O Que Dizer Sobre Maria?

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No Brasil muitos religiosos são devotos a Maria. Cristãos reformados não são devotos a Maria. Por isso, muitas vezes nos perguntam: "Vocês odeiam Maria? Vocês não são devotos a Nossa Senhora?"

Obviamente, nós não odiamos Maria. Nós a estimamos muito. Ela era uma mulher piedosa, assim como muitos outros na Escritura. Nós admiramos a sua fé e piedade, e nós amamos ler sobre ela e outros na Bíblia. Mas em nossa admiração por Maria nós não vamos além do que a Palavra de Deus nos permite.

Primeiro, a Bíblia não confere a ela o título de "Nossa Senhora", "Rainha dos Céus" ou mesmo "Mãe de Deus". O primeiro título, "Nossa Senhora", é na verdade o equivalente feminino a "Nosso Senhor". Senhor ou Senhora é um título de honra e autoridade, mas a Bíblia, a Palavra de Deus, nunca fala de Maria usando tais termos. Somente Jesus é Senhor. Maria não é "Senhora". Ela é "serva do Senhor" (v. Lc 1:38). Há somente um Senhor. Na verdade, o título "Rainha dos Céus" é o nome de uma deusa pagã, e não um título de Maria (cf. Jr 7:18). O céu tem um Rei, o Senhor Jesus Cristo, porém Jesus não tem uma rainha. Sua noiva é a Igreja, e Maria não está ao Seu lado o ajudando a governar todas as coisas. O título "Mãe de Deus" tem um elemento verdadeiro: Maria foi a mãe terrena de alguém que é Deus, mas ela não é a mãe do Deus Triúno, pois ela é uma criatura. Portanto, a Bíblia não usa esse tipo de linguagem. A benção de Maria ter sido escolhida para ser a mãe do nosso Senhor foi grande, porém a sua maior benção é que ela, assim como todo o povo de Deus, recebeu a salvação e o perdão dos pecados. Além do mais, quando o anjo Gabriel disse que Maria é "bendita" (v. Lc 1:28), o que muitos traduzem como "cheia de graça", ele aponta para o mesmo favor ou graça que está sobre o povo de Deus: "para o louvor da sua gloriosa graça, a qual nos deu gratuitamente no Amado" (v. Ef 1:6). Maria não é a fonte de todas as graças. Jesus é "cheio de graça e de verdade" (v. Jo 1:14). Maria é um recipiente da graça.

Em segundo lugar, a Bíblia não dá crédito a Maria pela obra da salvação que Jesus realizou sozinho. Maria não "cooperou" com Deus na salvação do mundo. O salvador é Cristo somente. Pedro diz que "não há salvação em nenhum outro [exceto Jesus], pois, debaixo do céu não há nenhum outro nome dado aos homens pelo qual devamos ser salvos" (v. At 4:12). Portanto, em nenhum sentido Maria é o salvador. O mediador é Cristo somente: "Pois há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens: o homem Cristo Jesus" (v. 1Tm 2:5). O intercessor é Cristo: "Quem os condenará? Foi Cristo Jesus que morreu; e mais, que ressuscitou e está à direita de Deus, e também intercede por nós" (v. Rm 8:34). O advogado é Cristo: "Se, porém, alguém pecar, temos um intercessor junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo" (v. 1Jo 2:1). Tomar esses títulos (Salvador, Senhor, Mediador, Intercessor e Advogado) e compartilhá-los com Maria é desonrar Jesus Cristo.

Terceiro, a Bíblia não ensina que Maria nasceu sem pecado original, ou que ela viveu uma vida sem pecado. Apenas Jesus não cometeu pecado. Maria confessou livremente que ela era uma pecadora pois precisava ser salva dos seus pecados. ela cantou: "Minha alma engrandece ao Senhor e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador" (v. Lc 1:46-47).

Quarto, a Bíblia não nos permite orar a Maria. Nossas orações devem ser oferecidas a Deus somente, por meio de seu Filho, Jesus Cristo. Isso não a desonra, sendo que ela não pode ouvir orações no céu. Como poderia uma simples mulher, uma criatura, ouvir milhões de orações oferecidas a ela e então ter o poder de responder a cada uma delas? Além disso, Maria não morreu na cruz e portanto não tem base para conceder qualquer coisa. Quando oramos, oramos no nome de Cristo, ou por causa de Cristo, nunca no nome de Maria.

De fato, a Bíblia deixa claro que Jesus nunca honrou Maria da mesma forma que muitos erroneamente fazem hoje. Em uma ocasião, uma mulher na multidão exclamou: "Bem-aventurado o ventre que te trouxe" (v. Lc 11:27). Jesus corrigiu ela! Ao invés de exaltar Maria acima dos demais, ele disse "Antes, bem-aventurados aqueles que ouvem a palavra de Deus e a guardam" (v. 28). Jesus se distanciou de sua mãe, Maria, quando ela começou a ser um empecilho para seu ministério. Em João capítulo 2 verso 4, ele disse a ela: "Que tenho eu contigo, mulher? ainda não é chegada a minha hora." Ele não estava sendo rude, mas ele estava lembrando ela do seu lugar. Na verdade, Jesus nunca se dirigiu a Maria com a palavra "Mãe", e certamente nunca a chamou de "Senhora". Em Mateus 12, quando sua mãe estava ao lado de fora esperando para falar com ele, ele pergunta: "Quem é minha mãe, e quem são meus irmãos?", e então ele disse: "aquele que fizer a vontade de meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, irmã e mãe" (v. 47-50). Assim ele deixa claro que ser sua mãe não dá a Maria privilégios, honra ou acessos especiais.

Resumindo, Maria foi uma humilde serva do Senhor, e ela ficaria aterrorizada se soubesse o que tem sido feito com o seu nome, que orações são oferecidas, velas acendidas e pessoas são devotas a ela. Maria é um belo exemplo de uma fé humilde e genuína, e de obediência a Deus. Não devemos desonrar ela a chamando de "Nossa Senhora". Por todos esses motivos, e outros mais, nós olhamos para Cristo, não para Maria. Buscamos salvação e perdão dos pecados em Cristo, não em Maria. Nós chamamos você a fazer o mesmo!

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Autor: Martyn McGeown
Fonte: Limerick Reformed Fellowship
Tradução: Sara McHertt
Via: Veritas
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As chaves do Reino de Deus

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Você já ouviu a história de que Pedro era um velhinho de barbas brancas com um molho de chaves nas mãos, as quais são das portas de entrada do céu? Daí que surge o ditado popular de que Pedro é o manda chuva, porque é ele quem abre e fecha o céu.

Na verdade o texto de Mateus 16.19[1] não concorda com essa historieta, mas é algo distinto. E é isso que o Catecismo de Heidelberg vai nos mostrar no 31º Dia do Senhor, concluindo a segunda parte[2] do Catecismo a qual começou mostrando que, no 5º Dia, a nossa redenção se deu por intermédio de Jesus Cristo, sendo Ele verdadeiro homem e verdadeiro Deus, e agora, encerrando essa parte, o Catecismo nos mostra que a pregação abre e depois fecha e que a disciplina fecha e depois abre o Reino.

83. Que são as chaves do reino dos céus?
R. A pregação do santo Evangelho e a disciplina cristã. É por estes dois meios que o reino dos céus se abre para aqueles que crêem e se fecha para aqueles que não crêem (1).
(1) Mt 16:18,19; Mt 18:15-18.
84. Como se abre e se fecha o reino dos céus pela pregação do santo Evangelho?
R. Conforme o mandamento de Cristo, se proclama e testifica aos crentes, a todos juntos e a cada um deles, que todos os seus pecados realmente lhes são perdoados por Deus, pelo mérito de Cristo, sempre que aceitam a promessa do Evangelho com verdadeira fé. Mas a todos os incrédulos e hipócritas se proclama e testifica que a ira de Deus e a condenação permanecem sobre eles, enquanto não se converterem (1). Segundo este testemunho do Evangelho Deus julgará todos, nesta vida e na futura.
(1) Mt 16:19; Jo 20:21-23.
85. Como se fecha e se abre o reino dos céus pela disciplina cristã?
R. Conforme o mandamento de Cristo, aqueles que, com o nome de cristãos, se comportam na doutrina ou na vida como não-cristãos, são fraternalmente advertidos, repetidas vezes. Se não querem abandonar seus erros ou maldades, são denunciados à igreja e aos que, pela igreja, foram ordenados para este fim. Se não dão atenção nem a admoestação destes, não são mais admitidos aos sacramentos e, assim, excluídos da congregação de Cristo, e, pelo próprio Deus, do reino de Cristo. Eles voltam a ser recebidos como membros de Cristo e da sua igreja, quando realmente prometem e demonstram verdadeiro arrependimento (1).
(1) Mt 18:15-18; 1Co 5:3-5,11; 2Co 2:6-8; 2Ts 3:14,15; 1Tm 5:20; 2Jo :10,11.

Abre, depois fecha

Como o próprio Catecismo responde, a primeira chave do Reino é a pregação da Palavra de Deus. Nós não devemos cair no engano de que, se Deus já predestinou alguns para a salvação, nós não devemos pregar o Evangelho. Spurgeon certa vez disse que pregava o evangelho porque os eleitos não possuem listras amarelas nas costas. Ou seja, não há nenhuma identificação no eleito – o qual não ouviu o Evangelho. Devemos anunciar o Evangelho a todos e Deus, a Seu tempo, trará o eleito à Cristo. No entanto, o não eleito, ao ouvir o Evangelho, não aceitará a mensagem de salvação, pois para ele a mensagem da cruz é loucura. Porque “para estes certamente cheiro de morte para morte; mas para aqueles cheiro de vida para vida” (2Co 2.16).

Deus quer que anunciemos as boas novas em Cristo Jesus, mostrando a nossa condição espiritual diante de Deus, condição esta, sem a intercessão de Cristo, faz com que fiquemos debaixo da ira de Deus a qual será manifesta no juízo vindouro.

Fecha, depois abre

Infelizmente não é muito comum nós ouvirmos falar sobre disciplina na igreja. No entanto, o assunto é bíblico e sério. A disciplina exercida pelo governo da igreja não deve ser entendida como algo retrogrado ou desnecessário para os nossos dias. Não obstante, não devemos disciplinar sem amor, pois o próprio Catecismo diz que eles devem ser “fraternalmente advertidos”, pois não deve ser motivo de vanglória disciplinar alguém, mas deve ser algo amoroso, não só da parte do governo da igreja, como também dos irmãos da igreja à este faltoso.

Portanto, o propósito da disciplina não é castigar, mas servir de exemplo para a igreja local e de animosidade pessoal. Exemplo para a igreja, para que ela não se manche com o pecado, e animosidade ao disciplinado porque Deus corrige a quem ama (Hb 12.5-11).

Mas aqueles que insistem em pecar, incessantemente, não dando ouvido às advertências e se recusando a abandonar o pecado, são excluídos da comunhão da igreja, comprovando ser uma árvore má que só dá frutos maus.

Assim como a porta para o reino é fechada pela disciplina na igreja, também a porta é aberta novamente com alegria pela confissão do pecado e pela evidência de um verdadeiro arrependimento.

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Notas:
[1] E eu te darei as chaves do reino dos céus; e tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus.
[2] A primeira parte (Os nossos pecados e miséria) do 1º Dia ao 4º Dia; A segunda parte (Nossa salvação) do 5º Dia ao 31º Dia; E a terceira parte (nossa gratidão) do 32º Dia ao 52º Dia do Senhor.

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Autor: Denis Monteiro
Fonte: Bereianos
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Corazim, Betsaida e o Molinismo

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Considere este post como uma (longa) nota ao meu post anteriorUm dos textos preferidos dos molinistas é Mateus 11:21-24, porque o mesmo indica (1) que existem contrafactuais verdadeiros de liberdade, isto é, verdades sobre o que as criaturas livres teriam feito em diferentes circunstâncias, e (2) que Deus sabe destes contrafactuais. No post anterior eu apontei que, apesar de (1) e (2) apoiarem o Molinismo quando confrontado com pontos de vista como o Teísmo Aberto, eles não o favorecem se comparado ao Agostinianismo, já que o mesmo também afirma (1) e (2). (O ponto onde o Molinismo e Agostinianismo divergem, pelo menos, filosoficamente, está no que diz respeito à natureza da liberdade da criatura e como o conhecimento de Deus sobre os contrafactuais da liberdade se relacionam com seu decreto eterno.)

Neste post eu quero destacar um comentário feito por Dan como incentivo a um exame mais detalhado de Mateus 11:21-24 e sua relevância para o debate entre molinistas e agostinianos. Dan escreveu:

Um dos clássicos “textos de prova” em favor do conhecimento médio também parece resistente a uma leitura agostiniana/calvinista e parece favorecer a liberdade não-determinista. Mateus 11:21 diz: “Ai de ti, Corazim! ai de ti, Betsaida! porque, se em Tiro e em Sidom fossem feitos os prodígios que em vós se fizeram, há muito que se teriam arrependido, com saco e com cinza”.
No calvinismo, a graça irresistível (também conhecida como “regeneração monergista” ou “chamado eficaz”) determina a conversão de tal forma que qualquer pessoa, dada a graça irresistível de Deus, não pode resistir e irá eventualmente se arrepender. Além disso, sem a graça irresistível, ninguém pode se converter devido a sua depravação.
Por esse versículo, sabemos que o povo de Corazim não se arrependeu, mas o povo de Tiro teria se arrependido se as mesmas obras tivessem sido feitas lá. Tiro era notoriamente pecaminosa, então a comparação tem como propósito envergonhar as pessoas de Corazim. Eles realmente tiveram uma grande oportunidade de se arrepender, logo, sua escolha de permanecer no pecado foi mais perversa do que a de Tiro. No entanto, no Calvinismo, Deus não deu ao povo de Corazin a única coisa que Ele sabia que poderia ativar e causar o arrependimento: a graça irresistível. Isso por si só é problemático!
Mas há um outro problema que diz respeito ao povo de Tiro. Nem as pessoas de Corazim nem as de Tiro se arrependeram. No calvinismo, poderíamos concluir com segurança que nenhum deles recebeu a graça irresistível, porque se tivessem recebido, eles se arrependeriam. Mas o versículo nos dá o contra-factual: o povo de Tiro teria se arrependido, se as mesmas obras fossem ali realizadas. Então, como é que Tiro poderia se arrepender sem a graça irresistível? No calvinismo, ficamos com a contradição de que a graça irresistível tanto é quanto não é uma condição necessária para o arrependimento.
Para evitar o problema, alguns podem dizer que o arrependimento não é verdadeiro arrependimento. Mas Cristo pregou sobre o verdadeiro arrependimento: arrependam-se pois o Reino de Deus está próximo! Ele nunca usa “arrependimento” como falso arrependimento e Ele sempre denuncia qualquer pretensão exterior de conversão e expõe qualquer auto-engano e falsa segurança. Além do mais, isso invalida (provavelmente inverte) o principal objetivo de Cristo de dizer as pessoas de Corazim que elas eram piores do que as de Tiro. É melhor recusar a ceia do Senhor do que participar de forma fingida, é melhor não saber o caminho da justiça do que conhecê-lo e sair dele, logo, é melhor viver em pecado aberto do que viver com um falso arrependimento. Portanto, se o arrependimento é um falso arrependimento, o povo de Corazim é melhor do que o de Tiro, porque eles evitaram um falso arrependimento. Mas isso é o oposto do que Cristo quer dizer.
A melhor solução parece ser negar a graça irresistível e dizer que o homem tem liberdade não-determinista em relação a resistir a graça de Deus.

Estas observações são certamente interessantes e merecem uma resposta. Mas, antes de entrar em detalhes, vamos considerar os detalhes do contexto em seus próprios termos:

Então começou ele a lançar em rosto às cidades onde se operou a maior parte dos seus prodígios o não se haverem arrependido, dizendo: Ai de ti, Corazim! ai de ti, Betsaida! porque, se em Tiro e em Sidom fossem feitos os prodígios que em vós se fizeram, há muito que se teriam arrependido, com saco e com cinza. Por isso eu vos digo que haverá menos rigor para Tiro e Sidom, no dia do juízo, do que para vós. E tu, Cafarnaum, que te ergues até ao céu, serás abatida até ao inferno; porque, se em Sodoma tivessem sido feitos os prodígios que em ti se operaram, teria ela permanecido até hoje.Eu vos digo, porém, que haverá menos rigor para os de Sodoma, no dia do juízo, do que para ti. (Mateus 11:20-24)

O texto nos diz explicitamente que o propósito de Jesus ao dizer estas palavras era “denunciar as cidades”, porque elas não se arrependeriam apesar de ter testemunhado muitos dos milagres que Jesus havia realizado. Eles tinham provas suficientes, mas recusaram reconhecer a autoridade de Jesus e desprezaram seu convite ao arrependimento. De forma mais específica, a denúncia de Jesus se dá com uma comparação com as antigas cidades notoriamente depravadas de Tiro, Sidom, e Sodoma.

Agora, será que essas declarações de Jesus apoiam as afirmações molinistas da forma que Dan nos está sugerindo? Em primeiro lugar, não é óbvio que devamos supor que Jesus esteja fazendo a afirmação contrafactual precisa que os molinistas assumem. Certamente Jesus está fazendo declarações assertivas aqui. Mas será que ele está realmente afirmando algo tão específico como uma verdade contrafactual literal sobre o que as pessoas dessas cidades antigas teriam feito se Jesus tivesse realizado os mesmos milagres diante deles? (Devemos notar, de passagem, que esse teria sido um possível mundo muito diferente deste!)

A questão que Jesus trata aqui é simplesmente que o povo de Corazim e Betsaida tinha um coração endurecido e que eles eram merecedores do Juízo por sua incapacidade de se arrepender; na verdade, eles foram ainda mais teimosos e culpáveis do que o povo de Tiro e Sidom. Esse ponto não implica por si só a precisa reivindicação contrafactual que Dan e outros molinistas assumem. A título de comparação, suponha que eu fosse repreender um dos meus filhos, dizendo: “Se eu lhe pedisse isso mil vezes, ainda assim você não faria o que lhe foi dito!”. Em face disso, essa afirmação tem a forma de um contrafactual de liberdade (se S estava na condição C, S faria/não faria A). Mas será que eu estou mesmo afirmando a proposição específica de que meu filho não faria o que eu havia pedido se ele realmente se encontrasse em circunstâncias em que eu lhe havia dito isso mil vezes (literalmente!)? Sugerir isso seria claramente interpretar excessivamente minhas palavras. Colocando em termos técnicos: essa interpretação acabaria perdendo o verdadeiro conteúdo proposicional da minha fala.

Naturalmente, o fato de que minha declaração não tinha o propósito de ser tomada de forma literal não significa que a proposição contrafactual seja falsa. A questão aqui é o significado da minha declaração (ou seja, qual proposição está expressando) ao invés de sua veracidade (ou seja, se a proposição expressa é realmente verdadeira). Ao fazer essa declaração, estou basicamente afirmando algo sobre a teimosia do meu filho. E o que estou afirmando é verdadeiro!

Da mesma forma, ao questionar se Jesus está realmente afirmando a proposição contrafactual que Dan assume que ele esteja, eu, enfativamente, não estou sugerindo que Jesus poderia afirmar algo falso. Ao contrário, estou sugerindo que a verdade que Ele está afirmando é muito mais simples: as pessoas de Corazim e Betsaida são teimosas e duras de coração (até mais do que o povo de Tiro e Sidon) e elas serão julgadas por isso. E essa verdade é tão consistente com a perspectiva agostiniana quanto com a perspectiva molinista.

A lição então é que os molinistas provavelmente colocam mais peso sobre este texto do que ele realmente contém. Quando prestamos atenção ao argumento que Jesus está fazendo, podemos ver que suas palavras não contém o tipo de vinculações filosóficas que apoiariam as reivindicações molinistas acerca dos contrafactuais de liberdade. Adaptando uma fala de Ludwig Wittgenstein: Os molinistas estão fazendo a “linguagem comum” de Jesus sair em férias.

Mas vamos supor que eu esteja errado sobre tudo isso. Vamos supor que Jesus realmente esteja afirmando proposições contrafactuais que Dan e outros molinistas acham que Ele esteja. Será que isso iria favorecer o Molinismo sobre o Agostinianismo, sabendo que este último rejeita a liberdade não-determinista e afirma a graça irresistível?

Uma questão importante diz respeito ao tipo de arrependimento tratado no versículo 21. Dan afirma que este deve ser “o verdadeiro arrependimento” ao invés de um “falso arrependimento”. Mas eu estou em dúvida sobre essa dicotomia simples. Parece-me que a Bíblia deixa espaço para um tipo de arrependimento que é genuíno até certo ponto (ou seja, não é totalmente sincero, não também não é um mero teatro) e ainda assim é não-salvífico (ou seja, fica aquém da verdadeira conversão espiritual). O arrependimento dos ninivitas no livro de Jonas pode muito bem ser um exemplo de tal arrependimento.

Se um arrependimento não-salvífico e limitado desse tipo está em vista no versículo 12, as questões que Dan levanta sobre a Depravação Total e a Graça Irresistível estão além da discussão. E isso não iria mudar em nada a denúncia que Cristo faz. Jesus, na realidade, estaria dizendo algo como: “Se os meus milagres tivessem sido feitos em Tiro e Sidom, eles teriam se arrependido [isto é, com um limitado arrependimento não-salvífico], mas vocês têm visto os milagres e não responderam a eles com nenhum tipo de arrependimento! “Tal leitura seria inteiramente consistente com a observação (correta) de Dan de que “o principal objetivo de Cristo era dizer que as pessoas de Corazim eram piores do que as de Tiro”.

Mas mais uma vez, vamos assumir a suposição de Dan para o bem do argumento, ou seja, vamos assumir que o arrependimento no versículo 21 deve ser arrependimento totalmente salvífico. Isso iria levantar um problema para o Agostinianismo/Calvinismo? Eu não penso assim, e vou explicar por que, em resposta ao argumento de Dan.

Dan observa que, na visão calvinista, nem o povo de Tiro nem o de Sidom, nem as pessoas de Corazim ou Betsaida haviam recebido a Graça Irresistível, porque se eles tivessem, teriam se arrependido. Isso é verdade: decorre da própria definição de Graça Irresistível. (Eu prefiro falar de “graça eficaz”, mas não vamos tergiversar sobre rótulos.) Dan assume ainda mais, no entanto, que, no cenário contrafactual em que Tiro e Sidom se arrependeriam em resposta às grandes obras, eles não haviam recebido a Graça Irresistível. Assim, ele conclui que o versículo 21 não se ajusta com aquilo que o calvinista alega (que ninguém pode se arrepender sem graça irresistível).

Mas esta suposição é injustificada. Na interpretação padrão de contrafactuais, precisamos considerar se o efeito do contrafactual (de Tiro e Sidom se arrependerem) é verdade no mais próximo mundo possível em que o fator antecedente (i.e., o povo de Tiro e Sidon ver as grandes obras) é verdade. Por tudo o que sabemos, o mais próximo mundo possível é aquele em que o povo de Tiro e Sidom recebem a Graça Irresistível. Certamente, Dan não nos deu nenhuma boa razão para excluir esta possibilidade. Tendo em conta que em uma visão compatibilista da liberdade, as livres escolhas de uma pessoa são determinadas não só por fatores internos a essa pessoa, mas também por fatores externos (ou seja, circunstâncias), e que podem haver relações causais complexas entre esses fatores internos e externos, seria difícil de refutar esta suposição. Deus trabalha fora seu decreto através de uma multiplicidade de meios inter-relacionados. Por que o mundo mais próximo possível em que Deus decreta que os milagres de Cristo seriam realizados em Tiro e Sidom não poderiam também ser um mundo onde Deus leva Tiro e Sidom ao arrependimento através de sua Graça Irresistível?

Com efeito, para levar a discussão um pouco mais adiante, por que os milagres não podem fazer parte dessa graça irresistível? (Créditos a Paul Manata por sugerir essa idéia). No coração da doutrina da graça irresistível está simplesmente a afirmação de que Deus tem poder para trazer qualquer pecador  espiritualmente morto que Ele escolhe para a salvação, de tal forma que eles vêm a Cristo livremente (ou seja, sem coerção; veja WCF 10.1). Mas Deus é livre para usar uma ampla variedade de meios (incluindo meios circunstanciais) para cumprir o seu chamado eficaz em diferentes pessoas, como a diversidade de testemunhos de conversão cristã ressalta. Não devemos pensar na Graça Irresistível como uma espécie de interruptor espiritual interno que Deus simplesmente pressiona a fim de levar alguém a conversão! Haverá sempre alguns meios que são centrais e universais entre as conversões genuínas, tais como a obra interna do Espírito Santo ao trazer convicção do pecado e a compreensão do evangelho. Mas os meios circunstanciais pelo qual Deus leva a fé e o arrependimento podem e, de fato, variam consideravelmente.

Tendo dito tudo isso, dentro de uma visão reformada da providência divina e do chamado eficaz, os pressupostos de Dan sobre o cenário contrafactual em que os povos de Tiro e Sidom se arrependeriam são injustificados. E, portanto, mesmo se admitirmos suas outras hipóteses (isto é, que Jesus está fazendo uma reivindicação contrafactual literal e precisa e que o arrependimento no versículo 21 deve ser um arrependimento salvífico), os pronunciamentos de Cristo em Mateus 11:21-24 não dão nenhum apoio adicional ao Molinismo se deparado contra o Agostinianismo/Calvinismo. Uma perspectiva calvinista e compatibilista pode acomodar estas declarações de Cristo tão bem como uma perspectiva molinista e libertária.

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Autor: James N. Anderson
Fonte: Analogical Thoughts
Tradução: Erving Ximendes
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Instruções para o Culto Familiar

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Escrita pelos teólogos da Assembléia de Westminster

Aprovado pela Assembléia Geral da Igreja da Escócia para Piedade e
Uniformidade no Culto Individual e Familiar e Edificação Mútua

Ato da Assembléia Geral de 1647 com Relação à sua Observância
Assembléia em Edinburgh 24 de agosto de 1647 Décima Sessão


ATO QUANTO À OBSERVÂNCIA DAS INSTRUÇÕES DA ASSEMBLÉIA GERAL PARA O CULTO INDIVIDUAL E FAMILIAR E EDIFICAÇÃO MÚTUA; E QUANTO ÀS CENSURAS PELA NEGLIGÊNCIA DO CULTO FAMILIAR.

A Assembléia Geral, após madura deliberação, aprova as seguintes Normas e Instruções para promover a piedade, e prevenir divisões e cismas; e designa ministros e presbíteros em cada congregação para tomarem especial cuidado, a fim de que estas Instruções sejam observadas e seguidas; bem como, de igual modo, os presbitérios e sínodos para que verifiquem e julguem se essas Instruções estão sendo observadas em suas fronteiras; e reprovem e censurem (de acordo com a gravidade da ofensa), os que forem achados reprováveis e censuráveis a esse respeito. E, a fim de que estas Instruções não se tornem ineficazes e não proveitosas entre alguns, devido à costumeira negligência à própria substância do dever do culto familiar, a Assembléia determina e aponta ministros e presbíteros para investigarem e averiguarem, nas congregações sob seus respectivos cuidados, se há entre eles alguma família ou famílias que costumam negligenciar este necessário dever; e se for descoberta tal família, o cabeça da família deve ser primeiramente advertido em privado a corrigir sua falta; e, em caso de insistência na falta, deve ser solene e seriamente advertido pela sessão (concílio); após o que, se ele continuar negligenciando o culto familiar, deve ser, por sua obstinação em tal ofensa, suspendido e impedido de participar da ceia do Senhor, visto ser justamente considerado indigno de comungar, enquanto não se corrigir.


INSTRUÇÕES DA ASSEMBLÉIA GERAL, CONCERNENTES AO CULTO INDIVIDUAL E FAMILIAR, E MÚTUA EDIFICAÇÃO; PARA A PROMOÇÃO DA PIEDADE E MANUTENÇÃO DA UNIDADE, E PARA EVITAR CISMAS E DIVISÕES.

Além do culto público em congregação, misericordiosamente estabelecido nesta terra em grande pureza, é apropriado e necessário que o culto individual de cada pessoa à sós e o culto familiar sejam estimulados e organizados, para que, com a reforma nacional, a profissão e o poder da piedade, tanto pessoal como domésticos prosperem.

A Necessidade do Culto Individual

I. Primeiramente, com relação ao culto individual, é extremamente necessário que cada um à parte, e por si mesmo, se dê à oração e meditação. O indizível benefício advindo disso é melhor conhecido por aqueles que são mais exercitados nesta prática. Este é o meio pelo qual, de modo especial, a comunhão com Deus é nutrida, e uma correta preparação para todos os demais deveres é alcançada. Portanto, cabe aos pastores, entre seus diversos deveres, pressionar toda sorte de pessoas a executarem esse dever pela manhã e à noite, e em outras oportunidades. É também dever do cabeça de cada família zelar no sentido de que ele mesmo, e todos os que estão sob sua autoridade, sejam diligentes nisso diariamente.

Ordem para o Culto Familiar

II. Os deveres ordinários compreendidos no exercício da piedade que devem ser realizados em famílias quando reunidas com este propósito são os seguintes: Primeiro, oração e louvores, com referência especial, tanto à condição pública da igreja de Deus neste reino, como à presente situação da família e de cada um dos seus membros. A seguir, leitura das Escrituras e explicação de um modo claro, a fim de que a compreensão dos mais simples possa ser melhor capacitada a tirar proveito das ordenanças públicas e a entenderem melhor as Escrituras; bem como conversas piedosas com vistas à edificação de todos os membros na mais santa fé; assim como, admoestação e repreensão, quando há justa razão, por parte daqueles que estiverem em posição de autoridade na família.

Uso Apropriado das Escrituras no Culto Familiar

III. O ofício de interpretar as Escrituras Sagradas é parte da vocação ministerial, o qual ninguém (embora de outro modo qualificado) deveria atribuir a si mesmo em nenhum lugar, exceto aquele que é chamado para isso por Deus e por sua igreja. Entretanto, em cada família onde houver alguém que possa ler, as Escrituras devem ser lidas ordinariamente para a família; e é recomendável que depois disso confiram, e por meio de conferência (conversas), façam bom uso do que foi lido e ouvido. Assim, se por exemplo, algum pecado for reprovado pela palavra lida, deve-se fazer uso dela no sentido de que toda a família se torne prudente e vigilante contra o mesmo; ou, em se tratando da menção de algum julgamento, deve-se fazer uso do texto lido a fim de que toda a família tema, de sorte que não recaia sobre ela julgamento semelhante ou pior; e finalmente, se algum dever for requerido, ou algum conforto oferecido em uma promessa, deve-se fazer uso disso para estimular a família a buscar força em Cristo a fim de serem habilitados a cumprir o dever requerido, e a aplicar o conforto oferecido. Tudo deve ser dirigido pelo cabeça da família; e qualquer de seus membros pode propor uma pergunta ou dúvida para ser solucionada.

A Responsabilidade do Marido/Pai

IV. A cabeça da família deve zelar a fim de que nenhum membro da família deixe de participar de qualquer parte do culto familiar; e, visto que a realização ordinária de todas as partes do culto familiar pertence propriamente a cabeça da família, o ministro deve estimular os que forem preguiçosos e instruir os que forem fracos, a fim de que se habilitem para estes exercícios. É possível, porém, que pessoas habilitadas, aprovadas pelo presbitério, realizem esta instrução. Nos casos em que o chefe da família for incapacitado, outra pessoa da família, aprovada pelo ministro e pela sessão (concílio), pode ser empregada nesse serviço, devendo o presbitério ser notificado. E se um ministro, pela providência divina, vier a alguma família, ele não deve reunir apenas uma parte dela para o culto, excluindo os demais, exceto em casos especiais que envolvam estas pessoas em particular e quando (pela prudência cristã) os demais não devam tomar conhecimento.

Líderes de Fora Não Permitidos

V. Não permitam que nenhum desocupado, não vocacionado, ou pessoa sem atividade ou com o pretexto de um chamamento, realizem culto nas famílias; visto que pessoas corrompidas, com erros ou que procuram divisão, podem estar prontos para penetrar sorrateiramente nas casas e cativar pessoas néscias e instáveis.

Os Que São Admitidos no Culto Familiar

VI. Um cuidado especial deve ser tomado a fim de que cada família se reúna sozinha para o culto familiar; não requerendo, convidando nem admitindo membros de outras famílias, a menos que se trate de pessoas hospedadas, ou que participem da mesa da família, ou que se encontrem com eles em alguma ocasião legítima.

VII. Por melhores que tenham sido os efeitos e frutos de encontros de pessoas de famílias diferentes, em tempos de corrupção e dificuldades (em cujas circunstâncias muitas coisas tornam-se recomendáveis, embora sejam intoleráveis em circunstâncias normais), ainda assim, quando Deus nos abençoa com a paz e pureza do evangelho, tais reuniões de pessoas de famílias diversas (exceto nos casos mencionados nestas Instruções) devem ser reprovadas, por tenderem a ser um empecilho ao exercício espiritual de cada família por si mesma, por serem prejudiciais ao ministério público, por afastar as famílias das suas congregações, e com o decorrer do tempo, de toda a igreja. Além disso, muitos erros podem advir dessa prática, os quais endurecem o coração dos homens carnais, e entristecem os piedosos.

A Família no Dia do Senhor

VIII. No dia do Senhor, após cada membro da família à parte, e toda a família reunida haverem buscado o Senhor (em cujas mãos está a preparação do coração do homem), para prepará-los para o culto público e abençoar as ordenanças públicas, o cabeça da família deve zelar a fim de que todos os que estão sob seus cuidados estejam presentes no culto público e se unam aos demais membros da congregação; e, terminado o culto público, após a oração, devem considerar o que ouviram, e gastar o restante do dia livre em estudos e conversas familiares sobre a palavra de Deus; ou então, cada um à parte, deve aplicar-se à leitura, meditação e oração, a fim de que possam confirmar e aumentar sua comunhão com Deus; de modo que os benefícios adquiridos por meio das ordenanças públicas sejam desenvolvidos e promovidos, e eles sejam mais edificados para a vida eterna.

Oração Familiar

IX. Todos os que podem conceber a oração, devem fazer uso deste dom de Deus. Embora os rudes e mais fracos possam começar com orações fixas, não devem fazê-lo de modo a se tornarem lerdos em estimularem em si mesmos (de acordo com suas necessidades diárias) o espírito de oração, o qual é conferido em alguma medida a todos os filhos de Deus. Para isso, eles devem ser mais fervorosos (sinceros) e freqüentes na oração em secreto a Deus, pedindo que seu coração seja habilitado a conceber, e sua língua a expressar desejos apropriados por sua família. Enquanto isso, para o maior encorajamento dessas pessoas, elas devem meditar e fazer uso dos seguintes assuntos em suas orações:

Confessem a Deus o quão indignos são para virem à Sua presença, e quão despreparados estão para cultuar Sua Majestade; e, conseqüentemente, supliquem diligentemente que Deus lhes confira espírito de oração.
Confessem seus pecados, e os pecados da família, acusando, julgando e condenando a si mesmos por isso, até que suas almas experimentem alguma medida de verdadeira humilhação.
Derramem suas almas diante de Deus, em nome de Cristo, por intermédio do Espírito, suplicando pelo perdão dos pecados, por graça para arrepender-se, para crer e para viver sóbria, reta e piedosamente; e para servir a Deus com alegria e prazer, andando na Sua presença.
Agradeçam a Deus por Suas muitas misericórdias para com o Seu povo, e para com vocês mesmos, especialmente por seu amor em Cristo, e pela luz do evangelho.
Orem pedindo os benefícios particulares, espirituais e temporais, que estejam necessitando no momento, na saúde ou na doença, na prosperidade ou na adversidade.
Intercedam pela Igreja de Cristo em geral, por todas as igrejas reformadas, e por sua igreja em particular, e por todos os que estão sofrendo pelo nome de Cristo; por todas as nossas autoridades superiores, pelo rei, pela rainha e seus filhos; pelos magistrados, ministros, e por todo o corpo da congregação da qual são membros, bem como por seus vizinhos ausentes envolvidos com os seus afazeres legais, bem como por todos os que estejam em casa.

A oração pode ser encerrada com a expressão de um sincero desejo que Deus seja glorificado na vinda do reino do Seu Filho, do cumprimento da Sua vontade, e da convicção de que vocês são aceitos, e de que o que pediram de acordo com a Sua vontade será feito.

A Urgência do Culto Familiar

X. Estes exercícios devem ser realizados com grande sinceridade, sem procrastinação, colocando de lado todas as atividades seculares ou impedimentos, a despeito da zombaria dos homens ateus e profanos, em respeito às grandes misericórdias de Deus para com esta terra, e às severas correções às quais Ele anteriormente fez vir sobre nós. Com vistas ao cumprimento desses exercícios, pessoas eminentes (e todos os presbíteros da igreja), não apenas devem estimular-se a si mesmos e suas famílias a serem diligentes nesse dever, mas também devem agir efetivamente, no sentido de que em todas as outras famílias sob seus cuidados ou influência, estes exercícios sejam conscientemente realizados.

Ocasiões Especiais para o Culto Familiar

XI. Além desses deveres familiares ordinários, mencionados acima, deveres extraordinários, tanto de humilhação como de agradecimento, devem ser cuidadosamente levados a efeito nas famílias, sempre que o Senhor os requeira, por meio de ocasiões extraordinárias privadas ou públicas.

A Necessidade de Edificação Mútua

XII. Visto que a Palavra de Deus requer que nos consideremos uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras, em todas as épocas, e especialmente nesta, quando a impiedade abunda, e os escarnecedores, andando em suas próprias concupiscências, estranham que outros não concorram com eles ao mesmo excesso de devassidão; cada membro desta igreja deve estimular-se a si mesmo e uns aos outros aos deveres de edificação mútua, pela instrução, admoestação, repreensão, exortando uns aos outros a manifestar a graça de Deus, renegando a impiedade e as paixões mundanas, e vivendo sensata, justa e piedosamente neste presente século, confortando os fracos, e orando uns pelos outros. Estes deveres devem ser levados a efeito especialmente em ocasiões especiais oferecidas pela providência Divina; como, por exemplo, quando ocasiões de calamidade, adversidade ou grandes dificuldades, exigem conselho e conforto; ou quando um ofensor precisa ser admoestado privadamente, e, não sendo isso suficiente, a presença de mais uma ou duas pessoas se faça necessária, de acordo com a regra de Cristo, a fim de que pela boca de duas ou três testemunhas, toda a verdade possa ser estabelecida.

Aconselhamento

XIII. Visto que não é dado a todos falar de modo apropriado a pessoas que necessitam de aconselhamento, conforto ou repreensão, faz-se necessário que tais pessoas, nessa situação, não encontrando paz após terem feito uso de todos os meios ordinários privados e públicos, dirijam-se ao seu pastor, ou a outro crente experiente. Se, contudo, a pessoa com dificuldade de consciência, for de uma condição ou sexo que a discrição, modéstia ou temor de escândalo requeira que um amigo íntimo, sóbrio e sério esteja presente com eles em tal difícil ocasião, é imprescindível que tal amigo se faça presente.

Casos excepcionais

XIV. Quando pessoas de famílias diferentes forem reunidas pela providência Divina, seja devido à vocação comum, ou por qualquer outra circunstância necessária, visto que devem ter sempre a presença do Senhor deles consigo aonde quer que forem, tais pessoas devem falar com Deus, e não negligenciar o dever da oração e da ação de graças. Devem, contudo, ter prudência para que a oração seja feita por aquele que, dentre o grupo, for julgado capacitado para tal. Devem, de modo semelhante, ter prudência para que conversas corrompidas não lhes saiam da boca, mas apenas o que for bom para a edificação, e para ministrar graça aos ouvintes.

As Principais Razões destas Instruções

O propósito e escopo destas Instruções não é outro senão, por um lado, nutrir e promover o poder e a prática da piedade entre ministros e membros desta igreja, de conformidade com suas diversas posições e vocações; e reprimir toda impiedade e fingimento dos exercícios religiosos. E, por outro lado, impedir que, sob o nome e pretexto de exercícios religiosos, seja permitida qualquer reunião ou prática que possa degenerar em erro, escândalo, divisão, desacato ou desconsideração para com as ordenanças públicas e ministros, ou negligência dos deveres dos chamados particulares, ou quaisquer outros males, os quais são obras não do Espírito, mas da carne, e são contrárias à verdade e à paz.

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Fonte: The Directory for Family Worship (Greenville, South Carolina: Greenville Presbiterian Theological Seminary, 1994).
Tradução: Rev. Paulo R. B. Anglada
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Fatores que evidenciam uma Crise Pastoral

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Em dias de crise econômica e escassez ética, nada melhor que refletir sobre as motivações que podem gerar uma situação igual a que estamos vivendo no contexto político de nossa pátria. Refletir sobre o tema específico é proveitoso. É justamente isso que iremos fazer neste conteúdo. Porém, não direcionaremos nossa reflexão à crise político-econômica de nossos dias. Pois, ao abordar esse tema, necessariamente, outros temas viriam à baila. E se fizermos uma busca pelo ponto cerne de tudo, sem sombra de dúvidas, chegaríamos ao pecado como causa. Mas, a crise a ser abordada aqui, bem como suas causas, é na realidade outra, e que tem se instaurado em outro ambiente, a saber, no ministério pastoral. 

Há anos que temos instaurado no cenário religioso tupiniquim uma verdadeira “crise pastoral”. Em primeiro lugar, precisamos definir termos; Poimen, este que é o termo utilizado para pastor em grego e que significa supervisionar o rebanho – cuidado contínuo, zelo, preocupação com bem-estar e saúde das ovelhas. Observando o significado do termo em si, logo nos vem algumas dúvidas, a saber: Por que tantas pessoas que se aventuram no ministério pastoral não possuem essas características? Por que tantos que se aventuram neste ofício realizam a lógica contrária, a saber, obter vantagens próprias por meio das “ovelhas” ao invés de ampará-las? Na realidade, vivemos uma grande “Crise Pastoral” sem precedentes. Neste texto, tentarei destacar alguns dos principais motivos de tal crise.

O primeiro e mais grave motivo pelo qual vivemos em dias atuais, uma verdadeira “Crise Pastoral” é a falta de conhecimento bíblico que norteia o cenário religioso cristão da atualidade. O profeta Oseias já alertava no seu tempo (Oseias 4:6). Na atualidade há uma baixa cultura literária em nossa nação, e dentro deste índice, A Bíblia figura. O problema aumenta quando entendemos que todo e qualquer cristão deva ter o mínimo de conhecimento dos idiomas originais da Bíblia, isso porque vivemos uma época onde cada vez mais pessoas combatem os pressupostos cristãos se utilizando da própria Bíblia e de recursos exegéticos (na grande maioria das vezes fazem “eixegese” ao invés de exegese) – um bom exemplo é a Teologia Inclusiva que tenta usar argumentos bíblicos para legitimar-se. Quando se figura num cenário, cristãos que leem e conhecem pouco o livro que regulamente suas regras de fé e prática – A Bíblia – e pessoas que a estudam com intenções tendenciosas e ideológicas, sempre com intuito de refutá-la, temos um ambiente favorável para o surgimento de várias aberrações da fé. Este é o pano de fundo da “Crise Pastoral” que anunciamos aqui. Vejamos as palavras do profeta Oseias:

O meu povo foi destruído, porque lhe faltou o conhecimento; porque tu rejeitaste o conhecimento, também eu te rejeitarei, para que não sejas sacerdote diante de mim; e, visto que te esqueceste da lei do teu Deus, também eu me esquecerei de teus filhos”. (Oseias 4:6)

O interessante é ver nisso tudo que o próprio Deus rejeita aqueles que rejeitam o conhecimento, Deus os rejeitou como sacerdotes. O conhecimento pode ser entendido aqui como a lei de Deus, e quem a rejeita, Deus os rejeita. Podemos perceber que há uma grande possibilidade de haver no cenário religioso atual uma quantidade elevada de pessoas que rejeitam e negligenciam à Bíblia, e, por isso, são rejeitados por Deus. Mas, estas pessoas, se intitulam pastores aptos a conduzir o rebanho. Estas pessoas estão lançadas às suas próprias sortes. Deus os rejeitou como sacerdotes, líderes e pastores, por negligência da Palavra de Deus. Imagine agora como será um ambiente onde o líder fora desprezado por Deus, mas ele se julga apto a liderar o rebanho? É justamente nesses ambientes onde vemos as maiores aberrações da fé. Assim como Israel caminhou em direção da destruição por ter negligenciado a Lei de Deus, muitos caminham em direção de um precipício e de olhos vendados, sendo guiados por um líder que também não enxerga nada. Falsos pastores conduzindo falsas ovelhas, pois as verdadeiras ovelhas reconhecem a voz de seu verdadeiro pastor (João 10). 

Outro motivo que poderia figurar na lista das causas da “Crise Pastoral” que vislumbramos em nossos dias, seria cometido por aquelas pessoas que escolhem ser pastor. Certo dia ouvi uma pessoa dizer que desde pequeno sonhava em ser pastor. Ela não queria realizar outra coisa em sua vida. Ao ouvirmos isso, aparentemente, soa como algo lindo. Porém, precisamos refletir biblicamente sobre esta alegação. Moisés foi um dos homens chamados por Deus que relutou contra isso (Êxodo 4:1-17), ele não se sentia preparado para executar tamanha tarefa, nem muito menos queria ser líder desde pequeno. O próprio Jeremias relutou quando Deus o chamou (Jeremias 1:6) como se não se avaliasse preparado. Inclusive, é o próprio profeta quem escreve em seu livro que os pastores serão dados exclusivamente por Deus (Jeremias 3:15). Jeremias também não sonhava em exercer uma liderança desde criança. Nestes dois casos, nenhum dos personagens bíblicos escolhe ser líder do povo, mas Deus os chama mesmo assim. Numa outra passagem das Escrituras Sagradas, outro dado interessante é quando o Profeta Samuel vai até a casa de Jessé escolher o novo rei de Israel em sucessão de Saul (I Samuel 16), Deus dá uma ordem ao profeta:

Porém o Senhor disse a Samuel: Não atentes para a sua aparência, nem para a grandeza da sua estatura, porque o tenho rejeitado; porque o Senhor não vê como vê o homem, pois o homem vê o que está diante dos olhos, porém o Senhor olha para o coração” (I Samuel 16:7)

Aqui vemos uma concatenação entre  os dois textos mencionados, a saber, o de I Samuel 16:7 e o de Jeremias 3:15. Mas, mais que isso, estas palavras foram ditas por Deus quando Samuel tinha olhado para um dos filhos de Jessé (Eliabe) e o havia avaliado como sendo o futuro rei de Israel. Mas Deus alerta Samuel para não se iludir com a aparência. Hoje sabemos que as aparências enganam. Deve ser por isso que só Deus pode conceder pastores, porque só Ele pode sondar os corações. E como o próprio homem não conhece de fato seu próprio coração e nem o coração alheio, é melhor que Deus confirme e escolha aqueles que devem conduzir o rebanho. 

Podemos mencionar também o apóstolo Paulo como sendo importante expoente dentro desta lista e tema, pois o mesmo fora chamado por Deus de uma forma bem específica. Sua conversão, sobrenatural, na estrada de Damasco, aponta para um homem que não escolhe Deus, mas que Deus o escolhe. Ao avaliarmos o processo que Deus executa em chamar aqueles que Ele mesmo escolhe para a realização de sua obra, não vemos nenhum homem que escolhe, desde pequeno, servir a Deus. Vemos homens que foram chamados, em determinados momentos de suas respectivas vidas, alguns ainda com pouca idade (o rei Josias que foi levantado por Deus aos oito anos de idade), outros já de idade adulta, mas independente disso, homens que nem se quer pensavam em desenvolver uma função dada por Deus. Com isso, devemos atentar para algo, a saber, precisa-se ter muito cuidado quando alguém abre a boca e diz que desde pequeno sonhava e queria ser pastor. Essas palavras podem ser verdadeiras, mas a Bíblia não dá ênfase a tal regra, muito pelo contrário, a grande maioria dos chamados de Deus em direção ao homem se dá quando este mesmo homem já possui uma idade adulta e nem se quer fazia planos para seguir a Deus. Talvez este seja um dos principais motivos cujo qual sofremos uma grande “Crise Pastoral” na atualidade – pessoas que escolhem ser pastor, e todo bom pastor não escolhe ser, mas Deus o escolhe. 

Outro motivo recairia na omissão e falta de coragem por parte de muitos homens em realizar tanto sua função pastoral, como também seu próprio papel de homem. Entendemos que antes de tudo, um bom pastor precisa ser “Homem” – com H maiúsculo. Vivemos uma “Crise Pastoral” porque muitos homens se esquecem disso. Quando me refiro ser homem, não me refiro aos aspectos masculinos, mas sim à personalidade e caráter. Refiro-me ao que de fato é masculinidade. E dentro deste conceito sabemos que existem dois tipos de masculinidade; a verdadeira e a falsificada. Nas palavras de Douglas Wilson, seria desta forma:

“A masculinidade falsificada se destaca por criar desculpas; porque essa ‘masculinidade’ é uma questão de orgulho, e não a humilde aceitação da responsabilidade. Assim, qualquer coisa que ameace esse orgulho deve ser rejeitada. Uma das coisas que sempre ameaçam o orgulho é qualquer tipo de falha, e a maneira como homens inseguros lidam com isso é dando desculpas. A verdadeira masculinidade assume a responsabilidade, e ponto final. Já a falsa masculinidade irá querer aceitar a responsabilidade apenas por aquilo que deu certo.” (WILSON, 2012, p. 24)

Um dos principais motivos por vivermos na atualidade uma “Crise Pastoral” é nada mais nada menos que ausência de uma masculinidade verdadeira e a presença de uma masculinidade falsificada nos homens envolvidos com a obra de Deus. Homens de masculinidade falsa, que não assumem suas responsabilidades pastorais. Assumir responsabilidades é a maior característica presente no caráter de um “Homem”, e é justamente esta característica que evidencia os homens de masculinidade verdadeira, àqueles com H maiúsculo. Como este tipo de homem está em extinção no cenário religioso do Brasil, figurando mais os homens de masculinidade falsificada, este segundo grupo de “homens” dão margem para surgir várias aberrações nos púlpitos. Infelizmente, muitas mulheres assumem a postura que devia ser vista nos homens. O surgimento do fenômeno da ordenação feminina no seio da liturgia cristã contemporânea, não se dá apenas por falta de conhecimento bíblico-exegético – mesmo entendendo que este é o principal motivo deste fenômeno –, mas também por termos na atualidade uma geração de homens de masculinidade falsificada que não assumem suas respectivas responsabilidades pastorais. Sempre que uma mulher é ordenada pastora, há por trás disso um homem de masculinidade falsificada. Sua masculinidade é tão falsificada que uma mulher assume seu lugar. É como se ela estivesse dizendo em alto e bom tom: “Aqui tem homem!”, e infelizmente, o papel do homem é realizado por ela mesma. Este é mais um dos principais motivos por estarmos vivendo na atualidade uma “Crise Pastoral”.

Por fim, entendemos que todo o processo do chamado de Deus em direção aos verdadeiros pastores e líderes atende uma ordem monérgica. Ou seja, é o próprio Deus quem a executa de forma plena e autônoma. Quando o homem se julga preparado para exercer tamanha função, já é um mau sinal. Pois, como o Próprio Deus é quem chama, Ele mesmo preparará o indivíduo gradativamente. E uma das características dos homens chamados e levantados por Deus é justamente nunca se sentir preparado. O preparo além de ser gradativo, não possui um estágio final, e é contínuo. É por nunca se sentir preparado que aqueles que Deus realmente levantou como pastores acreditam ser de tamanha responsabilidade este título – pastor. Por outro lado, há aqueles que se avaliam como sendo totalmente aptos e preparados a exercer as funções pastorais. Eles se avaliam como sendo tão aptos e preparados que não aceitam, nem sequer, serem chamados mais de pastores, pois este título rebaixa suas condições elevadas de homens preparados. O título de pastor provoca comichão e incômodo na alma, provoca inquietação e insatisfação – “paipóstolo”, “mãepóstola”, “apóstolo” etc., conforta mais uma alma megalomaníaca e sedenta por uma subida incessante na escadaria do poder. 

Daqui uns dias o título de demiurgo estará sendo utilizado por alguns destes homens. Deve ser justamente estes a quem Oseias nos alerta. Estes que rejeitaram o Senhor e que foram rejeitados e esquecidos de forma recíproca. Estes que caminham por caminhos que não conhecem e levam consigo uma grande multidão que juntos estabelecem em nossos dias uma profunda, funesta e amarga “Crise Pastoral”. 

Falsos pastores se estabelecem por si próprio, mas o verdadeiro pastor é Deus quem levanta, e as verdadeiras ovelhas, não as falsas, conhecem a sua voz.

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Autor: Thiago Azevedo
Via: Electus
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A ideia de uma filosofia pautada nas Escrituras - 2/2

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O correlato da soberania de Deus sobre todas as coisas e com a soberania das esferas é o principium exlusae antinomiae (o princípio da antinomia excluída). A prática e a ciência sempre deparar-se-ão com problemas, caso não partam do princípio de que as antinomias estão excluídas no cosmos. Pois se todas as áreas estão sujeitas à lei de Deus que lhes é particularmente válida, então é evidente que nenhuma dessas áreas se encontra sujeita à outra lei, de modo que toda tentativa humana de sujeitá-las a uma lei que não está adaptada para a área em destaque está condenada ao naufrágio.

A luta, que tem sido travada nos últimos anos na Universidade Livre de Amsterdã, contra a aceitação das antinomias, é basicamente apenas a continuação dessa antiga luta contra a pseudo-soberania da razão, a qual foi travada de forma tão corajosa nas outras regiões na Holanda. O pensamento pagão sempre aceitou antinomias. E não poderia ser diferente, pois tal pensamento foi o responsável por trazê-las à tona. Afinal, tendo concebido o cosmos como o trabalho ordenado de Deus, o paganismo refletiu, opinativo, que Deus foi confrontado com um caos que aguardava ser posto em ordem – quanto mais fácil, melhor. Ora, Hans Driesch (em sua obra Wissen und Denken, 1919) recentemente, de maneira honesta, ressaltou o ideal monista de ordem, para então – de modo não muito diligente – reconhecer que ele não se sustentava.

No entanto, mesmo onde se reconhece uma variedade de funções, acaba-se reduzindo à velha concepção: não se espera mais surpresas, mas tenta-se, tão logo descubramos uma nova distinção de uma função específica, dividir tudo novamente em classes já descobertas. Desse modo, o materialista distingue as superfícies espaciais e o movimento; o vitalista, por sua vez, resguarda a distinção entre o “mecânico” e o “orgânico”; e, por fim, torna-se conspícuo a outros que a vida emocional é algo totalmente diferente da vida orgânica. Sendo assim, tem-se, consequentemente, que as funções não se encontram nitidamente separadas entre si; pensemos, por exemplo, na fusão da aritmética com a espacialidade. Todavia, sabemos como na concepção grega do “Logos”, a função analítica e a linguística, bem como o pensamento e o juízo, eram concebidos confusamente como uma só coisa – a analítica ou lógica e a linguística até hoje sofrem por isso. O que podemos esperar desse confronto? Todas essas áreas possuem a verdade a seu lado numa proporção tal que cada uma delas percebe uma distinção de determinada função e a mantém. Com efeito, o movimento não pode ser subsumido no espaço, nem o orgânico, no movimento.

O emocional é, de fato, algo totalmente diferente do orgânico, e, de semelhante modo, o analítico é distinto do emocional. A criação é um livro escrito por Deus, e todas essas coisas são igualmente capítulos individuais deste livro. Entretanto, todas essas tentativas se encontram equivocadas na medida em que cada uma busca encaixar à força a rica diversidade total dentro de um esquema de uma distinção específica que tenha sido recentemente redescoberta, após ter caído em esquecimento nos dias passados e é agora superestimada de forma totalmente injustificada. Consequentemente, cremos, no que diz respeito à totalidade da história da ciência até então, que podemos distinguir de pronto as seguintes funções: a função aritmética, a espacial, a física (energética, incluindo a energia cinética), a orgânica, a emocional ou psíquica, a analítica ou lógica, a histórica, a linguística, a social, a econômica, a estética, a jurídica, a ética e a pística [fé]. Nessa ordem, elas são as funções das coisas que se encontram intimamente ligadas e sujeitas às leis de Deus, que são válidas para elas.

1. Não menos importantes são as “coerências” no cosmos. Há coerências tanto em uma mesma coisa (intra-individual) e entre diferentes coisas (inter-individual). Primeiramente, tratemos sobre a coerência intraindividual.

Neste ponto, é preciso distinguir duas questões: uma coerência entre estados consecutivos de uma mesma circunstância. Já a coerência interindividual se torna prontamente patente quando pensamos, por exemplo, acerca da coerência entre uma inflamação orgânica e a dor associada a ela no nível emocional, ou ao contrário, quando pensamos sobre a tensão psíquica que acompanha as preocupações econômicas. As obscuridades somente virão à tona caso sigamos a tendência da filosofia atual que percebe algo como sendo o resultado de duas pseudo-coisas. Com tal afirmação, não pretendo criticar a análise técnica que é capaz de dividir novamente as coisas compostas em seus componentes originais. A atribuição do nome coisa aos materiais que o químico extrai dessa forma é totalmente justificada – eles são materiais que pertencem ao mesmo domínio, e de semelhante modo possuem as mesmas funções, i.e., uma função aritmética, uma espacial e uma física. Mas a questão é totalmente diferente quando tratamos das chamadas coisas, que permanecem com o filósofo quando ele divide uma coisa em dois grupos. Assim Demócrito dividiu a coisa física numa coisa espacial acrescida de movimento; e outros viram a planta como uma pedra mais a vida; um animal como sendo um organismo mais algo psíquico; e um ser humano como um animal e algo mais. Quem faz coro a isso nega a coerência existente entre as diferentes funções. Pois é exatamente por meio dessa conexão que as funções menos complexas num ser humano se desenvolvem muito mais plenamente do que num animal ou numa planta. As funções inferiores, tão logo surjam, são primeiramente direcionadas em coerência com as funções superiores – as inferiores “antecipam” as superiores.

Por outro lado, as funções mais complexas são não apenas fundadas nas menos complexas, mas também se remetem para as inferiores: elas retrocipam. Antecipações e retrocipações existem, pois, em virtude apenas da coerência vertical de uma variedade de funções numa mesma coisa. Tal coerência deve ser claramente distinguida da coerência horizontal entre funções iguais de coisas diferentes. As funções são sempre “funções-das-coisas”, mas jamais podemos apresentar um grupo de funções como se fosse uma coisa. Aqui há, pois, uma segunda coerência intra-individual: uma coisa perpassa diferentes estados em todas suas funções. Ela existe no tempo; possui um passado, um presente e um futuro. Tais estados não existem desconectados um do outro. O último [o futuro] está contido no primeiro [passado], embora o presente não possa ser predito a partir do passado, nem o futuro possa ser profetizado a partir do presente. Isso indica uma coerência bastante peculiar entre o anterior e o posterior: o primeiro claramente envolve um número de possibilidades que abrangem também o último, embora este, por sua vez, ainda inclua várias possibilidades ausentes no primeiro.

As duas coerências intra-individuais não são idênticas, em suas naturezas. Não é que uma função se encontre em relação à outra como uma potencialidade está para uma realidade, embora essa relação ocorra em todas as funções. Tanto na vida quanto nas Sagradas Escrituras não somente o que acima discutimos se encontra em destaque, mas também as coerências inter-individuais. Ambas (a vida e as Escrituras) estão atentas para o importante lugar que a coerência entre as coisas individuais ocupa no cosmos – uma percepção que muitos, recentemente, quase perderam sob a influência do individualismo. Tratemos brevemente da coerência entre sujeitos e sujeitos e, então, a coerência entre sujeitos e objetos presente em meio à riqueza apresentada pela obra do Criador. Coisas individualmente diferentes que pertencem ao mesmo “domínio”, por exemplo, duas plantas ou dois seres humanos, são similares no seguinte sentido: ambos possuem funções sujeitas à mesma esfera de lei. Tais funções não se encontram desconectadas, mas estão em coerência uma com relação à outra – uma coerência que, certamente, apresenta o caráter da esfera de lei em questão. Desse modo, duas linhas se entrecruzam; na esfera física, uma forma de energia se transforma em outra; e assim alguém me indica a suspeita na área analítica. Onde quer que a linguagem desempenhe um papel, essas coerências assumem o caráter de co-operação, por meio dessas coisas inter-humanas tais como sociedade, empresa, estado, família, comunidade religiosa. Essas coerências são diferentes entre si, visto que o objetivo particular de cada uma não reside na mesma esfera de lei. Não é necessário me demorar no que diz respeito à necessidade de distinguir essas coerências claramente e do esforço desempenhado por parte dos calvinistas nisso.

Frequentemente essa coerência é discutida somente na epistemologia – o que é um equívoco. Ainda que não caiamos no erro do positivismo, de tornar a existência dos objetos dependente da investigação realizada sobre eles, ainda existe outros perigos, mesmo que se separe um lugar independente para o objeto, dentro da epistemologia. Ora, o fato de algo tornar-se objeto não depende de sua investigação, pois objetos – independente se a atenção se dirige a eles ou não – se apresentam onde quer que uma função inferior se repete numa função superior. Assim, o ponto é, no âmbito espacial, a repetição da descontinuidade do número; dessa forma, há – “objetivamente” – no âmbito físico, trajetos imutáveis que são descritos por coisas mutáveis; de semelhante modo, a estimulação biótica ocasionada pela luz se repete no âmbito físico como cor; e, desse modo, somos confrontados com vir-a-ser independente de determinado objeto quando o espaço, que em si mesmo não é euclidiano, se torna euclidiano no âmbito físico, ao mesmo tempo que atua como espaço de percepção.

E por fim, tratemos ainda acerca da transição de uma coisa da coerência inter-individual para a coerência intra-individual e vice-versa. A primeira transição pode ser encontrada dentro de um mesmo domínio, por exemplo, na fusão química de diferentes materiais, e entre diferentes domínios, por exemplo na absorção de determinado nutriente por parte das plantas, animais e seres humanos. Transições nas direções opostos aparecem, por exemplo, na coerência genética. Por esse conceito, entendemos o desenvolvimento de uma coisa a partir de uma ou mais coisas dentro do mesmo domínio. Tal desenvolvimento ocorre de modo totalmente diferente do ensinado pelos adeptos da teoria funcionalista da evolução: de acordo com eles, as coisas com funções superiores poderiam se desenvolver a partir de coisas com funções inferiores. O estudo do desenvolvimento real restringe essas especulações e estudos apenas àquilo que se encontra no cosmos, o que se implica, conforme já dito, na origem de uma coisa a partir da outra dentro do mesmo domínio. Tomemos um exemplo: um elétron, que anteriormente se encontrava numa coerência intra-individual com os demais elementos do átomo, está agora ligado com os mesmos elementos numa coerência inter-individual. A questão se torna um pouco mais complicada quando – como na reprodução sexual – a coisa que é ejetada entra numa coerência intra-individual com outra, com a qual se encontrava anteriormente apenas inter-individualmente ligada. Somente caso alguém realmente estude o desenvolvimento em si (o que seria de fato uma felicidade), será possível construir um conceito decente de “tipo” [i.e. espécie]. Aquilo que hoje em dia é apresentado como tal nada mais é do que uma similaridade percebida na “forma” das coisas; e há ainda certa disputa se existe efetivamente uma forma geral que possa ser usada como critério, ou se isso é apenas o produto da ação abstrativa de nosso pensamento. 

No que tange à raça humana, no primeiro caso (a forma geral) alguns pensadores elevaram seu próprio ideal a uma norma para os demais, e olharam com desdém para aqueles que não satisfaziam esse ideal [como no caso do racismo e eugenia]. No outro caso, a questão descamba para o cosmopolitismo. Quão diferente é a concepção das Sagradas Escrituras! Ela não apresenta esses ideais acima citados, mas também não aponta na direção do cosmopolitismo; todavia, ensina que de um só fez todas raças humanas (At 17:26); quando trata acerca das almas dos descendentes, que estavam “nos lombos” ou “quadris” dos ancestrais, ela toma o desenvolvimento de forma totalmente concreta (ex. Gn 35:11; Ex 1:5; Jz 8:30; 1 Rs 8:19; 2 Cr 6:9; At 2:30; Hb 7:5). Por essa razão, ela também dá grande importância para as genealogias que remontam a Adão, que, com exceção de Jesus, foi o único ser humano que não veio à existência por meio da união sexual. O primeiro ser humano teve origem na criação, e, então, a partir de um ato criativo particular de Deus, no qual Ele insuflou o sopro da vida (Gn 2:7), de modo que lhe foi possível, quando a luz da palavra pregada de Deus chegou até ele (Adão), testar suas próprias ações e o comportamento dos outros com base na Lei de Deus (Pv 20:27) e na execução de seu ofício humano: dominar sobre as obras das mãos de Deus – isto é ser a “imagem” (Gn 1:26-27) e o “filho de Deus” (Lc 3:38)

II

A filosofia pautada nas Escrituras concebe a religião como um pacto, um unio foederalis, que se torna conhecida pela raça humana através da revelação da Palavra, ainda antes mesmo da Queda.

1. Com essa afirmação, a filosofia calvinista se dirige contra toda tentativa de interpretar a religião como uma submersão substancial ou funcional do homem em Deus. Por essa razão, na filosofia calvinista, até mesmo a religião é tratada como um tópico separado, pois não há fundamento nos associarmos com as concepções atuais, de acordo com as quais a religião pode ser resumida naquilo que citamos anteriormente. Todavia, é exatamente isso que não podemos fazer. Se alguém iguala a vida no pacto divino com uma ou outra função, então tal pessoa acaba sendo conduzida – quer queira ou não – ao universalismo: fé, vida espiritual, consciência ou qualquer outro termo com o qual se queria nomear isso, torna-se raios do ser divino, cristalizações do Logos ou algo do tipo. Portanto, não é possível entender fé e descrença como oposições restritas; a especulação imediatamente se apresenta a fim de relativizar essas oposições. Caso não queiramos seguir essa última posição, então a afirmação de que a religião é uma função humana conduz consequentemente à não atribuição dessa função (a religião) a todo mundo: a fé se torna um donum superadditum, que fica totalmente sem uma associação imediata com relação às outras funções. A fatídica negação da coerência entre pensamento e fé é, pois, o resultado inevitável desse posicionamento. Roma tomou um caminho diferente. Ao passo que rejeitam tanto a separação entre fé e razão e universalismo, eles, nessa questão, buscam basear a alternativa “fé versus descrença” na relação mantida pelo ser humano com os oficiais da igreja instituída. Isso é um equívoco, pois embora essa relação não seja, em si mesma, uma função, contudo, ainda reside na área funcional: é a associação entre o âmbito devocional e o âmbito do poder na área pística [da fé], que também está presente nas religiões não-cristãs.

A identificação da religião com uma função não nos leva a lugar nenhum e, de semelhante modo, não está de acordo com o parâmetro das Escrituras. Mas as Escrituras mostram um caminho que torne possível compreender a religião? A mesma Escritura, que com sua intimação acerca do castigo eterno, denuncia o universalismo, mas que, por outro lado, não separa a religião da vida, nem, segundo o modo romanista, identifica a religião com a relação entre “leigos” e oficiais”; essa mesma Escritura nos mostra o caminho na medida em que, de maneira simples, fala acerca do coração, de onde procedem as fontes da vida (Pv 4:23). Com isso, a coerência do coração com as funções também nos é indicada: as funções são a estrutura na qual e através da qual se expressa o coração do homem. E aquilo que se aplica a todas as funções também é válida para função pística [da fé, da confissão]: até mesmo aquilo no qual um indivíduo crê depende, em última análise, do tipo de coração que ele possui. Ora, todos aqueles que estão familiarizados com as Escrituras sabem que podem encontrar a base dessa distinção entre “coração” e fé” ao longo de toda a narrativa bíblica (At 16:14). Essa mesma concepção é ainda mais essencial para a distinção entre regeneração e conversão.

A fé, como uma função, está presente em todas as pessoas, mas ao passo que tal função, nos cristãos, leva em conta a Palavra de Deus, nos não-cristãos, a fé (como função) os leva a substituir as Escrituras por alguma outra coisa. Neste último caso, o ser humano cria seu próprio e suposto conhecimento daquilo que por vezes proveio de uma suposta descoberta do coração humano e a respeito das questões que o cristão conhece por meio da Palavra de Deus. Assim, o descrente, em última análise, vive e morre como um produto de sua própria cultura. Se o Espírito de Deus, contudo, redireciona a direção básica da vida humana e a traz à obediência da Palavra de Deus, então no desenvolvimento ulterior da vida, essa Palavra adquire cada vez mais sentido. Ora, esta Palavra exonera o indivíduo da determinação daquilo que é, de fato, a religião. As Sagradas Escrituras a veem como um “andar com Deus” (Gn 5:22-24), um “guarda e conservação da aliança” (Êx 19:5; Dt 33:9; Sl 25:10, 103:18, 132:12; Is 56:4-6; Dn 9:4), etc. Essa aliança não é um vínculo que se encontra necessariamente dentro dos limites do cosmos. É um relacionamento entre Deus, que de forma alguma pertence ao cosmos, e o ser humano, que de todas formas, pertence ao cosmos.

2. Somente – e com isso chegamos ao segundo raciocínio que está incluído em minha afirmação – as coerências que existem dentro do cosmos se incluem na aliança. Consequentemente a Palavra de Deus não “aconteceu” apenas aqui e ali, ou ora com relação a isto e aquilo no que diz respeito àquele “indivíduo”. Não! A Palavra de Deus foi pregada a toda raça humana, primeiramente a Adão, então a ambos nossos ancestrais (Adão e Eva) antes de terem pecado; posteriormente a Noé, e finalmente aos patriarcas e a todo Israel. É necessário estar atento aos hábitos e deveres dos pais em proclamar essa Palavra a seus filhos (Sl 78:3,4; Dt 4:9 e 6:7). Por essa razão, a Palavra que é pregada num momento posterior nem sempre repete a que foi pregada anteriormente, mas, pelo contrário, se liga a ela – e mesmo a Queda não implica numa ruptura com essa ligação. Com efeito, somente após a Queda, a Palavra obteve o status de palavra da graça. Contudo, o Salvador, cujo advento ela agora proclama, foi Ele mesmo o Criador do mundo, que salva Sua própria obra, o Qual derrama Seu espírito sobre toda carne – tal como no estado em que foi criada. Santificados justamente por esse Espírito, a fé na Palavra de Deus cresce novamente na vida do homem – e também a fé em Suas promessas para os crentes e seus descendentes. Por conseguinte, a vida em lugar algum é tão poderosa como nessa instância, na qual o indivíduo crê em Deus a partir diretamente de Sua Palavra.

III

Com relação às circunstâncias após a Queda no pecado, a filosofia pautada nas Escrituras admite: (1) a depravação total do ser humano; (2) a morte como punição pelo pecado; (3) a revelação da graça do Deus soberano no Mediador.

1. Aquele que acompanhou as questões precedentes compreende que a filosofia pautada nas Escrituras aceita a Palavra de Deus também naquelas partes em que ela expressa suas duras verdades. Em última análise, há mais a se ganhar com isso do que caso nos recusarmos a encarar a realidade. Não é tarefa da filosofia mudar algo na realidade; antes, ela deve somente buscar compreender o cosmos a partir da luz da Palavra de Deus. Por meio da comunicação do Espírito Santo, somos confrontados, em primeiro lugar, com o fato de que a raça humana está depravada pelo pecado. Assim, a morte não somente afeta Adão, mas ao mesmo tempo todos aqueles que estão incluídos nele (1Co 15:21). Ninguém pode dizer isto com plena consciência, sem que sua afirmação se torne (como no caso de Paulo) uma queixa: pois todos pecaram e carecem da glória de Deus; é precisamente do coração do homem que procedem os maus pensamentos e toda sorte de horrores que o corrompem (Mt 15:18-19). Se a graça de Deus intervém, inflama-se, então, no coração do homem, a luta entre o antigo ódio e o novo amor, entre a “carne” e o “espírito” – uma oposição que, como vemos, não tem nada a ver com a oposição entre “espírito” e “vida”, a qual não ocorre na vida cristã e que também, de modo nenhum, é antitética.

2. Ora, torna-se claro, portanto, como o pensamento pautado nas Escrituras deve compreender a morte. Nessa questão, as Escrituras Sagradas apresentam uma dualidade (Ap 20:14, 21:8, cf. também Ap 2:11, 20:6): a primeira e segunda morte.

Aparentemente, a filosofia da Antiguidade possuía essa mesma ideia, mas mediante uma análise mais pormenorizada torna-se evidente que se tratam de duas concepções totalmente diferentes. A filosofia clássica, para a qual o ser humano era tanto o ponto de partida e o fim, concebia a morte como uma separação desejável no nível funcional. Destarte, a morte era concebida como uma separação entre o “soma” [corpo] inferior e a “psyche” [alma] superior; posteriormente, passou-se a ensinar que, na segunda morte, a parte suprema da “psyche”, que se libertou da prisão do “soma”, abandona sua parte inferior na lua, a fim de retornar ao sol. O pensamento básico das Escrituras é completamente diferente. O ponto de partida e o destino não se encontra no ser humano, mas sim em Deus. O destino supremo do ser humano é viver na aliança com o Pai celeste, como um de seus filhos. A morte pode ser qualquer coisa, menos algo desejável; ela foi imposta sobre a humanidade como castigo por todas suas transgressões (Gn 2:17). Isso se aplica tanto à primeira quanto à segunda morte. Ora, a distinção entre ambas consiste disto: que a primeira morte se estende a todos em Adão, ao passo que a segunda morte coincide com o castigo eterno que se aplica a todos aqueles que não foram salvos em Cristo (1Co 15:21; Ap 21:8).

Torna-se claro, portanto, que essa caracterização da morte e tal distinção entre a primeira e a segunda morte – dado que é religiosamente concebida – não possui relação alguma com as especulações pseudo-religiosas de um Plutarco. Ademais, com relação à descrição mais pormenorizada da morte, as Escrituras Sagradas não a concebem de maneira funcionalista, em contraposição aos filósofos. Por certo a morte é separação, mas primeiramente é a descontinuação da coerência na qual o ser humano, como “alma vivente”, mantinha com seu ambiente (Jó 14:10; Ec 9:5-6). Todo o resto é secundário – isto já é evidente a partir do fato que essa descontinuidade ocorre somente com a primeira morte; na segunda morte, o coração ou alma já se encontra novamente unido ao corpo. Ademais, na concepção bíblica, o corpo não é a vida animal do homem – algo que as Escrituras desconhecem por completo –, mas a totalidade das funções, que Paulo compara com uma veste.

3. O que é graça? Qual é a relação que mantém com a “natureza” e “pecado”? É lícito associar a palavra “graça” com a representação de uma área, e desse modo falar a respeito da “área da graça?”. Também nessa questão, a exposição positiva pode assumir a proeminência. “Graça” significa, em primeiro lugar, “demonstração de benevolência”: no relacionamento de Deus com o pecador – “o perdido favorecido”. Nesse relacionamento, a graça sempre procede de Deus. Seu oposto não é a “natureza” nem o “pecado”, mas a “ira de Deus”. A resposta à questão do relacionamento entre natureza e graça depende do sentido no qual o termo “natureza” é utilizado. Por vezes significa o “modo” (por exemplo, a “natureza” divina e a “natureza” humana de Cristo); em outros casos, significa “o original”. De semelhante modo, frequentemente significa o ser humano que está em Adão: “o homem natural” se tornou uma “natureza depravada”, e assim permanece, a não ser que o Espírito de Deus intervenha salvificamente. Portanto, devemos compreender o ensino paulino: Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus (1Co 2:14).

Porém o povo de Deus, que nasceu de novo mediante o Espírito de Cristo, percebe muito claramente aquilo que vem do Espírito de Deus; e a estas pessoas, Paulo fala acerca do relacionamento que, por um lado, tinham com Adão, e, por outro, com Cristo: Mas não é primeiro o espiritual, e sim o natural; depois, o espiritual (1Co 15:16). Nesse sentido, a natureza é o oposto da graça! Para se perceber o grande perigo que nesse ponto reside, basta olhar para o uso que Roma faz das palavras “natureza” e “graça”: observemos simplesmente como a “graça” é identificada com “os meios de graça”. Poderíamos também, nesse contexto, nos referir ao jogo de palavras em Leibniz, que identifica graça com aquelas funções do ser humano que não estão presentes nos animais. As Escrituras apresentam uma concepção ainda mais simples do “pecado”. Originalmente, o termo significa “privação” ou “insuficiência” na destinação do ser humano por meio da transgressão do mandamento, embora o ser humano permaneça sob a lei. A graça, com relação ao pecado, é, portanto, “perdão” ou “remissão”. A oposição "graça versus ira”, na parte de Deus, possui um correlato no lado humano: perdão versus pecado mantido/retido. Ora, não há objeção contra o tratamento das “áreas da graça” em si mesmas. Todavia, é preciso resistir de forma restrita à tentativa de delinear rigorosamente essa área, bem como lembrar claramente que tal área se identifica com aquilo que foi criado, uma vez que e na medida em que Deus vê isso (a criação) com benevolência (perdida após a Queda no pecado). A área da graça é muito maior do que a Igreja como corpo de Cristo: mesmo às tribos mais recônditas, Deus ainda concede a certas pessoas Sua rica graça para que ordenem a família e a vida de determinado povo. Isso é o que os calvinistas sempre perceberam e consequentemente chamaram de “graça comum”, após a Queda.

A distinção entre a área da graça comum e a área da graça particular é problemática somente quando alguém permite com que ela se coincida com um dualismo na vida de uma mesma pessoa. Pois se alguém segue esse caminho, logo adentra na concepção gnóstica ou na concepção romana de natureza e graça, com a qual o calvinista não tem nada em comum – portanto, possivelmente seja melhor falar, dentro da linha das Escrituras, de “vasos” [de graça] ao invés de “áreas da graça” (cf. Rm 9:23). No entanto, mais importante do que essas questões terminológicas, é evidentemente a questão de como a graça chega até o ser humano. Respondemos: “por meio da Palavra”. Contudo, como deveríamos compreender isso? Se alguém a define como a palavra pregada, então acaba identificando também a graça que doa livremente a vida com a arte da magia ou bruxaria. É preciso, pois, distinguir, por um lado, entre a Palavra Divina criativa [isto é, o Logos divino, Cristo], que pregou, enviou seus profetas e finalmente apareceu em Pessoa, e, por outro, a Palavra do Evangelho pregada que – desde que direcionada aos seres humanos – Lhe (isto é, a Palavra Divina) anunciou em linguagem humana e ainda o faz. Dito de outro modo, por detrás da Palavra como conhecimento comunicado, está a Palavra que Se amalgamou de uma forma única com Aquele que (concebido pelo Espírito Santo e nascido da virgem Maria, não é o primeiro Adão, mas) é Ele mesmo o segundo Adão, o qual (a despeito de Seu ligação com a raça humana caída), mediante Sua coerência indissolúvel com Deus e por meio da unção com o Espírito Santo, carrega toda a linha adâmica perdida que Lhe pertence, através de todos as oposições, rumo ao seu destino eterno. 

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Autor: Dirk H. Th. Vollenhoven 
Fonte: All of Life Redeemed 
Tradução: Fabrício Tavares
Via: Bereianos

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A ideia de uma filosofia pautada nas Escrituras - 1/2
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