem poderia se separar de sua esposa por qualquer motivo ou por ter achado algo indecente nela, e tornou a lei no judaísmo semelhante à lei grega corrente. Tanto o homem quanto a mulher poderiam pedir divórcio e havia nos contratos de casamento provisão para esse caso. Era comum os contratos fazerem referência ao tríplice dever (comida, roupas e amor) e indicarem a possibilidade de divórcio caso não fosse cumprido, embora os contratos aramaicos fizessem maior referência ao término do casamento em caso de morte do que em caso de divórcio. Era nesse contexto de grande facilidade quanto ao divórcio que os cristãos coríntios viviam.[18]

O Evangelho de Marcos, no entanto, escrito num contexto romano e dirigido a gentios, reflete o mundo greco-romano. Nesse mundo, a mulher tinha o direito de tomar a iniciativa e separar-se de seu marido, o que é eufemismo para divórcio. A possibilidade realmente existe de que mulheres influentes da igreja de Corinto tivessem consultado Paulo a respeito das relações maritais e do divórcio. O apóstolo responde a elas com uma palavra de Jesus. O relato da criação ensina a unidade de esposo e esposa, a qual, segundo Jesus, não deve ser quebrada. O profeta Malaquias também se refere à narrativa do Gênesis e denuncia o divórcio como uma quebra da aliança que o marido fez com sua mulher. Ele cita a palavra do Senhor Deus, que exclama: Eu odeio o divórcio (Ml 2.14-16). A intenção de Deus é que os votos de casamento não sejam dissolvidos. Jesus permite uma exceção somente quando um dos cônjuges se torna infiel ao outro (Mt 5.32; o paralelo em Lucas 16.18 omite a exceção). A regra que data do começo da história humana é que uma esposa não pode se divorciar de seu marido e que, da mesma forma, um marido não pode mandar embora sua esposa (v. 11).[19] 

Diante disso, a ordem de Paulo, baseada no ensinamento de Jesus, é para o casal não se divorciar, exceto por causa de adultério.  
            
ii. Se houver a separação por parte da mulher, que ela não se case novamente ou se reconcilie com o marido, que, da mesma forma, não se separe da mulher (vs.11)  

A segunda pergunta que os coríntios fizeram a Paulo deve ter sido esta: O que fazer quando um casamento se torna insustentável? Paulo oferece duas soluções: 1) Se houver a separação, fique sozinha. 2) Após um tempo separados, talvez para refletir sobre o casamento da melhor forma possível, que a mulher tente a reconciliação com o marido. No decorrer da explanação essas perguntas serão respondidas.   
  
Não obstante, podemos observar que a esposa é quem toma a iniciativa de separar-se do marido (vs.10-11). Por outro lado, no Evangelho de Mateus, vemos que o marido é quem toma a iniciativa de separar-se de sua esposa (Mt 19.9). É importante destacar que o público de Mateus é composto por judeus, no qual o marido podia separar-se de sua esposa somente em caso de relações sexuais ilícitas, porém a mulher não tinha o direito de separar-se do marido. Com a proposição condicional no grego se ἐὰν (eán), Paulo demonstra que a ocorrência do divórcio é possível. Todavia, é bem provável que, na igreja de Corinto, havia casos de esposas estarem iniciando os procedimentos necessários para se divorciarem de seus maridos por outros motivos que não fossem a infidelidade na área sexual; um desses motivos seria o ascetismo, talvez.  

Werner de Boor acrescenta que é possível que uma mulher já tenha se separado do marido. Paulo deve ter recebido notícias nesse sentido. Ao que parece, ainda não aconteceu que esposas foram deixadas pelos maridos; mas certamente uma ou outra mulher já havia se separado. Essas circunstâncias também se refletem no fato de que no versículo anterior, Paulo se dirige extraordinariamente primeiro à mulher, impedindo-a de separar-se do marido.[20]

Uma vez que a mulher não deve se divorciar do seu marido, da mesma forma o marido não deve se divorciar de sua esposa (vs.11b).  

Embora o marido tivesse na sociedade judaica e greco-romana a prerrogativa de se divorciar e tivesse maior liberdade do que a mulher, Paulo ensina o que as Escrituras dizem sobre este assunto. Ele se recusa a seguir a cultura de seu tempo, mas se prende à Palavra de Deus. Ele proíbe o marido de mandar sua esposa embora. Fica implícito que o marido precisa lutar por reconciliação no caso de um divórcio, porque o casamento é para toda a vida.[21]   

Note que Paulo está apontando para um mandamento de Jesus, no entanto, apresenta uma situação que não foi mencionada por Ele em seus ensinamentos, nos Evangelhos, ou seja, a mulher tomar a iniciativa de se divorciar. Outra questão que deve ser observada, é que a possibilidade do divórcio sugerida por Paulo é vetada pelos mandamentos de Jesus (veja Mt 5.31-32, 19.3-9; Mc 10.2-12; Lc 16.18). 
   
Logo, uma pergunta surge: O cristão pode se divorciar por outro motivo que não seja por adultério, visto que Paulo pode ter demonstrado essa possibilidade?     

Deus é terminantemente contra o divórcio. Ele odeia o divórcio (Ml 2.16). Deus tolera e até permite o divórcio no caso de adultério, porém não se agrada disso. A sua vontade (prescritiva) é que haja a reconciliação do casal, e não o divórcio. Paulo também não apoia o divórcio em hipótese alguma (vs.12-14). Ele ratifica o ensino de Jesus de que o divórcio só é legítimo e permitido em caso de infidelidade conjugal. Contudo, o mesmo Paulo deixa implícito que existem algumas exceções que tornam o divórcio lícito e até necessário, bem como o novo casamento (vs.15-16), o que veremos mais adiante.  

Continua nos próximos dias...

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Notas:
11. Leon Morris. 1 Coríntios – introdução e comentário, pág 86.
12. David Prior. A mensagem de 1 Coríntios, pág 140.
13. Hernandes Dias Lopes. 1 Coríntios, pág 141-142.
14. Calvino. 1 Coríntios, pág 209. 
15. Bíblia de Estudo MacArthur. Notas de Rodapé, pág 1536.
16. Simon Kistemaker. 1 Coríntios, pág 311.    
17. Ibid.   
18. Instone Brewer, David. 1 Corinthians 7, Divorce, pág. 225-243.
19. Simon Kistemaker. 1 Coríntios, pág 312.   
20. Werner de Boor. 1 Coríntios, pág 61.
21. Simon Kistemaker. 1 Coríntios, pág 314.    

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Fonte: Bereianos

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Uma carta aberta aos pastores - sobre o casamento gay nos EUA

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A Suprema Corte neste país [EUA] promulgou seu julgamento. As manchetes informam que um pouco mais da metade dos juízes da Suprema Corte consideram a liberdade de orientação sexual, um direito para todos os americanos. Esta troca de valores não aparece como uma surpresa para nós. Já sabemos que o deus deste século cega as mentes daqueles que não acreditam (2 Cor. 4:4). O dia 26 de junho de 2015 fica como um marco americano de demonstração desta antiga realidade.


Nos próximos dias, irão esperar de você, como um pastor, que forneça comentários sensatos e conforto para o seu rebanho. Este é um momento crítico para os pastores, e surge como um lembrete de que uma formação adequada é crucial para um pastor. Estou escrevendo esta mensagem curta como de um pastor para outro. Os meios de comunicação estão cheios de atualizações, e eu não preciso juntar a minha voz nessa briga. Em vez disso, eu quero ajudá-lo a pastorear sua igreja nesse momento confuso. Além dos artigos úteis no blog Preaching and Preachers, eu também quero transmitir os pensamentos abaixo que, creio eu, vão ajudar a enquadrar a questão de uma maneira bíblica.

1 – Nenhum tribunal humano tem a autoridade de redefinir o casamento, e o veredicto de ontem não muda a realidade do casamento que foi ordenado por Deus. Deus não foi derrotado nesta decisão, e todos os casamentos serão julgados de acordo com fundamentos bíblicos no Ultimo Dia. Nada irá prevalecer contra Ele (Provérbios 21:30) e nada vai impedir o avanço de Seu Reino (Dan 4:35).

2 – A Palavra de Deus pronunciou seu julgamento sobre toda nação que redefiniu o mal como o bem, a escuridão como a luz, e o amargo como o doce (Isaías 5:20). Como uma nação, os EUA continuam a colocar-se na mira do julgamento. Como proclamador da verdade, você é responsável por nunca comprometer estas questões. De todas as maneiras, você deve se manter firme.

3 – Esta decisão prova que estamos claramente em minoria, e que somos um povo separado (1 Pedro 2: 9-11; Tito 2:14). Como escrevi no livro “Why Government Can’t Save You”, as normas que moldaram a cultura ocidental e a sociedade americana deram lugar ao ateísmo prático e ao relativismo moral. Esta decisão simplesmente acelerou a taxa de declínio dos mesmos. A moralidade de um país nunca vai ser mais alta que a moralidade de seus cidadãos, e sabemos que a maioria dos americanos não têm uma cosmovisão bíblica.

4 – A liberdade religiosa não é prometida na Bíblia. Na América, a Igreja de Jesus Cristo tem desfrutado de uma liberdade sem precedentes. Isso está mudando, e a nova norma pode, na verdade, incluir a perseguição (o que será algo novo para nós). Nunca houve um momento mais importante para homens talentosos ajudarem a liderar a igreja ao lidar, de forma competente, com a espada do Espírito (Efésios 6:17).

5 – O casamento não é o campo de batalha final, e os nossos inimigos não são os homens e mulheres que procuram destruí-lo (2 Coríntios 10:4). O campo de batalha é o Evangelho. Tenha cuidado para não substituir a paciência, o amor e a oração por amargura, ódio, e política. A medida que você guiar cuidadosamente seu rebanho afastando-o das armadilhas perigosas que aparecem à frente, lembre-os do imenso poder do perdão por meio da cruz de Cristo.

6 – Romanos 1 identifica claramente a evidência da ira de Deus sobre uma nação: a imoralidade sexual seguida da imoralidade homossexual culminando em uma disposição mental reprovável. Esta etapa mais recente nos lembra que a ira de Deus veio na íntegra. Vemos agora mentes reprováveis em todos os níveis de liderança – no Supremo Tribunal Federal, na Presidência, nos gabinetes, na legislatura, na imprensa e cultura. Se o diagnóstico da nossa sociedade está de acordo com Romanos 1, então, também devemos seguir a receita encontrada em Romanos 1 – não devemos nos envergonhar do evangelho, pois é o poder de Deus para salvação! Neste dia, é nosso dever divino fortalecer a igreja, as famílias, e testemunhar o evangelho ao tirar os absurdos pragmáticos que distraem a igreja de sua missão ordenada por Deus. Homossexuais (como todos os outros pecadores) necessitam ser avisados do juízo eterno iminente e precisam ter o perdão, a graça e a nova vida, amorosamente oferecidos através do arrependimento e da fé no Senhor Jesus Cristo.

Em última análise, a maior contribuição ao seu povo será a de mostrar paciência e uma confiança inabalável na soberania de Deus, no Senhorio de Jesus Cristo, e na autoridade das Escrituras. Mire seus olhos no Salvador, e lembre-os de que quando Ele voltar, tudo será corrigido.

Estamos orando para que você proclame firmemente a verdade, e que se posicione de maneira inabalável em Cristo.

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Autor: John MacArthur
Fonte: The Master's Seminary
Tradução: Olhai e Vivei
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Creio em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor

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Creio em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor, o qual foi concebido por obra do Espírito Santo; nasceu da virgem Maria; padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado; ressurgiu dos mortos ao terceiro dia; subiu ao Céu; está sentado à direita de Deus Pai Todo-poderoso, donde há de vir para julgar os vivos e os mortos.

Nesta segunda parte, o Credo Apostólico ratifica quem é Cristo, a Sua divindade como segunda pessoa da Trindade, como ele nasceu, morreu e ressuscitou.

Durante séculos Jesus sofreu vários ataques, alguns negaram a Sua divindade, sua humanidade, sua existência. Hoje, os ataques à pessoa de Cristo são um pouco diferentes, alguns desses ataques, ou melhor - blasfêmias, é inventar alguns títulos a Cristo, os quais não possuem base bíblica. Na verdade esses títulos não são para engrandecê-lo, mas para menosprezar sobre quem Ele é na realidade.

Certa feita Jesus pergunta aos seus discípulos: “Quem diz os homens ser o Filho do homem? E eles disseram: Uns, João o Batista; outros, Elias; e outros, Jeremias, ou um dos profetas. Disse-lhes ele: E vós, quem dizeis que eu sou? E Simão Pedro, respondendo, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo. (Mt 16.13-16). A resposta de Pedro é a mesma que afirma o Credo em outras palavras, Jesus Cristo, seu único Filho. 

Para o homem moderno essa declaração de Pedro é antiquada, para eles, Jesus foi um grande psicólogo que já existiu, outros veem Jesus como um grande revolucionário de sua época, um profeta. Todas essas declarações e outras as quais fazem com que percam o sentido bíblico de quem é Jesus, podem ser consideradas como atitudes de um anticristo. João, em sua primeira carta, vai nos mostrar que o espirito do anticristo é aquele que não confessa que Jesus veio em carne. Provavelmente João estava se deparando com um pré-gnosticismo, mas o mais interessante é que não confessar como é Jesus e, como ele veio, e para que veio, essa pessoa tem o espirito do anticristo. Logo, qualquer pessoa que intitula Cristo de algo que faz com que se perca do foco da revelação bíblica, esse tem o espirito do anticristo.[1] 

Mas não é assim que o credo trabalha, ele nos mostra de forma magnifica e resumida sobre quem é Cristo e o que Ele fez:

          • Filho de Deus
          • Nosso Senhor
          • Nasceu da virgem Maria, concebido pelo Espirito Santo. 
          • Crucificado, morto e ressuscitado.
          • A ascensão de Cristo
          • Segunda vinda

1. Filho de Deus 

No Antigo Testamento o termo “Filho de Deus” era aplicado a nação de Israel, aos juízes, aos anjos e especialmente ao rei. No Novo Testamento a igreja toma o lugar de Israel e ela é consistida dos “filhos de Deus”, por adoção. 

Mas, no caso de Cristo, este nome adquire um significado mais profundo. Se eu não reconheço Cristo como Filho de Deus, eu estarei negando o seu:

Sentido messiânico. Crer que Jesus é o Messias é crer que Cristo, o Filho de Deus, é o libertador profetizado na Antiga Aliança, o qual deveria morrer pelos pecados de seu povo (Is 52.13 – 53.12). Crer que Cristo é o Messias é crer que o Filho é o próprio Deus. Pois alguns textos mostram claramente de que a salvação pertence ao Senhor (Jn 2.9), e que o próprio braço do Senhor pode salvar (Is 59.15-20; cf. 43.3, 11; 45.15,21). A afirmação de que Jesus é o Messias é central no evangelho bíblico. 
Sentido trinitário. A Escritura mostra que Cristo é a segunda Pessoa da trindade, o testemunho escriturístico e é claro em mostrar que Cristo é Deus porque é igual ao Pai em essência, poder e santidade, em essência, Cristo é igual ao Pai em eternidade (Jo 17.5,24), em honra e glória (Jo 5.23, 17.1,4,5), criador e redentor (Jo 1.3; 5.21), em domínio (Lc 10.22; 22.29), em perfeição (Hb 7.28), auto existência (Jo 1.4. 14.6) e digno de adoração (Mt 14.33); em poder, Cristo mostra sobre a natureza (Mt 4.3; 14.15-23), sobre satanás (Jo 5.21; 6.40), para perdoar pecado (Mc 2.5-7) e em santidade (Lc 1.35; Jo 10.36). 

Assim, com as definições acima, podemos ver que há, de fato, duas naturezas em Cristo. Quando a Bíblia mostra Jesus como Filho de Deus, a Bíblia está mostrando a deidade de Cristo. E quando a Bíblia mostra Jesus como o Filho do Homem, a Bíblia está mostrando a sua humanidade. Mas Cristo é também chamado de Filho de Davi, onde que, esse título faz referência ao seu messianismo. É em Cristo que o trono de Davi é perpetuamente continuado (Sl 89.29,34-36), é onde que o tabernáculo de Davi é levantado (Am 9.11, cf. At 15.16). Este Rei, o Filho de Davi, não tem um reino politico, mas é Ele que inaugura e anuncia o Reino de Deus. 


2. Nosso Senhor

Crer que Cristo é Senhor sobre tudo e todos para a atual sociedade é repugnante, para a atual sociedade a melhor forma de guiar o mundo é não tendo um governante, fazendo assim, com que todos sejam anárquicos. 

Até para o evangelicalismo o título de Senhor atribuído a Cristo é menosprezado, um dos sentidos que o termo Senhor é usado é o fato de fazer referência a um senhor que é dono de escravos. E é isso que a Bíblia declara. Ela nos testifica que “...não sois de vós mesmos? Porque fostes comprados por preço...” (1 Co 6.19,20) e o mesmo Paulo fala em suas epístolas que é “escravo de Cristo”. Aqui o crente é visto como uma possessão de Cristo, mas para alguns ser escravo de Cristo é humilhante e opressor, mas o que alguns não entendem é que a verdadeira liberdade é ser escravo de Cristo. 

Outro uso da palavra Senhor no Novo Testamento referindo-se a Cristo está relacionado com o Antigo Testamento. A palavra “senhor” no grego (Kyrios) foi usada para traduzir a palavra hebraica Adonai na Bíblia do Antigo Testamento em grego (LXX), palavra essa que foi usada na liturgia de Israel para substituir a palavra Yahweh, a qual não podia ser proferida.[2] No Novo Testamento Jesus recebe o título de Senhor o qual está assentado à direita de Deus, e assim, Cristo recebe o título de Adonai, pois quando Jesus é chamado de “Senhor dos senhores” não resta dúvida que o termo se refere a uma autoridade absoluta sobre toda a autoridade. 

Por isso que para a atual sociedade crer que Jesus é Senhor sobre tudo e todos, é humilhante. Para os cristãos do primeiro século, crer que Jesus como Senhor era desonrar a César e esperar arcar com as consequências. 

3. Nasceu da virgem Maria, concebido pelo Espírito Santo

Como uma expressão de fé, o Credo confirma que Jesus nasceu de uma virgem por obra do Espirito Santo, e este é um dos temas mais descridos. Como uma virgem pode dar a luz se não houver um contato com um homem? Mas qual a implicação de crer que Cristo nasceu de uma virgem? 

3.1. A necessidade de uma virgem

A necessidade de uma virgem não era para fazer com que Jesus fosse santo, no entanto, Cristo seria e é santo por ser a sua natureza eternamente santa. Mas a necessidade de que Cristo nascesse de uma virgem era para que se cumprisse o que fora dito pelo profeta “Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho...” (Is 7.14). Alguns entendem que o termo almah não é tão apropriado assim para fazer jus ao termo “virgem” que Mateus descreve em 1.23. Holladay define o termo almah como uma “moça (em idade para se casar)”.[3] E assim surgiram vários ataques dizendo que a referência de Mateus a Isaias era forçada demais. A questão é que a profecia se cumpre nos tempos de Isaias (a curto prazo) e ela aponta para o futuro por causa do Deus Conosco (a longo prazo).[4] Além de ser uma dupla referência, a própria Septuaginta (LXX – uma tradução do 1º século antes de Cristo do Antigo Testamento) traduz o termo “virgem” do hebraico para o grego perthernos, da mesma forma que cita Mateus. Logo, seria difícil concluir que os tradutores da Septuaginta queriam favorecer o cristianismo, como acusam Mateus, o evangelista, de ter feito isso.  

Beale explica sobre o significado de explícitos e implícitos que há em tais passagens, G.K. Beale defende que tal concepção, o qual ele chama de “O conceito de visão periférica cognitiva,[5] era mantida pelos escritores do AT (significados explícitos) e que estes possuíam, o significado implícito. Ou seja, segundo Beale, “quando os autores neotestamentários e veterotestamentários fazem afirmações diretas com um significado explicito, essas afirmações sempre pressupõem uma gama correlata de significados secundários que ampliam o significado explicito”.[6] Por exemplo, quando o autor neotestamentário diz que os crentes estão “em Cristo”, quais aspectos envolvem essa união? Essa união de estar “em Cristo” envolve todos os aspectos salvívicos concedidos por Cristo e em Cristo. Ou seja, quando o apóstolo Paulo fala de justificação, é óbvio que o apóstolo não estava deixando de lado o tema sobre santificação. 

3.2. Por que crer que Jesus nasceu de uma virgem? 

Vimos acima que o fato de Cristo nascer de uma virgem não era para que Ele nascesse santo, mas para se cumprir a profecia que fora dita pelo profeta. Mas, por que é essencial para a fé cristã crer que Jesus nasceu de uma virgem?

Além de crer na inerrância da Escritura mostrando o seu perfeito cumprimento, Deus mostra o desfecho final de sua revelação progressiva desde o Antigo Testamento. Na Antiga Aliança as mulheres estéreis, após Deus abrir o seus ventres, deram à luz filhos que foram grandes homens de Deus na nação de Israel (p.e. Sara, Gn 11.30; 16.2; Ana, 1Sm 1.6ss e Isabel, 1.7ss), bem como as profecias, serviram de preparação para que, quando acontecesse o ocorrido, eles entendessem o ocorrido. Ou seja, Deus fez com que mulheres estéreis dessem à luz a grandes servos de Deus mostrando que o Servo do Senhor que haveria de vir, viria de uma virgem. 

Crer que Cristo nasceu de uma virgem mediante a ação do Espírito Santo não quer dizer que Cristo herdaria a corrupção de José (apelando para o traducionismo). Mas é entender a obra de redenção de Jesus Cristo. Quando Deus criou Adão, Deus o formou do pó da terra e soprou em suas narinas o fôlego de vida. Quando Deus gerou a Cristo, nascido de mulher na plenitude dos tempos, foi para mostrar a ação redentora de Cristo sendo o nosso segundo Adão. Enquanto em Adão a morte passou a todos os homens, em Cristo a vida veio sobre todo aquele que crê. 

Por fim, Rousas John Rushdoony, diz:

“O nascimento virginal é um milagre, o milagre de uma nova criação, uma nova humanidade. O renascimento de todo cristão é um milagre, o milagre da regeneração por Jesus Cristo. Esse segundo milagre depende do primeiro. Porque Jesus Cristo é verdadeiro homem e verdadeiro Deus, ele é capaz de refazer o homem segundo a sua imagem. Ele é capaz de preservar o homem dos poderes das trevas, e é capaz de sujeitar todas as coisas ao seu domínio. De fato, o objetivo da história é declarado de antemão: “o reino do mundo se tornou de nosso Senhor e do seu Cristo, ele reinará pelos séculos dos séculos” (Ap 11:15). Temos um destino glorioso naquele que nasceu da virgem Maria.[7]

Somente aquele que nasceu de novo, provou a graça do novo nascimento, pode afirmar que o nosso Salvador nasceu de uma virgem, não herdando a sua natureza pecaminosa porque o seu Pai é Deus e sua natureza é santa. 


4. Crucificado, morto e ressuscitado

Esta parte, para qualquer teólogo liberal é difícil de aceitar. E isso pode ser um problema para a atual sociedade. Por exemplo, todo o mundo comemora o Natal (de forma errada, mas comemoram). É mais fácil crer no nascimento do que na morte e ressurreição de alguém. O Natal, até para os cristãos, é mais comemorado do que a Páscoa (que simboliza a ressurreição). Ou seja, crer em um nascimento é fácil, mas na ressurreição não. Mas, o que significa o fato de Cristo ter sido crucificado, morto e ressuscitado? 

4.1. Por que Deus necessitou de uma cruz?

Sendo Deus todo poderoso, criador de todas as coisas, por que Ele precisou de uma cruz para com que recebêssemos o perdão de nossos pecados? 

Paulo nos dá uma luz, dizendo: 

Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós; porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado no madeiro.” (Gl 3:13)

Mas nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus, e loucura para os gregos.” (1º Coríntios 1:23)

Paulo nos mostra que a cruz era maldição que produzia escândalo nos gregos. Para os romanos era o castigo mais cruel e asqueroso, morrer em uma cruz era a forma de morrer mais torturante que podia existir, era para os assassinos e rebeldes. 

Se a cruz para os romanos era asquerosa, quanto mais para um judeu que, segundo a Lei, ser pendurado no madeiro era sinal de maldição (Dt 21.22,23).

A maldição da cruz é colocada sobre Cristo. Ele, sendo o nosso substituto, se faz maldito para nos tornar bendito diante de Deus, o Pai. O Justo morre pelos injustos. E Pedro, enfatizou aos judeus de sua época, lembrando-os da maldição de Cristo:

O Deus de nossos pais ressuscitou a Jesus, ao qual vós matastes, suspendendo-o no madeiro.” (At 5.30)
E nós somos testemunhas de todas as coisas que fez, tanto na terra da Judéia como em Jerusalém; ao qual mataram, pendurando-o num madeiro.” (Atos 10.39)
Por não terem conhecido a este, os que habitavam em Jerusalém, os seus príncipes, condenaram-no, cumprindo assim as vozes dos profetas que se leem todos os sábados. E, embora não achassem alguma causa de morte, pediram a Pilatos que ele fosse morto. E, havendo eles cumprido todas as coisas que D’Ele estavam escritas, tirando-O do madeiro, o puseram na sepultura.” (At 13.27-29)

Pedro, assim como outros cristãos, não tinha vergonha de falar que o seu Senhor foi amaldiçoado no madeiro, por causa de seus pecados. Como o próprio Pedro fala: “
carregando Ele mesmo em seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados.” (1Pe 2.24)

A cruz de Cristo mostra que os planos de Deus são bons, mesmo quando não entendemos, a crucificação de um inocente é a pior coisa que aconteceu, mas ao mesmo tempo foi a melhor coisa que nos aconteceu. Pois, se cremos que Deus tira um Bem Maior do mal, o maior bem que Deus fez foi moer o seu próprio Filho na cruz em favor de muitos. 

Sendo assim, a razão da cruz, segundo Philip Ryken, era sofrer a maldição que nós merecemos pelos nossos pecados.[8] 

4.2. O Servo sofredor

Jesus, em Isaías 53, é descrito como o “servo sofredor”. O termo não aparece no texto, mas mostra o Servo de Deus sofrendo, pela vontade e pelas mãos de Deus, em favor de muitos. Não podemos falar sobre a morte de Cristo sem falar de suas causas. Vejamos algumas coisas que o profeta Isaías nos revela sobre a morte de Cristo e o propósito da causa do sofrimento de Cristo. 

4.2.1. O pecado humano

Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido. Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e moído por causa das nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados. Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo seu caminho; mas o Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de nós todos. Ele foi oprimido e afligido, mas não abriu a sua boca; como um cordeiro foi levado ao matadouro, e como a ovelha muda perante os seus tosquiadores, assim ele não abriu a sua boca. Da opressão e do juízo foi tirado; e quem contará o tempo da sua vida? Porquanto foi cortado da terra dos viventes; pela transgressão do meu povo ele foi atingido. E puseram a sua sepultura com os ímpios, e com o rico na sua morte; ainda que nunca cometeu injustiça, nem houve engano na sua boca.” (Isaías 53.4-9)

Isaías mostra que as nossas dores, enfermidades, transgressões e iniquidades são a causa da morte de Cristo, o servo sofredor, por causa da desobediência de nossos primeiros pais e o pacto quebrado, toda a humanidade recebeu a condenação de Adão. Este, sendo o representante de toda a raça humana, condenou a todos ao inferno. Mas Deus o fez enfermar para que nos reunisse em um só rebanho com um só pastor.

4.2.2. O agrado do Pai

Todavia, ao Senhor agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando a sua alma se puser por expiação do pecado, verá a sua posteridade, prolongará os seus dias; e o bom prazer do Senhor prosperará na sua mão.” (Isaías 53.10)

A morte de Cristo não foi um mero acaso, até porque Cristo é o cordeiro morto desde a fundação do mundo (Ap 13.8). Foi a vontade de Deus moer o Seu Filho. Aqui, a pergunta sobre o mal é respondida: Por que Deus permite que alguém bom (realmente bom) sofra, Deus seria capaz disso? Sim! Deus permitiu e fez com que o Santo de Israel, o Ungido, sofresse em favor de seu povo para que o bom prazer prosperasse em suas mãos.

John Piper, diz:

O seu alvo era destruir o mal e o sofrimento através do próprio mal e sofrimento. “Pelas suas pisaduras fomos sarados” (Isaías 53.5). Por meio do sofrimento de Jesus Cristo, Deus deseja mostrar ao mundo que não há pecado nem mal tão grande do qual Ele, em Cristo, não possa fazer surgir justiça e alegria eternas. “O próprio sofrimento que causamos tornou-se a esperança de nossa salvação.” [9] 

4.2.3. Expiação


A morte de Cristo, segundo o texto de Isaías 53.10, é expiatória. D.A. Carson define expiação como “o ato pelo qual o pecado é cancelado, anulado, apagado do registro”.[10] A morte de Cristo na cruz nos mostra que por nós mesmos os nossos pecados não poderiam ser pagos, muito menos cancelados. Em Cristo, Deus propôs expiação por nossos pecados (Rm 3.25), ou seja, removendo e afastando de nós o nosso pecado. 

4.2.4. Para se satisfazer

O texto prossegue dizendo: Ele verá o fruto do trabalho da sua alma, e ficará satisfeito; com o seu conhecimento, o meu servo, o justo, justificará a muitos; porque as iniquidades deles,  levou sobre si.” (Isaías 53.11)

Cristo morre na cruz sabendo que seu trabalho não seria em vão, tinha plena certeza do bom resultado do seu penoso trabalho. Aqueles que creem em uma expiação universal têm sérios problemas com esse verso, visto que, Cristo morre por toda a humanidade, sabendo que nem todos serão salvos, Ele ficaria com o fruto do seu trabalho? Creio que não, pois que fruto é esse de algo que não foi eficaz? Somente a morte substitutiva pode cumprir com este propósito.

Este belo trabalho envolve a justificação, esta só pode ser feita por alguém justo, e Cristo é Servo Justo, o qual justificará a muitos. A justificação é o ato pelo qual Cristo, tomando o nosso lugar, nos declarou quites para com a Lei de Deus.

Sendo assim, a morte de Cristo era necessária para se cumprir o que os Escritos já mostravam, pois era impossível a nós satisfazer à ira de Deus, e Cristo, Seu Filho, recebe a nossa condenação na cruz cancelando os nossos pecados e dividas diante de Deus.

4.3. Ele não está aqui

Esta foi a frase que o anjo disse às mulheres quando foram até o túmulo no domingo de manhã (Mt 28.6). 

Nos pontos acima vimos a Sua humilhação, Cristo, sendo Deus, como Paulo descreve, não teve usurpação em ser igual a Deus, antes, foi um servo obediente até a morte e morte de cruz (Fp 2.5-11). Cristo, em seu estado de humilhação, nasceu de uma pecadora, viveu entre pecadores, comeu com esses pecadores, por causa dos pecadores foi humilhado, cuspido e morto na cruz. O credo agora vai mostrar o Seu estado de exaltação: Ressurreição e ascensão. 

4.3.1. Cristo ressuscitou para quê?

Como mostrei acima quando falei do seu nascimento, abordei a questão de que a nossa sociedade, mesmo sendo a comunidade cristã, não dá tanta importância a Páscoa. Infelizmente alguns cristãos fazem mais festa no dia 25 de dezembro (tradicionalmente comemora-se o nascimento de Cristo), do que a sua ressurreição, a qual os primeiros cristãos, com o testemunho bíblico, entenderam ser Cristo a nossa páscoa (1Co 5.7).

Portanto, nós vimos acima que Cristo foi morto na cruz por causa dos nossos pecados. Mas, e se Cristo não tivesse ressuscitado? Paulo nos responde que “se Cristo não ressuscitou, logo é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé.” (1Co 15.14) 

Calvino, diz:

“É vã a pregação, não simplesmente porque ela inclua certo elemento de falsidade, mas porque é indigna e um completo logro. Pois o que fica se Cristo foi devorado pela morte; se foi aniquilado; se sucumbiu sob a maldição do pecado; se, finalmente, ficou cativo de Satanás? Numa palavra, uma vez que o principio fundamental foi removido, tudo o que resta será de nenhum valor”. [11] 

A nossa fé e pregação, que é uma exposição daquilo que cremos, vai por água abaixo. Pois, a nossa justificação foi fruto da ressurreição de Cristo, vencendo a morte. Cremos e pregamos que todos quantos morrerem em Cristo antes da Sua volta, ressuscitarão para a vida eterna, porque Cristo também ressuscitou sendo a primícia dos que dormem (1Co 15.13,20). Se Cristo não ressuscitou a nossa vida continua a mesma, debaixo de maldição, sendo escravo do mundo, a carne e o Diabo, e assim, “
comamos e bebamos que amanhã morreremos” (1Co 15.32).

A ressurreição é o elemento mais importante da igreja cristã, pois quando Cristo foi crucificado os discípulos fugiram, mas quando Cristo ressuscita eles saíram de onde estavam escondidos e passaram com Cristo quarenta dias ouvindo acerca do reino de Deus (At 1.3). 

É nisso que está firmada a nossa fé, pois na ressurreição de Cristo temos:

         • A certeza de nossos pecados pagos;
         • A certeza de que fomos absolvidos diante de Deus;
         • A certeza de que Cristo não era pecador, porque a morte não o venceu;
         • Que na sua morte e ressurreição Cristo venceu a morte e despojou os                       principados e potestades;
         • A certeza de que ressuscitaremos e viveremos com ele eternamente.


4.3.2. A ressurreição de Cristo é uma prova da Trindade

Assim com a obra de salvação é realizada pela Trindade[12], a ressurreição de Cristo é também uma prova disto. A Escritura declara que a ressurreição de Cristo foi pelo:

Deus Pai - At 3.26 “Ressuscitando Deus a seu Filho Jesus, primeiro o enviou a vós, para que nisso vos abençoasse, no apartar, a cada um de vós, das vossas maldades.” (cf. Gl 1.1)
Deus Espirito - Rm 8.11 “E, se o Espírito daquele que dentre os mortos ressuscitou a Jesus habita em vós, aquele que dentre os mortos ressuscitou a Cristo também vivificará os vossos corpos mortais, pelo seu Espírito que em vós habita.”
Deus Filho - Jo 10.18 “Ninguém ma tira de mim, mas eu de mim mesmo a dou; tenho poder para dar, e poder para tornar a tomá-la. Este mandamento recebeu de meu Pai.” (cf. Jo 2.9)

4.4. A ascensão de Cristo


A ascensão de Cristo é a ordem natural da ressurreição, se constituindo no selo do cumprimento da sua obra expiatória. A ressurreição de Cristo está ligada a três princípios: Eclesiologia, soteriologia e escatologia. 

4.4.1. Eclesiologia

Cristo, ao ressuscitar, passa quarenta dias ensinando os seus discípulos e com mais de quinhentos irmãos (1Co 15.6). Antes de ascender aos céus Cristo incumbiu aos seus discípulos que ficassem em Jerusalém até que do alto fossem revestidos de poder (Lc 24.49). Sendo assim, a igreja tem a incumbência de:

        • Pregar a Cristo – Mc 16.19,20; cf. At 4.13
        • Viver diariamente como Corpo de Cristo – Ef 1.22,23

A ascensão de Cristo é um estimulo de perseveramos na fé, sabendo piamente, que o nosso Senhor estará conosco até a consumação dos séculos. 

4.4.2. Soteriologia

A ascensão de Cristo ressalta o cumprimento de sua missão, revelando a Sua glória e poder, enquanto na encarnação Cristo se desprende de Sua glória, na sua ascensão Cristo volta ao seu estado anterior ao seu nascimento. E assim Paulo diz sobre a ascensão e salvação: “Subindo ao alto, levou cativo o cativeiro” (Ef 4.8). As suas ovelhas estavam mortas em pecado, cativos no poder de satanás. Mas, na ascensão de Cristo, Ele consome a sua obra para a plena posse da salvação dos eleitos.

4.4.3. Escatologia

A ascensão de Cristo é marcada por um dialogo entre os seus discípulos e seu Senhor e a resposta de dois homens vestidos de branco: 

Aqueles, pois, que se haviam reunido perguntou-lhe, dizendo: Senhor te restaurará neste tempo o reino a Israel? E disse-lhes: Não vos pertence saber os tempos ou as estações que o Pai estabeleceu pelo seu próprio poder [...] E, quando dizia isto, vendo-o eles, foi elevado às alturas, e uma nuvem o recebeu, ocultando-o a seus olhos. E, estando com os olhos fitos no céu, enquanto ele subia, eis que junto deles se puseram dois homens vestidos de branco. Os quais lhes disseram: Homens galileus, por que estais olhando para o céu? Esse Jesus, que dentre vós foi recebido em cima no céu, há de vir assim como para o céu o vistes ir.” (Atos 1.6,7, 9-11)

A resposta de Jesus aos seus discípulos é bem enfática, dizendo que não compete aos homens saber o dia de sua vinda (cf. 1Ts 5.1), mas que Jesus voltará da mesma forma que os vistes subir, afirmam os homens de branco.

Essa é a esperança que move a Igreja, pregar o Evangelho a todas as pessoas até que venha o fim, sabendo que o nosso Senhor Jesus voltará com grande poder e glória e consumará todo o mal, fazendo justiça começando pela casa de Deus (Ml 3.1-5, 13-18; cf. 1Pe 4.17).

4.4.4. Em que a ascensão de Cristo nos beneficia

Primeiro, temos um advogado junto ao Pai (1Jo 2.1), Cristo está no céu defendendo a nossa causa, para sempre. Satanás não pode nos acusar mais, pois Cristo é o nosso advogado que está pronto para nos defender. 

Segundo, temos a nossa própria carne no céu. Cristo, quando ressuscitou, foi com o mesmo corpo, só que glorioso. Ou seja, o corpo que Ele viveu entre os pecadores foi o mesmo que ressuscitou e ascendeu aos céus. Essa é a nossa esperança, de que, da mesma forma que Cristo ressuscitou e ascendeu aos céus, nós, os que estamos em Cristo, ressuscitaremos e viveremos eternamente com ele (Cl 3.3-4). 

Terceiro, temos o Espírito Santo como resultado, Cristo tinha dito aos seus discípulos que se Ele não fosse o Espírito não viria. Ele sobe aos céus, a promessa é cumprida e o Espírito passou a habitar em toda carne (Jo 16.7; At 2.17). Por intermédio do Espírito, Cristo está presente conosco. 

4.4.5. Assentado a direita de Deus

No último aspecto sobre o seu estado de exaltação, após a ressurreição, o Credo mostra que Cristo foi levado às alturas, posto à direita de Deus em sinal de autoridade, ficando acima de todo principado, potestade, um nome que está acima de todo nome (Ef 1.10,21), sujeitando todas as coisas sob seus pés (1Co 15.27), tendo-se tornado tão superior aos anjos quando herdou mais excelente nome do que eles (Hb 1.3-4).

A.A. Hodge, diz:

“Cristo assentado sobre esse trono, durante a presente dispensação, como mediador, aplica eficazmente ao seu povo, por meio do seu Espírito, a salvação que previamente havia adquirido para eles em seu estado de humilhação.”[13]

Enquanto Cristo estiver à direita de Deus, Cristo está intercedendo pelos eleitos e por aqueles que serão salvos, mas Cristo virá outra vez para julgar os vivos e os mortos. 


4.5. Segunda vinda

A vinda de Cristo, para o Credo, é enfática. Ele morre, ressuscita, ascende aos céus e voltará. Essa é a certeza de toda a história cristã, tendo como base a certeza de sua ressurreição, como mostrei acima. 

A certeza da volta de Cristo é um sinal de esperança gloriosa e de medo, porque a Bíblia diz para nós vigiarmos todos os dias, pois não sabemos nem o dia e nem a hora da volta do Filho do Homem, e uma esperança, pois temos a certeza de que nossas lágrimas serão enxugadas. 

O crente deve ter em mente que a volta de Cristo, para a sua igreja fiel, é um consolo. O Catecismo de Heidelberg, no 19º Dia do Senhor, pergunta:

Que consolo lhe dá o fato de que Cristo há de vir para julgar os vivos e os mortos?
Resposta: Que em todas as minhas aflições e perseguições eu de cabeça erguida e cheio de ânimo espero vir do céu, como juiz, Aquele mesmo que antes se submeteu ao juízo de Deus por minha causa, e removeu de sobre mim toda a maldição. Ela lançará todos os Seus e meus inimigos na condenação eterna, mas levará para Si mesmo, para o gozo e glória celestiais, a mim e a todos os Seus escolhidos. (pergunta 52)

A resposta da pergunta 52 do Catecismo nos mostra três motivos para nos alegrarmos sobre a sua segunda e única vinda. 


Primeira, é um consolo porque não tememos o julgamento, porque a ira que nós merecíamos foi derramada sobre o nosso Senhor, sendo assim, todas as nossas aflições e perseguições que sofremos aqui na terra cessarão. Segundo, a sua vinda nos traz consolo porque Cristo subjugará todos os nossos inimigos debaixo de seus pés. Isso não surge com um tom de vingança pecaminoso, mas a certeza, a qual a Bíblia nos diz, que toda injustiça será feita justiça que é vinda do próprio Deus. Esse é o brado daqueles que estão debaixo do trono de Deus: E clamavam com grande voz, dizendo: Até quando, ó verdadeiro e santo Dominador, não julgas e vingas o nosso sangue dos que habitam sobre a terra?” (Ap 6.10).

Terceiro, nos mostra que na sua vinda teremos a certeza que em corpo e alma moraremos eternamente com o nosso Senhor. A vinda do juiz indica o fim de todo sofrimento, de toda depressão, de todo câncer e de todos os males causados pelo pecado. 

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Notas:
[1] Cf. 1 João 2.18,22; 4.4.3; 2 João 1.7
[2] SPROUL, R.C. Discípulos hoje. 1º ed. – São Paulo: Cultura Cristã, p. 32
[3] HOLLADAY, William L. Léxico hebraico  e aramaico do Antigo Testamento. 1ªed. – São Paulo: Vida Nova, p. 389
[4] Cf. OSWALT, John. Comentário do Antigo Testamento – Isaías – vol. 01. 1ªed. – São Paulo: Cultura Cristã. p. 263-267
[5] BEALE, G.K. O uso do Antigo Testamento no Novo Testamento e suas implicações hermenêuticas. 1ª ed.– São Paulo: Vida Nova, p. 11-12
[6] Ibidem. p.55
[7] RUSHDOONY, Rousas John. Nascido da virgem Maria.
http://www.monergismo.com/textos/cristologia/nascido-virgem-maria_rushdoony.pdf
Acessado em 26/Dezembro/2014.
[8] Veja a obra de MONTGOMERY, James. A ofensa da cruz. In: GRAHAM, Philip. Et al. O coração da cruz. 1ª ed. – São Paulo: Cultura Cristã, 2008. 
[9] PIPER, John. Para sua alegria. 1ªed. São José dos Campos, SP – Ed. Fiel. 2008, p. 25
[10] CARSON, D.A. Qual a diferença entre propiciação e expiação? 
https://www.youtube.com/watch?v=Zz8rDC8pess. Acessado em 26/12/2014.
[11] CALVINO, João. 1 Coríntios. – 2.ed. – São Bernardo do Campo, SP: Edições Parakletos. 2003, p. 465
[12] Ef. 1.3-5 (Deus Elege); 6-12 (Jesus redime); 13-14 (Espirito Santo sela) (cf. 1Pe 1.2).
[13] HODGE, A.A. Esboços de teologia. 1.ed. – São Paulo: PES, 2001, p. 617. 

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Fonte: Bereianos

Leia também a primeira parte deste estudo: Creio em Deus Pai Todo Poderoso
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