Solo Scriptura: A Diferença Que Uma Vogal Faz

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Com alguma precisão o século 20 poderia ser chamado de um século de anarquia teológica. Há muito liberais e sectários rejeitaram muitos dos princípios fundamentais da ortodoxia cristã. Porém, mais recentemente, acadêmicos evangélicos professos têm defendido versões revisionistas de numerosas doutrinas. Uma revisão da doutrina de Deus tem sido defendida por proponentes do “teísmo aberto”. Uma revisão da escatologia tem sido advogada por adeptos do preterismo pleno. Versões revisadas das doutrinas da justificação e do Sola Fide foram defendidas por proponentes de diversas “novas perspectivas” sobre Paulo. Frequentemente os revisionistas afirmam estar reafirmando uma visão mais clássica. Entretanto, os críticos geralmente têm sido rápidos em apontar que as revisões, na verdade, são distorções.

Do que o homem precisa? Argumentos para a existência de Deus ou persuasão de sua própria culpa?

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A doutrina calvinista do conhecimento de Deus implica numa apologética que, ao invés de fornecer uma demonstração da existência de Deus, persuade os homens a reconhecerem que eles estão suprimindo essa verdade. Uma vez que todos nós sabemos que Deus existe, as alegações de ignorância acerca de Sua existência são apenas um véu utilizado para justificar a nossa rebelião contra Deus. Este conhecimento interno de Deus é a base sobre a qual a apologética deve procurar deixar os homens sem a desculpa de precisarem de provas para acreditar. É este sensus divinitatis (ou sentido do Divino) que torna todos os homens culpáveis diante de Deus. Como tal, a metodologia da apologética não procura demonstrar a verdade de Deus, antes, procura persuadir os homens da verdade de sua culpa.

Aborto: um contrassenso fatal

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A prática do aborto é uma ação recorrente na sociedade. Sua repetição, porém, não a torna livre de controvérsia, mas lança luz sobre a necessidade de se investigar seus subsídios, científicos e filosóficos, que, supostamente, justificam tal atitude.

Inicialmente, Geisler (2010, p. 153) explica que há três posições básicas sobre o aborto. A primeira diz que os nascituros são subumanos, o que possibilita a prática indiscriminada de aborto. Outros entendem que os nascituros são plenamente humanos e não aceitam a prática do aborto. Por fim, há os que argumentam que os nascituros são potenciais humanos, podendo o aborto ser praticado em situações específicas.

No presente texto, contrapor-se-á a primeira posição com a segunda, defendendo-se essa última, de que o feto é um ser humano que ainda não se desenvolveu de todo, mas que não pode ser abortado, isto é, sua vida deve ser preservada.

Em geral, os pró-aborto pressupõem que o nascituro não é uma pessoa humana real. Segundo Geisler (2010, p. 155), argumentam que o bebê não é um ser humano até possuir autoconsciência; que ele é uma extensão do corpo da mãe, de modo que ela tem o poder de decidir sobre seu corpo, inclusive sobre a do feto; que as mulheres devem ser protegidas da precariedade de clínicas abortivas ilegais; que as crianças não planejadas e indesejadas poderiam ser prevenidas de negligência; que fetos de má formação devem ser evitados para a preservação da raça humana; que se é impossível saber quando a vida começa; que o conceito de pessoa é um consenso social, implicando que o indivíduo só se torna pessoa quando a sociedade o aceita assim. Vejamos.

Da vida fetal

É recorrente o argumento que a ciência prova que o feto não é pessoa. Mas qual a validade desse argumento?

Razzo (2016, p. 75) argumenta que o cientista que observa os processos biológicos de um feto não pode julgar, em termos científicos, a pessoalidade ou impessoalidade de um ente, já que esse é um debate filosófico. Ou seja, o feto não pode ser avaliado, em termos qualitativos, pelos processos biológicos que determinam a dignidade do homem ou seu valor como pessoa.

O ponto crítico é a tentativa de se usar da biologia para se legitimar um posicionamento ético-moral. Abortar ou não é uma decisão humana, da bioética (ramo da ética filosófica), não é uma determinação que possa se sustentar sobre argumentos científicos.

Com efeito, esse é um debate de valor, como aponta Razzo (2016, p. 77):

A descrição em termos físicos e biológicos pode explicar como o ser humano funciona em termos físicos e biológicos. Mas não basta para explicar o que o ser humano é. E pela maneira como experimentamos a nós mesmos, podemos concluir que, no que diz respeito ao ser, está implícito um valor.
Nesse sentido, os processos biológicos não abrangem a experiência humana subjetiva (consciência), de modo que reduzir a esfera de debate filosófica à biológica é inadequado. Julgar, biologicamente, que o embrião não tem consciência, enquanto valor antropológico, é inferir além do que os processos empíricos analisados podem oferecer. Por isso, “o alguém (a pessoa humana) nunca será um tema da biologia, mas tão somente da antropologia filosófica” (RAZZO, 2016, p. 81).

Desse modo, é inválido dizer que o bebê não é, cientificamente, uma pessoa e que tal conceito é um consenso social.

Da engenharia social

A prática abortiva constitui-se um elemento importante de uma “engenharia social”, em que se afirma que algumas pessoas são quem controlam a vida e a morte, de acordo com seus próprios parâmetros.

Com efeito, esse pensamento demonstra uma espécie cruel de seletividade. Ilustrativamente, quando, como pontua Platt (2016, p. 85), a princesa britânica Kate ficou grávida, as pessoas não se referiam a ele como uma “célula embrionária não diferenciada”, nem como “uma massa informe gelatinosa” ou “pedaço de tecido”, mas como um bebê “real” (da realeza).

Nessa esteira, pais poderiam ter o direito de abortar caso descubram no ventre da mãe que o filho tem Síndrome de Down, ou alguma doença rara, ou alguma inaptidão física. A permissão de se escolher fetos dentro de um padrão de qualidade tem antecedentes lógicos nas práticas nazistas, eugenista, que pregava uma raça pura, sem imperfeitos ou socialmente inconvenientes.

Essa lógica é perversa. Como Carvalho (2013, p. 386) diz:

Se a condição de ser humano é uma convenção social, nada impede que uma convenção posterior a revogue, negando a humanidade de retardados mentais, de aleijados, de homossexuais, de negros, de judeus, de ciganos ou de quem quer que, segundo os caprichos do momento, pareça inconveniente.

Como meio de controle de natalidade, apoiada, por vezes, pelos responsáveis de clínicas de aborto, que lucram muito onde tal prática é legalizada, a prática abortista serve a interesses escusos que se conglomeram na determinação do direito básico à vida.

Nas palavras de Venâncio (2012, p. 113),

A lógica do aborto é sempre reificadora. No limite, pronunciar sentença de morte sobre um feto ou um idoso por doença é condenar a humanidade inteira, imperfeita, ao aniquilamento. Assim é que, todos os dias, em países que acolheram o aborto e a eugenia, somos postos fora displicentemente, como aparelhos danificados que não prestam mais.

Então, o aniquilamento de fetos mal formados para preservar a raça humana e a propagação de clínicas de aborto para sanar a precariedade do ato abortista são argumentos de finalidade obtusa e que servem a grupos que pensam em: ou remodelar a sociedade ou lucrar às custas de indefesos.

Do Direito Penal brasileiro

Se na modernidade, usando a noção kantiana de dignidade, o homem é um fim em si mesmo, ele tem tal dignidade que não pode ser ameaçada por outrem. Como defende Craig (2010, p. 125), “se o feto em desenvolvimento é um ser humano, então ele é dotado de valor intrínseco e, portanto, possui direitos humanos inerentes, incluindo o direito à vida”. O aborto seria um homicídio, exigindo-se, contra tal prática, a proteção da lei.

O Código Penal Brasileiro, em seus artigos 124 a 128, tipifica o crime de aborto. Apesar de sua pouca aplicação nos dias atuais, é notável que os defensores do aborto defendam a ação do Estado em promover tal prática, em flagrante apologia a um crime.

Bittencourt (2015) explica que o aborto abrange a expulsão prematura do feto e a interrupção do processo de gestação, resultando, necessariamente, na morte fetal. A gravidez deve estar em curso e o feto estar vivo. Com isso, o bem jurídico protegido pela legislação penal é a vida humana em formação.

Por isso, é crime provocar aborto em si mesma ou consentir que outrem provoque (art. 124). Quando terceiro, propositalmente, provoca o aborto, sem ou com o consentimento da gestante, também incorre em crime (art. 125 e 126).

Uma das grandes críticas feitas pelos favoráveis à descriminalização do aborto é que a normativa não alcança o aborto social, isto é, o abandono por parte dos pais que rejeitam seus filhos. Dirão que essa é uma punição apenas às mulheres. Porém, o fato é que, em caso de haver o aborto, o Estado não poderá punir o pai que pratica esse tipo de “aborto social”, já que não haverá objeto jurídico da relação a ser protegido, a dizer, a criança desassistida.

Então, é relevante que se mantenha a criminalização do aborto, já que o desincentivo a praticar tal ato poderá, por parte do Estado, ensejar em uma proteção legal à mulher e à criança nascida, notavelmente, pela cobrança de pensão alimentícia.

Assim, afora às exceções, em regra, o aborto é um crime contra a vida e dignidade humana. Atenta contra tais valores e princípios desde a concepção que é protegida por lei.

Do direito de escolha


É sabido que o Estado deve intervir em situações de flagrantes ameaças contra a vida da alguém. Com isso, ninguém pode ter o direito de planejar sobre o modo de por fim a vida de outrem.

Com a fecundação já existe um organismo vivo que, se for lhe dada a possibilidade de se desenvolver, tornar-se-á um adulto de sua espécie. Segundo Craig (2010, p. 126), o embrião humano tem autonomia completa do esperma e do óvulo não fertilizado. A combinação entre esses formam uma nova célula viva que é um indivíduo singular que nunca existiu antes e doutro modo jamais existiria.

Conforme Geisler (2010, p. 160), a partir da concepção, o feto passa a ter seu próprio sexo. Dos quarenta dias da concepção, eles possuem as próprias ondas cerebrais individuais. Em poucas semanas da concepção, os fetos possuem seu próprio tipo de sangue e impressões digitais. O bebê em formação é um “totalmente outro” em relação à mãe, ainda que ligado a ela para sua sobrevivência.

Como o desenvolvimento do feto é contínuo, não há ponto em que se possa alegar que o mesmo não é humano e pode ser interrompido. Traçar uma linha que defina um feto já ser humano de um que não é, constitui-se em uma arbitrariedade.

De acordo com Craig (2010, p. 129), “desde o momento de sua concepção e implantação na parede do útero da mãe, o feto nunca é uma parte do corpo da mãe, mas é um ser vivo biologicamente distinto e completo”.

Ilustrativamente, Platt (2016, p. 87) conta a história de Rachel, descrita por Gregory Koukl: Rachel nasceu prematura na 24ª semana de gestação da mãe. De tão pequena cabia na palma da mão de seu pai. Se um médico entrasse no quarto do hospital e tirasse sua vida na hora da amamentação, configurar-se-ia o homicídio. Entretanto, se a mesma menina estivesse no útero de sua mãe, a centímetros de distância, ela poderia ser, de acordo com o pensamento pró-aborto, morta para ser retirada sem que houvesse ilegalidade.

A contradição é que, por vezes, os defensores do aborto não o aceitam se forem aplicados aos animais, especialmente se estiverem ameaçados de extinção.

O aborto é um assassinato silencioso para muitas pessoas. Segundo Platt (2016, p. 81), além dos fetos impossibilitados de se desenvolverem e nascerem sem nenhuma chance de defesa, muitas mães carregam feridas profundas e cicatrizes amargas em sua vida.

De fato, o aborto legalizado é promovedor de mortes, de mães e fetos. Na realidade americana, por exemplo, o doutor Geisler (2010, p. 161) coloca que “o aborto tira a vida de aproximadamente 1.3 milhões de bebês nos Estados Unidos da América a cada ano desde o caso de Roe vs. Wade (1973)”.

Agora, por que quem defende o aborto não se coloca no lugar dos fetos que pretende eliminar? Por que quem defende o aborto esquece que também já foi um feto?

Na verdade, como argumenta Stott (2014, p. 422), “o aborto induzido é o assassinato de um feto, é a destruição deliberada de uma criança que ainda não nasceu, é um derramamento de sangue inocente”.

Portanto, é ilegítimo argumentar que o bebê não é um ser humano por não ter consciência, ou que a mãe pode decidir por abortá-lo, ou que o aborto é um direito pró-liberdade da mãe. Esses argumentos promovem a morte do feto, e, muitas vezes, a morte psicológica ou física da mãe.

In dubio pro fetu: um exercício de abstração

Cientificamente, alguns argumentam que o feto é mera extensão do corpo da mãe, outros que já é um ser humano. Porém, em âmbito científico propriamente, ninguém jamais provou a qualidade existencial do feto, nem poderá fazê-lo.

Mesmo que a sociedade tenha pensamentos divergentes sobre se o feto é vida, argumenta Carvalho (2013, p. 384), “se há 50% de probabilidades de que o feto seja humano e 50% de que não o seja, apostar nesta última hipótese é, literalmente, optar por um ato que tem 50% de probabilidades de ser um homicídio”. Desse modo, ainda que a sociedade não concorde sobre a humanidade ou inumanidade do feto, extingui-lo do ventre materno é uma decisão moral ou imoral que é tomada em zona cinzenta. Arremata o autor referido (2013, p. 384), “apostar na inumanidade do feto é jogar na cara ou coroa a sobrevivência ou morte de um possível ser humano”.

Desse modo, se diante da incerteza do julgamento segue-se o princípio de “in dubio pro reo”, na dúvida decide-se a favor do réu, quanto à vida de um feto deve-se seguir o liame de “in dubio pro fetu”, isto é, na dúvida o julgamento tem de ser em favor do feto. Consequentemente, a única opção moralmente justificável é não praticar o aborto. Se a inumanidade não pode ser provada, abortar o feto é arriscar um desumano assassinato de uma possível vida.

Feto: a voz do sem voz

O feto é plenamente humano, de modo que as tentativas de tirar sua vida são assassinas e a defesa de tal retirada é uma apologia ao crime.

Os defensores do aborto são pessoas que, obviamente, nasceram e não foram abortadas. Como fruto da relação entre seres humanos, o feto é da mesma espécie, sendo, desde logo, humano.

Para Geisler (2010, p. 159), a “autoconsciência não é necessária para caracterizar um ser humano”. De fato, se o fosse, os que se encontram em estado de coma não seriam humanos. Para além disso,

Todos esses argumentos a favor do aborto também são aplicados a favor do infanticídio e da eutanásia. Se crianças nascituras podem ser mortas por causa de malformação, pobreza ou falta de desejo dos pais, então tanto crianças quanto idosos podem ser descartados pelas mesmas razões. (GEISLER, 2010, p. 178).

O brilhante escritor inglês G.K. Chesterton (1874-1936) escreveu o poema intitulado “By the Babe Unborn” (“O não nascido”) em referência a um bebê que não pode nascer. Da perspectiva do infante, o aborto é de fato uma tragédia. Já na parte final do poema, o bebê não-nascido, ilustrativamente, declara:

Que venham as tempestades: melhor é viver
em meio a luta e lágrimas
que todas as eras em que tenho
governado os impérios da noite
Penso que, se me deixassem
entrar e ficar no mundo,
eu seria bom durante o dia todo
que passasse nesta terra encantada.
Eles não ouviriam de mim uma só palavra
de egoísmo ou de desdém,
se eu apenas tivesse encontrado a porta,
se eu apenas tivesse nascido.¹

_______________________
Notas:
[1] Tradução de Norma Venâncio. A mente de Cristo: conversão e cosmovisão cristã. 2012. p. 215-216.

Referências bibliográficas:
BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de direito penal 2: parte especial: dos crimes contra a pessoa. – 15 ed. rev., ampl e atual. – São Paulo: Saraiva, 2015.
CARVALHO, Olavo de. O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota. Organização Felipe Moura Brasil – 5. Ed. – Rio de Janeiro: Record, 2013.
CRAIG, Wiliam L. Apologética para questões difíceis da vida. São Paulo: Vida Nova, 2010.
GEISLER, Norman L. Ética cristã: opções e questões contemporâneas. 2ª ed. – São Paulo: Vida Nova, 2010.
PLATT, David. Contracultura: um chamado compassivo para confrontar um mundo de pobreza, casamento com pessoas do mesmo sexo, racismo, escravidão sexual, imigração, perseguição, aborto, órfãos e pornografia. - São Paulo: Vida Nova, 2016.
RAZZO, Francisco. A imaginação totalitária: os perigos da política como esperança. 1. ed. Rio de Janeiro: Record, 2016.
STOTT, John. Os cristãos e os desafios contemporâneos. Viçosa, MG: Editora Ultimato, 2014.
VENÂNCIO, Norma Braga. A mente de Cristo: conversão e cosmovisão cristã. São Paulo: Vida Nova, 2012.

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Sobre o autor: Anderson Barbosa Paz é seminarista do Seminário Teológico Betel Brasileiro. Bacharelando em Direito pela Universidade Federal da Paraíba. Congrega na Igreja Presbiteriana do Bairro dos Estados em João Pessoa-PB. Atua na área de Apologética Cristã, debatendo e ensinando.
Divulgação: Bereianos
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Zwinglio e a sua importância para a Reforma Protestante

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Neste ano, em comemoração aos 500 anos da Reforma, Lutero e Calvino são figuras que serão lembradas por sua imensa contribuição a causa. Sem dúvida, são os grandes nomes do que veio ser posteriormente chamado de protestantismo, todavia, outros homens também têm a sua importância. Dentre eles um que foi contemporâneo de Lutero e que antecedeu Calvino ao levar os postulados reformados à Suíça. Este homem foi Ulrico Zwinglio.

Nascido em 1º de janeiro de 1484 — apenas dois meses após o nascimento de Lutero — na vila de Wildhaus, no Cantão de St. Gall, nordeste da Suíça, sendo o terceiro filho de uma família com sete irmãos e duas irmãs. Sua educação foi a melhor possível, lhe conferindo um altíssimo nível acadêmico. Estudou na Universidade de Viena e na Universidade da Basileia. Foi instruído em latim, música, dialética, filosofia escolástica, astronomia, física e os clássicos antigos. Influenciado pelo movimento humanista, bastante popular entre os eruditos de sua época, tornou-se Mestre em Artes no ano de 1506, com apenas 22 anos de idade. Músico talentoso, tocava alaúde, harpa, violino, flauta, gaita de foles e trompa de caça.

Após atingir o grau de mestre, Zwinglio foi ordenado ao sacerdócio. Tornou-se pároco na cidade de Glarus, onde serviu como pastor e se colocou contra os mercenários, homens que por dinheiro se alistavam em exércitos estrangeiros. Mudou-se então para Einsiedeln em 1516 e dois anos mais tarde para Zurique. Ainda em Einsiedein, tomou conhecimento de Erasmo de Roterdã e através da sua tradução grega do Novo Testamento passou a pregar sermões que iam contra muitas práticas da Igreja Católica Romana, sobretudo a venda das indulgências, condenadas por Zwinglio antes mesmo de Lutero se opor a elas. Zwinglio e Erasmo acabaram se tornando amigos, embora o semipelagianismo, defendido por Erasmo, tenha sido rejeitado pelo reformador suíço.

Mesmo sendo um erudito e tendo uma experiência pastoral por anos, Zwinglio tinha uma mente humanista e seu cristianismo era de assentimento intelectual. Durante esse tempo, caiu na prática da fornicação, e anos mais tarde, arrependido deste pecado, ainda sentia a afetação de sua vida pregressa. A conversão de Zwinglio se dá paulatinamente, quando o mesmo se torna sacerdote na principal igreja de Zurique. Cada vez mais discordante das doutrinas papais e mergulhando na Escritura para rebater os papistas, Zwinglio tornou-se um expositor bíblico e sua exposição contínua do Novo Testamento, que durou quatro anos (só deixando de explanar o Apocalipse) foi lhe impactando, vendo a necessidade de ter uma fé cada vez mais pura e centrada na Escritura. Assim como o culto também deveria refletir esta mesma pureza.

Após ter sido curado de uma peste, Zwinglio adota uma postura mais sistemática como reformador. O cristianismo, que já estava em sua cabeça, havia descido ao coração, fazendo com que ele buscasse apaixonadamente purificar a Igreja das tradições não escriturísticas. Liderando um grupo ávido por reforma, Zwinglio convocava os magistrados da cidade e expunha os erros doutrinários do catolicismo romano. Os magistrados, por sua vez, organizavam um debate com a presença de um sacerdote católico, e os argumentos deveriam ser retirados apenas da Escritura. Assim a Reforma foi avançando na Suíça, pois os debates eram facilmente vencidos, e práticas tais como a quaresma, o celibato obrigatório, o jejum como penitência e devoção as imagens foram abolidas, tidas como sendo não bíblicas. Além disso, a Bíblia passou a ser traduzida para o vernáculo. Nem sempre Zwinglio era o principal debatedor, mas ele estava envolvido em todas as disputas e num período de sete anos, em 1530, Zurique, Berna, Basiléia e a maioria do norte e leste da Suíça romperam com o catolicismo romano. Incluindo Genebra, cidade que posteriormente influenciou outros países e a partir do ministério de João Calvino e da Academia por este fundada, levou as doutrinas reformadas para toda a Europa.

Graças a estes debates, temos a primeira confissão de fé reformada, que são os Sessenta e Sete Artigos de Fé escritos por Zwinglio, redigida antes do embate em Zurique (1523). Eis alguns trechos:

“Todo que diz que o Evangelho é nada sem a sanção da Igreja, erra e blasfema contra Deus”.
“Que Cristo é o único eterno sumo sacerdote; disto nós deduzimos que todo aquele que pretende ser sumo sacerdote se opõe à honra e poder de Cristo; de fato, ele o rejeita”.
“Tudo que Deus permite ou que ele não proibiu é permitido. Disto nós aprendemos que é próprio para qualquer um se casar”.
“As verdadeiras Escrituras Sagradas nada sabem de um purgatório após esta vida”.
“Todos os superiores clericais devem se humilhar instantaneamente e levantar somente a cruz de Cristo, e não a caixa de dinheiro. Do contrário eles perecerão; o machado é deitado na raiz da árvore”.

O que hoje soa com certa normalidade, na época foi muito ousado, pois, ir de encontro à doutrina da infalibilidade papal era digno de excomunhão e martírio. Outro documento importante, elaborado nesse mesmo contexto são as Dez Teses de Berna (1528), quando a cidade adota as premissas reformadas. Vejamos algumas das teses adotadas:

“A Igreja de Cristo não pode fazer nenhuma lei ou mandamento aparte da Palavra de Deus. Deste modo, as tradições humanas não devem ser-nos exigidas se elas não estiverem fundamentadas na Palavra de Deus”.
“Que o corpo e sangue de Cristo é recebido, essencialmente e corporeamente, no pão da Eucaristia é impossível de se provar a partir da Escritura Sagrada”.
“A adoração de imagens é uma prática contrária à Escritura, tanto nos livros do Antigo como no Novo Testamento. Deste modo, como as imagens desonram a si mesmas, e são um perigo, deveriam ser abolidas como objetos de adoração”.

Como podemos ver, a sua influência foi gigantesca, todavia, sua ação como reformador foi interrompida quando morreu numa batalha envolvendo católicos e protestantes. Hanko descreve como se deu a sua morte, em 1531, quando tinha 47 anos de idade:

Zwinglio estava se inclinando para consolar um soldado morrendo, quando foi atingido na cabeça com uma pedra. Ele conseguiu se levantar mais uma vez, mas repetidos golpes e um ferimento de lança deixaram-no morrendo. Vendo suas feridas, ele gritou: “O que importa esta desgraça? Eles podem matar o corpo, mas não podem matar a alma”. Pelo resto do dia ele ficou deitado debaixo de uma árvore de peras, com as mãos postas como em oração e os olhos fixos no céu. No final da tarde alguns soldados dispersos do exército vitorioso pediram-lhe para confessar seus pecados a um padre. Ele balançou sua cabeça indicando sua recusa. Porém, pouco depois um dos homens, à luz da sua tocha, o reconheceu e o matou com a espada, gritando: “Morra herege obstinado!”.
Alegres com sua morte, os soldados esquartejaram seu corpo, queimaram os pedaços por heresia, misturaram as cinzas com as cinzas de porcos, e as espalharam aos quatro ventos. Assim morreu uma das fiéis testemunhas de Deus.

Mesmo tendo sido um importante reformador, Zwinglio tende a ser subestimado e quase sempre é retratado em poucas páginas nos livros que tratam da história da Reforma. Geralmente, ele é citado à sombra de Lutero, sobre a controvérsia da Ceia. Enquanto o reformador alemão ensinava a consubstanciação - a presença de Cristo nos elementos - o reformador suíço defendia um caráter memorialista. Talvez George (1994) esteja certo ao dizer que

As razões dessa desatenção são óbvias. Zuínglio compôs todos os seus escritos reformados apressadamente, em menos de uma década. Foi ofuscado durante sua vida pelo grande Lutero e sucedido pelo mais eficaz Calvino, que impeliu um estudioso a conferir-lhe o título de “terceiro homem” da Reforma. Zuínglio nunca escreveu nada comparável às Institutas. A maioria de seus sermões foi entregue improvisadamente; apenas alguns foram revisados mais tarde para a publicação. Da mesma maneira, suas conversas informais perderam-se para a posteridade, por falta de admiradores devotados que anotassem cada palavra sua.

Mas, apesar de não ter a mesma reputação de Lutero e Calvino, não ter gerado um segmento teológico que levasse seu nome e ter uma compreensão não ortodoxa em algumas doutrinas, tal como a ideia de que pode haver salvação entre pagãos que desconhecem o evangelho por completo. Zwinglio é um gigante da fé e merece ser assim lembrado nos anais da eclesiologia protestante, pois foi um pioneiro da tradição reformada.

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Referências:
GEORG, Thimoty. Teologia dos Reformadores. São Paulo: Vida Nova, 1994.
HANKO, Herman. Retrato de Santos Fiéis. Fireland, 2013.

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Autor: Pr. Thiago Oliveira
Divulgação: Bereianos
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Toda Verdade é Verdade de Deus

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Imagine um químico ateu no século XIX, usando métodos científicos para estudar a água. Depois de realizar seus experimentos, ele conclui que a água é feita de dois átomos de hidrogênio e um átomo de oxigênio. Em outras palavras, ele descobre que a água é H20. Ele utilizou princípios científicos seculares para adquirir um pouco de conhecimento anteriormente desconhecido para o mundo. Sua descoberta é anticristã? Viola a verdade bíblica? Esse novo conhecimento é contrário a Deus?

A resposta para todas estas perguntas é um sonoro “não”. O cientista descobriu algo verdadeiro sobre o mundo em que nós vivemos. Embora ele não tenha usado uma fonte bíblica ou religiosa, isto não retira sua credibilidade. Se se descobre que algo é verdadeiro, é verdade para você, é verdade para mim, e é verdade para Deus. Uma descoberta científica feita por um ateu é tão verdadeira quanto o ensino bíblico de que Deus é amor ou de que Cristo morreu pelos nossos pecados. Toda a verdade é verdade de Deus, independente de como alguém adquire esse conhecimento.

Isto se dá porque a pesquisa científica é um método epistemológico. Esta é uma forma bonita de dizer que é uma ferramenta para descoberta de conhecimento sobre o mundo onde vivemos. É importante lembrar, contudo, que é apenas uma ferramenta e não a única ferramenta.

Nós podemos aprender sobre nós mesmos, o mundo e o universo por meio de vários métodos. Podemos usar testemunhos (relatos de outras pessoas), lógica (2+2=4), introspecção (o que estou experimentando dentro de mim?) o método científico (observação e experimentos), pesquisa histórica (estudar relatos escritos do passado), e revelação divina (a Bíblia). O conhecimento adquirido de qualquer um destes métodos é igualmente verdadeiro. Na verdade Deus tornou estes métodos disponíveis a nós. Isto implica nas três seguintes coisas:

1: O método científico não deve ser contrastado com a revelação bíblica: Como mencionado anteriormente, uma descoberta científica não é anti-Deus ou anticristã. O conhecimento adquirido de experimentos e observação nos diz coisas verdadeiras sobre o mundo que até mesmo Deus considera verdadeiras. É por isso que é frustrante quando a ciência é contraposta à fé. Não há nada anticientífico acerca da visão de mundo cristã.

Na verdade, devemos esperar que o conhecimento adquirido da observação do nosso mundo vai se conformar com o conhecimento oriundo da divina revelação, sempre que ambos se sobreponham. Por exemplo, a evidência cosmológica moderna indica que o universo começou a existir em um determinado ponto do passado. Este fato, contudo, foi ensinado no primeiro capítulo de Gênesis, vários milênios atrás.

Isto não deveria nos surpreender. Deus fala por meio das Escrituras, ao que nos referimos como revelação especial. Ele também fala por meio de seu mundo criado, ao que nós chamamos de revelação geral. Ambas são de Deus e devem validar uma à outra, contanto que sejam adequadamente interpretadas, o que nos leva ao segundo ponto.

2: Tanto os resultados científicos quanto a revelação bíblica devem ser interpretados: Eu ouço a frase “A ciência nos diz que…” com uma certa frequência. Perdoem-me por declarar o óbvio, mas a ciência não nos diz nada. Ela não é uma pessoa e não pode falar. Pessoas realizam experimentos e fazem observações. Então elas registram os resultados. Estes resultados, contudo, são interpretados de diferentes formas por pessoas com diferentes visões de mundo.

É por isso que é importante distinguir entre dados científicos e sua interpretação. Por exemplo, a pesquisa científica revelou que os morcegos tem dois ossos em seu antebraço, assim como os humanos. Isso é o que os dados revelam. Alguns interpretam estes dados como evidência de que tanto os morcegos quanto os humanos tem um ancestral em comum e que a evolução darwiniana levou a uma estrutura de antebraço similar. Outros interpretam isto como evidência de que tanto os morcegos como os humanos tem um designer comum, que usou uma estrutura similar em ambas as criaturas.

Também há uma necessidade de interpretação ao ler as Escrituras. Eu ouço com frequência cristãos declararem que “Deus claramente diz…” sobre alguma discussão teológica. Deve ficar claro que as palavras estão em uma passagem bíblica, mas o que estas palavras significam (sua interpretação) é outra coisa.

Por favor, não entenda que estou dizendo que a Bíblia é enigmática ou que a interpretação de cada um é igualmente válida. Este não é o meu ponto. Deus é claro a respeito de sua mensagem nas Escrituras. Alguns versos que são discutidos, contudo, requerem uma interpretação mais cuidadosa.

3: Os cristãos devem aprender a abraçar todos os métodos de descoberta da verdade: A maioria das pessoas não são cristãs e não consideram as declarações bíblicas como verdadeiras. Se quisermos ser embaixadores sagazes de Cristo, devemos aprender a usar o conhecimento adquirido nas Escrituras e os meios seculares como a ciência. Dessa forma, poderemos persuadir as pessoas usando quaisquer recursos que a nossa audiência considere autoritativo.

Entender a natureza dual da revelação de Deus – na Escritura e no mundo criado – ajuda a evitar o erro de contrapor a ciência à fé, constrói nossa credibilidade perante outros e alavanca fontes de autoridade que muitos não-crentes consideram críveis. Tudo isso importa porque o nosso objetivo é o Evangelho, fazê-lo conhecido a todo o mundo.

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Autor: Alan Shlemon
Fonte: Atand to Reason
Tradução: Juliana Pellicer Ruza
Via: NAPEC
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Review | A Alma do Mundo  - A experiência do sagrado contra o ataque dos ateísmos contemporâneos, de Roger Scruton

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A Alma do Mundo — A experiência do sagrado contra o ataque dos ateísmos contemporâneos. Autor: Roger Scruton. Rio de Janeiro. Ed. Record, 2017.

Confesso que essa foi a publicação que mais aguardei neste ano. Roger Scruton é um dos meus filósofos contemporâneos favoritos. Meu contato com os textos do filósofo se deram ainda na faculdade, quando comecei a ler sobre conservadorismo. Desde então tenho acompanhado suas publicações.

Pra que confissão de fé se temos a Bíblia?

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Um questionamento muito comum que muitas pessoas que são membros de uma igreja confessional fazem é: por que precisamos de uma confissão de fé se temos a bíblia? O motivo desse questionamento é porque se entende que jurar fidelidade a um símbolo de fé implica diretamente em infidelidade a Bíblia ou tê-los como iguais em autoridade a Palavra de Deus. Geralmente os confessionais são acusados de colocarem o seu documento confessional no mesmo patamar que a Bíblia, é fato que realmente alguns poucos chegam a este ponto, mas de forma geral essa acusação é equivocada. Sou pastor da igreja Presbiteriana do Brasil que é uma igreja confessional em seus documentos oficiais, e em sua constituição no artigo 1 ela nos diz o seguinte:

“A Igreja Presbiteriana do Brasil é uma federação de igrejas locais, que adota como única regra de fé e prática as Escrituras Sagradas do Velho e Novo Testamentos e como sistema expositivo de doutrina e prática a sua Confissão de Fé e os Catecismos Maior e Breve; rege-se pela presente Constituição; é pessoa jurídica, de acordo com as leis do Brasil, sempre representada civilmente pela sua Comissão Executiva e exerce o seu governo por meio de concílios e indivíduos, regularmente instalados.”

Além de ser uma igreja confessional, a IPB exige que seus ministros e oficiais também o sejam, o Art. 119 da referida constituição também nos diz:

“O candidato, concluídos seus estudos, apresentar-se-á ao Presbitério que o examinará quanto à sua experiência religiosa e motivos que o levaram a desejar o Sagrado Ministério, bem como nas matérias do curso teológico. Parágrafo único. Poderá o Presbitério dispensar o candidato do exame das matérias do curso teológico; não o dispensará nunca do relativo à experiência religiosa, opiniões teológicas e conhecimento dos Símbolos de Fé, exigindo a aceitação integral dos últimos.”

A IPB não somente entende e adota os padrões de fé de Westminster como a exposição fiel da doutrina bíblica como exige aceitação integral por parte da sua liderança. Mas por que nós afirmamos o Sola Scriptura ao mesmo tempo que juramos fidelidade aos símbolos de fé, não seria isto uma contradição? Ainda restam dúvidas tanto por parte dos ministros e oficiais como dos membros da IPB, do porque a mesma exigir dos seus líderes que aceitem os símbolos de fé de forma integral e que jure fidelidade aos mesmos assim como o fazem com a Bíblia. Se a Bíblia está acima dos padrões de fé, por que devemos aceita-los de forma integral e jurar fidelidade a eles? Meu intuito com este artigo não é de esgotar o assunto, mas de tentar esclarecer alguns pontos que podem nos ajudar a entender melhor esse tema, a saber:

1. A confissão de fé nos leva para Bíblia.

A Confissão de Fé de Westminster está subordinada as Escrituras, em nenhum momento aquela a sobrepõe, muito pelo contrário, a exalta. No capítulo 1 nas sessões IV, V, VI e X a Confissão de Fé de Westminster afirma:

IV. A autoridade da Escritura Sagrada, razão pela qual deve ser crida e obedecida, não depende do testemunho de qualquer homem ou igreja, mas depende somente de Deus (a mesma verdade) que é o seu autor; tem, portanto, de ser recebida, porque é a palavra de Deus.
V. Pelo testemunho da Igreja podemos ser movidos e incitados a um alto e reverente apreço da Escritura Sagrada; a suprema excelência do seu conteúdo, e eficácia da sua doutrina, a majestade do seu estilo, a harmonia de todas as suas partes, o escopo do seu todo (que é dar a Deus toda a glória), a plena revelação que faz do único meio de salvar-se o homem, as suas muitas outras excelências incomparáveis e completa perfeição, são argumentos pelos quais abundantemente se evidencia ser ela a palavra de Deus; contudo, a nossa plena persuasão e certeza da sua infalível verdade e divina autoridade provém da operação interna do Espírito Santo, que pela palavra e com a palavra testifica em nossos corações.
VI. Todo o conselho de Deus concernente a todas as coisas necessárias para a glória dele e para a salvação, fé e vida do homem, ou é expressamente declarado na Escritura ou pode ser lógica e claramente deduzido dela. À Escritura nada se acrescentará em tempo algum, nem por novas revelações do Espírito, nem por tradições dos homens; reconhecemos, entretanto, ser necessária a íntima iluminação do Espírito de Deus para a salvadora compreensão das coisas reveladas na palavra, e que há algumas circunstâncias, quanto ao culto de Deus e ao governo da Igreja, comum às ações e sociedades humanas, as quais têm de ser ordenadas pela luz da natureza e pela prudência cristã, segundo as regras gerais da palavra, que sempre devem ser observadas.
X. O Juiz Supremo, pelo qual todas as controvérsias religiosas têm de ser determinadas e por quem serão examinados todos os decretos de concílios, todas as opiniões dos antigos escritores, todas as doutrinas de homens e opiniões particulares, o Juiz Supremo em cuja sentença nos devemos firmar não pode ser outro senão o Espírito Santo falando na Escritura. (WESTMINSTER 2007).

Os nossos símbolos de fé em nenhum momento arrogam para si a prerrogativa de igualdade com as Escrituras, mas faz exatamente o oposto, reconhece que a Palavra de Deus está acima de qualquer coisa e que esta é a palavra final sobre qualquer assunto.

2. Ela nos ajuda a mantermos a paz e a unidade na igreja.


Outra coisa que os confessionais são muito acusados é de serem divisionistas. Na verdade, um dos objetivos dos credos e confissões durante toda história da igreja era o de manter a unidade e a paz. Sempre houve quem discordasse de uma ou outra interpretação bíblica dada por algum credo ou confissão. A questão é que muitas vezes os opositores discordavam de pontos essenciais da fé cristã defendida pelos símbolos. Heresias como o Arianismo, o Sabelianismo, Unitarismo, livre-arbítrio pós queda e tantas outras foram defendidas por homens que tiveram suas ideias rechaçadas pela igreja através de sínodos e concílios, que serviram de base para a igreja posterior se defender contra as mesmas, mantendo assim a unidade doutrinária e a paz no meio da igreja. Em seu capítulo XX sessão IV a CFW afirma o seguinte:

IV. Visto que os poderes que Deus ordenou, e a liberdade que Cristo comprou, não foram por Deus designados para destruir, mas para que mutuamente nos apoiemos e preservemos uns aos outros, resistem à ordenança de Deus os que, sob pretexto de liberdade cristã, se opõem a qualquer poder legítimo, civil ou religioso, ou ao exercício dele. Se publicarem opiniões ou mantiverem práticas contrárias à luz da natureza ou aos reconhecidos princípios do Cristianismo concernentes à fé, ao culto ou ao procedimento; se publicarem opiniões, ou mantiverem práticas contrárias ao poder da piedade ou que, por sua própria natureza ou pelo modo de publicá-las e mantê-las, são destrutivas da paz externa da Igreja e da ordem que Cristo estabeleceu nela, podem, de justiça ser processados e visitados com as censuras eclesiásticas. (WESTMINSTER 2007).

Ainda tratando sobre o assunto também nos afirma a confissão de fé no capítulo XXXI sessões II e III:

II. Aos sínodos e concílios compete decidir ministerialmente controvérsias quanto à fé e casos de consciência, determinar regras e disposições para a melhor direção do culto público de Deus e governo da sua Igreja, receber queixas em caso de má administração e autoritativamente decidi-las. Os seus decretos e decisões, sendo consoantes com a palavra de Deus, devem ser recebidas com reverência e submissão, não só pelo seu acordo com a palavra, mas também pela autoridade pela qual são feitos, visto que essa autoridade é uma ordenação de Deus, designada para isso em sua palavra.
III. Todos os sínodos e concílios, desde os tempos dos apóstolos, quer gerais quer particulares, podem errar, e muitos têm errado; eles, portanto, não devem constituir regra de fé e prática, mas podem ser usados como auxílio em uma e outra coisa. (WESTMINSTER 2007).

Podemos perceber claramente que os nossos padrões de fé entendem que estes não estão acima das santas Escrituras e que até mesmo reconhecem que os concílios podem errar, sim, a confissão de fé não é infalível e nem inerrante. Portanto, afirmar que quem jura fidelidade aos símbolos de fé está os colocando em igualdade com as Escrituras, na verdade não os conhecem e cometem um grande engano. Chamar os confessionais de divisionistas é não entender que, para que haja paz é necessário ordem, submissão e disciplina. Não defendemos paz a qualquer preço, mas sim, unidade na verdade. Como nos ensina nosso Senhor no Evangelho de João no capítulo 17.

3. A nossa confissão de fé nos guia contra erros do passado.

Outro dos objetivos dos credos e confissões era o de evitar que a igreja caísse nas mesmas heresias do passado. De tempos em tempos sempre aparece alguém trazendo de volta antigos erros doutrinários em roupagem nova, com um novo linguajar, mas a raiz é sempre a mesma de outrora. Daí a necessidade de nos voltarmos para o passado para buscar em documentos elaborados por homens que foram grandemente usados por Deus para a instrução da Sua igreja, o apóstolo Paulo nos ensina sobre isso na carta aos Efésios no capítulo quatro quando diz:

E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo, até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo, para que não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro.” (Efésios 4. 11-14).

O caso do eunuco também tem muito a nos ensinar, a Escritura nos diz:

Um anjo do Senhor falou a Filipe, dizendo: Dispõe-te e vai para o lado do Sul, no caminho que desce de Jerusalém a Gaza; este se acha deserto. Ele se levantou e foi. Eis que um etíope, eunuco, alto oficial de Candace, rainha dos etíopes, o qual era superintendente de todo o seu tesouro, que viera adorar em Jerusalém, estava de volta e, assentado no seu carro, vinha lendo o profeta Isaías. Então, disse o Espírito a Filipe: Aproxima-te desse carro e acompanha-o. Correndo Filipe, ouviu-o ler o profeta Isaías e perguntou: Compreendes o que vens lendo? Ele respondeu: Como poderei entender, se alguém não me explicar? E convidou Filipe a subir e a sentar-se junto a ele. Ora, a passagem da Escritura que estava lendo era esta: Foi levado como ovelha ao matadouro; e, como um cordeiro mudo perante o seu tosquiador, assim ele não abriu a boca. Na sua humilhação, lhe negaram justiça; quem lhe poderá descrever a geração? Porquê da terra a sua vida é tirada. Então, o eunuco disse a Filipe: Peço-te que me expliques a quem se refere o profeta. Fala de si mesmo ou de algum outro? Então, Filipe explicou; e, começando por esta passagem da Escritura, anunciou-lhe a Jesus. (Atos 4.26-35).

As Escrituras nos ensinam que o próprio Deus é quem levanta homens para a instrução do seu povo, com o objetivo de não deixar que este não caia no erro e nas astúcias dos homens e que possam chegar a salvação. O etíope estava lendo as Escrituras, mas não conseguia compreender, foi necessário Deus enviar Felipe para que o mesmo pudesse entender a Bíblia e ser salvo. O que precisamos é abandonar a nossa soberba espiritual e entender que Deus usou homens no passado e ainda os usa hoje para que sua igreja seja protegida do erro. Sendo assim, subscrever um símbolo de fé é reconhecer que Deus capacitou através do Espírito Santo homens para instruir a Sua igreja contra os erros, mostra também a nossa humildade em reconhecer que houve homens mais capacitados do que nós que podem nos ajudar a entender melhor o conteúdo das Santas Escrituras.

Conclusão

Que possamos amar os nossos símbolos de fé sem medo de que estejamos sendo infiéis as Escrituras, que possamos nos sujeitar as autoridades pelas quais o Senhor Jesus exerce o seu governo na igreja conforme nos ensina o Catecismo Maior em sua pergunta 45:

Como exerce Cristo as funções de rei?
Cristo exerce as funções de rei chamando do mundo um povo para si, dando-lhe oficiais, leis e disciplinas para visivelmente o governar; dando a graça salvadora aos seus eleitos; recompensando a sua obediência e corrigindo-os por causa dos seus pecados; preservando-os por causa dos seus pecados; preservando-os e sustentando-os em todas as tentações e sofrimentos; restringindo e vencendo todos os seus inimigos, e poderosamente dirigindo todas as coisas para a sua própria glória e para o bem do seu povo; e também castigando os que não conhecem a Deus nem obedecem ao Evangelho. (WESTMINSTER 2007).

Que possamos entender que ser confessional não é ser antibíblico ou ter a Bíblia subordinada aos símbolos de fé, mas que antes, nos submetemos a eles por que os mesmos se submetem a Bíblia. Que Deus tenha misericórdia de nós e nos ajude nessa tarefa.

Soli Deo Glória!

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Autor: Rev. Anderson Borges
Fonte: Teologia que Reforma
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O que a história da igreja pode nos ensinar sobre os lobos?

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Semana passada (abr/17), Joe Carter (não o Joe Carter do beisebol) publicou um artigo perspicaz sobre o fascínio pelos lobos violadores. Isso me fez refletir sobre os falsos mestres na história da igreja.

Quando digo “falso mestre” ou “lobo” não quero dizer todos àqueles que discordam de mim num ponto de vista teológico. Como presbiteriano, penso que batistas, metodistas e pentecostais estão enganados sobre algumas questões importantes, mas desviar-se da confissão de fé de Westminster não faz de você um outro Ário ou um Pelágio. Um falso mestre ou um lobo é alguém que arrebata as ovelhas (João 10:12), afasta os discípulos do evangelho (Atos 20:28), opõe-se à verdade (2 Timóteo 3: 8) e leva as pessoas a naufragar na fé e abraçar a impiedade (1 Timóteo 1:19-20, 2 Timóteo 2:16-17).

Vários anos atrás, fiz uma série sobre heresias e hereges. O preparo das mensagens me ajudou a entender melhor a história da igreja e a articular com mais zelo a fé ortodoxa. Isso também me ajudou a perceber alguns padrões (e não-padrões) relacionados aos falsos mestres. Descobri que a história da igreja pode nos ensinar muito sobre os lobos.

1. Os lobos geralmente não sabem que são lobos.

Enquanto alguns falsos mestres seguem conhecendo hipócritas que tomam a linguagem religiosa a fim de tosquiar o rebanho, muitos erros na história da igreja têm sido promovidos por aqueles que acreditavam sinceramente que estes estavam realizando a obra de Deus. Até onde sabemos, Pelágio não foi um grande idiota. Os Donatistas eram inteiramente conscientes da fé. Não devemos pensar que os mestres lobos e os blogueiros estão tentando conduzir as ovelhas ao desvio. As pessoas podem ser inteiramente sinceras e ainda assim serem genuinamente enganadas.

2. Os lobos podem citar a Bíblia.

É difícil saber com certeza como eram os hereges antigos porque muito do que sabemos sobre eles vem do que os opositores ortodoxos escreviam contra eles. E, ainda, a julgar pelas controvérsias passadas, podemos supor que Ário conhecia sua Bíblia. Os debates trinitários e cristológicos da igreja primitiva, sem mencionar as controvérsias soteriológicas da Reforma, envolveram pessoas de ambos os lados citando as Escrituras. Isso não significa que todo o ponto de vista estava certo. Isso significa que a teologia pode vir com versículos da Bíblia e ainda estar errada.

3. Os lobos tendem a ser desequilibrados.

Desequilibrado pode não ser o termo certo. Não estou sugerindo que a verdade é sempre o significado áureo entre extremos óbvios. O que quero dizer é que os falsos mestres tendem a deixar os grandes temas das Escrituras silenciarem versos específicos. Os lobos ignoram todo o conselho de Deus. Eles gostam de pegar temas como amor, ou justiça, ou hospitalidade, ou lei, ou graça e, em seguida, aparar todas as arestas da Escritura para se adequar a um grande conceito. O problema não é alardear estas gloriosas verdades. O problema é que suas compreensões sobre a verdade ficam truncadas e a aplicação da verdade fica unidimensional. Isso muitas vezes leva à conclusões não bíblicas que acabam soando como bíblicas. Tal como: Se Deus é amor, então não podemos ter inferno ou exigências morais que fazem eu me sentir (ou a meus amigos) desconfortável ou insatisfeito. Se Jesus comeu com os pecadores, então não deveríamos estar exageradamente preocupados com o pecado. Se Deus é soberano sobre todas as coisas, então não deveríamos evangelizar. As verdades gerais pressionam as conclusões antibíblicas.

4. Os lobos são impacientes com demandas de clareza verbal.

O falso ensino cresce em ambiguidade. Ele afasta da cuidadosa atenção às palavras e definições. Os Arianos estavam dispostos a viver com imprecisão doutrinária. Foi Atanásio e o partido ortodoxo que insistiu na definição dos termos. E eles insistiam em dizer não apenas o que era certo, mas também o que era errado. Bons pastores estão dispostos a definir e delimitar. Não confie em mestres que gostam mais de atacar do que os que gostam de transparência.

5. Os lobos vêm em diferentes formas e tamanhos.

Não há uma abordagem única para a resolução de disputas teológicas. Não vamos discernir se imaginarmos que os falsos mestres são sempre fariseus ou sempre libertinos. Ou se vamos supor que são sempre muito rígidos ou muito liberais. Às vezes, a verdade também é / ou é: há apenas um Deus, a salvação é apenas pela fé, não há outro nome abaixo do céu. Mas às vezes, a verdade é ambos / e: um Deus em três pessoas, plenamente Deus e plenamente homem, soberania divina e responsabilidade humana. Às vezes, o erro ocorre porque não prestamos atenção o suficiente a uma importante questão. Outras vezes, o problema está em desperdiçar tempo em “controvérsias tolas”.

Não podemos resolver todos os nossos problemas da mesma forma. Não podemos sempre supor que a resposta mais conservadora é a melhor, ou que a resposta liberal é sempre verdade. Se nós somos flexíveis em algumas áreas, não significa que devemos ser flexíveis em todas elas. Se nós somos rígidos lá, isso não significa que precisamos ser tão rígidos com essa questão aqui. Lobos e falsos mestres não sabem como usar a sabedoria para resolver diferentes questões de diferentes maneiras.

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Autor: Rev. Kevin DeYoung
Fonte: The Gospel Coalition
Tradução: Anderson Rocha
Via: NAPEC
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Depravação Total - Graças a Deus pela Eleição em Cristo

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Desde a queda de Adão, todos nascem espiritualmente separados da presença de Deus ou espiritualmente mortos e, assim, dependem de uma intervenção divina que é a regeneração para a vida para a qual são incapazes. O texto de Efésios 2. 1 – 10 nos fornece material para podemos entender que estávamos mortos, a nossa natureza era mundana, fomos salvos pela graça de Cristo, não podemos nos gloriar e somos criados em Cristo. Assim, para o homem não resta capacidade alguma que o possibilite alcançar a salvação de sua vida a não ser que a misericórdia e a graça de Deus o alcance e o regenere para a vida eterna. O autor R. K. McGregor Wright escreve que “as aspirações morais da alma não-regenerada são limitadas espiritualmente pelo seu próprio compromisso com os princípios da natureza adâmica” (p. 120)¹. Conclui-se, portanto, que as inclinações do ser humano estão comprometidas por sua natureza caída, carecendo do amor de Deus para socorrê-la.


Nesta condição o homem é escravo de sua natureza pecaminosa, podendo ser liberto apenas e somente pelo poder da cruz de Cristo. O autor Tim Chester, sobre a cruz de Cristo em seu livro Sobre o Deus Trino, escreve que “a cruz não é somente um ato de redenção. É também ato de revelação” (p. 72)². A partir dessa ideia de Tim podemos perceber que o ato da regeneração é a revelação de um salvador capaz ao homem perdido e prisioneiro de sua natureza pecaminosa. Assim, como está na CFW, “Quando Deus converte um pecador e o transfere para o estado de graça, Ele o liberta de sua natural escravidão ao pecado e, somente por sua graça, o habilita a querer e a fazer com toda liberdade o que é espiritualmente bom” (P. 90)³.

Qual o conceito de Depravação Total, afinal? Augustus H. Strong escreve que “a expressão 'depravação total', contudo, é passível de falsa interpretação, e não deve ser usada sem qualquer explicação” (vol II, p. 1128)⁴. Para Augustus o pecador não é “destituído de consciência [...] desprovido de todas as qualidades agradáveis ao homem e úteis quando julgadas segundo os padrões humanos [...] inclinação para toda sorte de pecado [...] o seu mais intenso egoísmo e oposição á Deus” (vol II, p. 1128)⁵. Assim, “depravação total” não quer dizer que as faculdades inerentes do ser humano não produzam resultados bons na esfera humana. 

O conceito sobre “depravação total” apresentado por Millard J. Erickson está da seguinte maneira: “já comentamos (p. 605 - 8) a questão da depravação total, que não significa que os seres humanos sejam tão perversos quanto poderiam ser, mas, sim, que são totalmente incapazes de fazer algo para se salvarem ou para se libertarem de sua condição pecaminosa” (p. 771)⁶. O mesmo autor deixa bem claro, em relação à aceitação da oferta de salvação, que “a posição adotada aqui não é a de que os que são chamados que Deus devem obrigatoriamente responder, mas a de que Deus torna a sua oferta tão atraente que eles responderão de forma afirmativa” (p. 898)⁷.

Sobre este conceito Wayne Gruden afirma que “não é certo dizer que algumas partes de nós são pecaminosas, e outras puras. Antes, cada parte do nosso ser está maculada pelo pecado – o intelecto, as emoções e desejos, o coração [...] as metas e motivos e até mesmo o corpo físico” (p. 409)⁸. Portanto, para Gruden, todas as partes do ser humano estão afetadas pelo pecado, impossibilitando o mesmo a alcançar a salvação.

Charles Hodge, sobre a doutrina do pecado original, escreve a respeito da incapacidade do homem para fazer de si próprio algo espiritualmente bom, e assim descreve três argumentos que permeiam o pensamento da igreja que são a doutrina pelagiana, a semipelagiana e a doutrina agostiniana que “ensina que tal é a natureza da depravação inerente e hereditária, que os homens, desde a queda, são totalmente incapazes de converter-se a Deus, ou de fazer algo verdadeiramente bom diante Dele” (p. 675)⁹, e aponta que as confissões reformadas que subscrevem a respeito.

Joel R. Beeke e Mark Jones, sobre o pecado original, em sua obra diz que “o homem é culpado não apenas de ter participado, por representação, da transgressão de Adão no jardim, mas também de uma contaminação universal, total e pecaminosa, espalhadas por todas as faculdades da alma e do corpo, com uma inexistência ou falta de todo bem e com uma inclinação para todo o mal” (p. 314)¹⁰.

Então, em linhas gerais, Depravação Total seria, conforme McGregor, “doutrina segundo a qual a natureza caída do homem, incluindo a vontade, está totalmente escravizada ao pecado, sendo incapaz de escolher o bem” (p. 242)¹¹, inclusive se salvar.

Então, graças a Deus que quis, segundo o seu amor, revelar-se aos seus eleitos pela cruz de Cristo, para das trevas resgatá-los para o seu eterno Reino. Sem esta intervenção seria impossível para qualquer homem alcançar, por qualquer meio, a graça do Nosso Senhor Jesus.

Amém.

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Notas:
[1] WRIGHT, R. K. McGregor. A soberania banida. 2 ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2007. 256 p.
[2] CHESTER, Tim. Conhecendo o Deus Trino: porque Pai, Filho e Espírito Santo são as boas novas. São Paulo: Fiel, 2016. 187 p.
[3] Confissão de fé de Westminster. 17 ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2008. 240 p.
[4] STRONG, Augustus H. Teologia Sistemática. 2 ed. rev. São Paulo: Hagnos, 2007.
[5] Idem.
[6] ERICKSON, Millard. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 2015. 1232 p.
[7] Idem.
[8] GRUDEN, Wayne. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 1999.
[9] HODGE, Charles. Teologia Sistemática. São Paulo: Hagnos, 2001.
[10] BEEKE, Joel R.; JONES, Mark. Teologia puritana: doutrina para a vida. Paulo: Vida Nova, 2016.
[11] WRIGHT, R. K. McGregor. A soberania banida. 2 ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2007. 256 p.

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Autor: Seminarista Rogério Vilaça
Divulgação: Bereianos
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Existem Apóstolos nos dias atuais?

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Um número crescente, de igrejas neopentecostais, exibe o termo “igreja apostólica” em referência à submissão ao “apostolado” que os seus líderes arrogam ter recebido do próprio Deus, com base em revelações subjetivas que experenciaram. Não advogam o apostolado da mesma forma que a Igreja católica em seu sistema papal – sucessão ininterrupta dos apóstolos de Cristo – mas como novos apóstolos de Jesus Cristo, laureados com revelações, como se Deus, durante todo o tempo houvesse encoberto da Igreja, e só agora estes “apóstolos” possuíssem o saber oculto que trará a salvação dos povos. 

Os maiores influenciadores do movimento apostólico no Brasil foram Peter Wagner e Rony Chaves, sobre eles o dr. Augustus Nicodemus, em seu livro Apóstolos – verdade bíblica sobre o apostolado, trata com ricas informações. Rony Chaves foi o apóstolo que ungiu ao apostolado as brasileiras Vanilce Milhomens e Neuza Itioka (principais promotoras do movimento de batalha espiritual). Nicodemus (2014, p. 275), denuncia uma das “pérolas” do Chaves: 

Muitos apóstolos hoje, não usam o nome, título de seu ofício ministerial. Isto só faz restringir e limitar o ministério. Quando não se usa o termo ‘Apóstolo’, a unção não opera em toda a sua potência. A unção flui com mais poder ao se usar corretamente o título bíblico de “Apóstolo” para um homem chamado por Deus a este ministério. A Igreja tem tido homens que Deus queria que fossem apóstolos e que funcionassem como tais, mas eles não quiseram. 

Ouve-se o som da explosão de um ego inflado, no livro “Crescimento explosivo da Igreja em Células”, quando o autor, Joel Comiskey (2013, p. 60), cita que o “apóstolo” César Castellanos, em seus períodos de oração, recebe a “visão mundial para a sua igreja [sic]” e assim como os apóstolos antigos, Castellanos recebe o mérito pelo sucesso dos demais líderes em aplicar a sua inspiração e visão.

Segundo MacArthur (2015, p. 109), Peter Wagner chega a regurgitar, dentre muitas, a seguinte heresia: “Hoje temos entrado em outro novo odre, que eu chamo de segunda era apostólica” (grifo meu). É com essa teologia que no ano de 2000, Wagner torna-se o apóstolo presidente da Coligação Internacional de Apóstolos - EUA, sendo promovido em 2009 a Presidente Apóstolo Emérito. 

Interessante que para fazer parte dessa coligação, os novos apóstolos precisam realizar pagamentos mensais, com diferentes taxas, a depender do lugar em que vivem (MACARTHUR, 2015, p. 107-108). O Brasil conta com o Conselho Apostólico Brasileiro, a Coalizão Apostólica Profética Brasileira e o Projeto Transformação Brasil, além das redes apostólicas (BEZERRA, 2017).

Análise bíblica sobre a função dos apóstolos 

Inspirado por Deus, o apóstolo Paulo informou que o próprio Cristo: “deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores” (Efésios 4:11). No original, grego (OLIVETTI, et al., 2015) a palavra “concedeu” está no tempo aoristo, que significa um ato realizado de forma completa no passado; isso nos ajuda a entender que os apóstolos e profetas foram escolhidos por Deus para compor o registro de Sua Revelação, concluída em Apocalipse 22 e após isso, nada lhe seria acrescentado, mas exposto pelos evangelistas, pastores e doutores. 

Se fomos, como Igreja do Senhor, “Edificados (também no aoristo) sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina” (Efésios 2:20), logo, partindo do fato de que não existe novo alicerce, nem nova pedra angular em uma construção (cf. 1 Co. 3.10-11), os apóstolos e profetas foram usados por Deus para edificar a Igreja em Cristo e não precisamos mais de profetas e apóstolos hoje, uma vez que já possuímos a Revelação completa, que são as Sagradas Escrituras. Corrobora com essa verdade, o fato de a Igreja primitiva considerar, como prova de autenticidade da inspiração divina sobre um escrito, a autoria ou influência de um apóstolo.

O trabalho dos apóstolos e profetas foi necessário para o período de transição da antiga aliança para a nova, claro é, que nenhum dos apóstolos, após a morte, foi substituído, com exceção de Judas, o traidor, porque o número dos apóstolos precisava estar completo para o Pentecostes, em virtude do simbolismo do número, representando a Igreja de Cristo, como podemos aferir mediante alguns versículos dos Evangelhos; escrito por Mateus: “E Jesus disse-lhes: Em verdade vos digo que vós, que me seguistes, quando, na regeneração, o Filho do homem se assentar no trono da sua glória, também vos assentareis sobre doze tronos, para julgar as doze tribos de Israel; escrito por Lucas: Para que comais e bebais à minha mesa no meu reino, e vos assenteis sobre tronos, julgando as doze tribos de Israel.” (Lucas 22:30), e escatológico:

E tinha um grande e alto muro com doze portas, e nas portas doze anjos, e nomes escritos sobre elas, que são os nomes das doze tribos dos filhos de Israel. Do lado do levante tinha três portas, do lado do norte, três portas, do lado do sul, três portas, do lado do poente, três portas. E o muro da cidade tinha doze fundamentos, e neles os nomes dos doze apóstolos do Cordeiro” (Apocalipse 21:12-14).

Quanto a Paulo, ele foi o único, além dos 12, a receber a função de apóstolo, com o propósito de anunciar Jesus Cristo aos gentios. Paulo, de fato, viu o Cristo ressurreto e foi chamado diretamente por Ele. Todos os apóstolos, os 12 e Paulo, viram o Cristo ressurreto. Ser testemunha ocular da ressurreição é marca indispensável a um verdadeiro apóstolo (Atos 1.22; 10.39-41. 1 Coríntios 9.1; 15.7-8), e Paulo afirma ter sido a última testemunha: “por último de todos apareceu também a mim como a um abortivo” (1 Coríntios 15:8).  É notória a diferença entre a teologia dos “apóstolos” atuais e a do apóstolo Paulo. Enquanto aqueles confirmam seu apostolado contabilizando seu sucesso, este declarava os seus sofrimentos como qualificações principais do seu “curriculum apostólico” (cf. 2 Co 11:13-33).  

No NT encontramos outras marcas do verdadeiro apostolado. Para ser reconhecido como apóstolo, era necessário um chamado pessoal do próprio Cristo (Marcos 3.14, Lucas 6.13, Atos 1.2,24; 10.41; Gálatas 1.1); outro critério era a operação de sinais miraculosos (Mateus 10.1-2, Atos 1.5-8; 2.43; 5.12; 8.14, 2 Coríntios 12.12; Hebreus 2.3-4). Somente sob a autoridade dos verdadeiros apóstolos, um escrito era considerado inspirado por Deus para compor as Escrituras Sagradas. Segundo MacArthur (2015, p. 116): 

A maioria dos que se autodenominam ‘apóstolos’ tem a pretensão de ser especial, de ter a revelação direta de Deus. Se eles realmente têm autoridade apostólica, o que os impede de incluírem-se na Bíblia? Por outro lado, se apóstolos modernos não estão dispostos a incluírem-se nas Escrituras, então o que isso diz sobre a legitimidade do seu apostolado?

Se a Bíblia não pode continuar a ser escrita, qual o sentido de uma nova era apostólica com novas revelações para uma nova Igreja? Só se for uma falsa Igreja com seus falsos apóstolos e suas falsas revelações. E para aquele que acha que pode acrescentar algo às Escrituras ou escrever um livro e creditar a mesma autoridade da Bíblia, no último capítulo do último livro do cânone está escrito: “Declaro a todos os que ouvem as palavras da profecia deste livro: se alguém lhe acrescentar algo, Deus lhe acrescentará as pragas descritas neste livro”. Acréscimo na Bíblia corresponde à acréscimo ao livro de Apocalipse, pois este foi escolhido, sob orientação do Espírito Santo, para ser o último livro da Bíblia, seguido de mais nada. Portanto, depois dele, nenhum escrito possui a autoridade da inspiração divina.

A liderança bíblica para a Igreja hoje é a que vemos estabelecida nas igrejas do NT, uma liderança capacitada, composta de bispos/presbíteros/pastores e diáconos. Em vista ao aprofundamento do estudo, segue referências de textos bíblicos que elucidam a questão: At. 6.1-7; 11.30; 15.2.4; 6.22; 16.4; 20.17-35; 21.18; Fp 1.1; Tm 3.1-16; 1 Pe 5.1-4; Tito 1.5-9. Como Moisés escolheu 70 homens dos anciãos de Israel para ajudá-lo a liderar o povo no deserto, hoje nós não temos toda a igreja liderando, mas "anciãos", que remete à função dos presbíteros, para exercerem a liderança da igreja, na administração, no ensino e no confronto às falsas doutrinas. 

Apóstolos, além dos doze e de Paulo, relatados no NT

Há passagens do Novo Testamento em que outras pessoas, além dos doze e de Paulo, parecem ter sido chamadas de “apóstolos”, a saber: Tiago, Apolo, Barnabé, Silas, Timóteo, Andrônico, Júnias, Epafrodito e os irmãos chamados “apóstolos das igrejas”. Importa saber que o sentido em que a palavra apóstolo foi empregada nesses casos difere do sentido em que é empregado quando referida a Paulo e aos doze. O sentido de “apóstolos” no caso dos que não foram testemunhas da ressurreição de Cristo, nem chamados para lançarem o fundamento da igreja cristã, é mais amplo, entende-se por “enviados”, “mensageiros”, “representantes”, “missionários”, pessoas designadas pela Igreja a cumprir uma missão. 

Segundo Augustus Nicodemus, (2014, p. 120-121), Barnabé (At 14.1,14; 1 Co 9.6), Silvano, Timóteo (1 Ts 1.1; 2.7) e os “demais apóstolos” que Paulo menciona (1 Co 9.5) foram enviados por Cristo para anunciar o Evangelho em lugares onde o mesmo não havia chegado. Epafrodito foi enviado pela igreja de Filipos para levar uma oferta a Paulo (Fp 2.25), e os “apóstolos da igreja” foram enviados por elas para levar uma oferta a Jerusalém (2 Co 8.23). Sendo assim, nos nossos dias, somente poderia reivindicar esse “título” os missionários pioneiros, desbravadores de novos campos, estes, porém, costumam não sentir atração por títulos que os engrandeçam. “Todavia, não é neste sentido que o movimento de restauração apostólica o emprega hoje, e sim num significado similar aos doze e a Paulo”, dilucida Nicodemus. 

O pastor inglês, Brian Edwards (2001, p. 08), no seu opúsculo: “Onde estão os apóstolos e profetas”, elenca pontos bastante relevantes, ele diz que se fosse tão simples a intitulação de apóstolo, Paulo não precisaria ter defendido vigorosamente o seu apostolado ao escrever suas cartas aos coríntios e aos gálatas; Brian analisa o versículo 5 da primeira epístola aos Coríntios e observa que “Paulo sabia que Tiago não era um dos apóstolos, pois fez distinção entre os ‘apóstolos’ e os ‘irmãos do Senhor’. 

Segundo Edwards (2001, p. 08), de acordo com Atos 15, Tiago era um presbítero, e não um apóstolo”, ele explica o sentido de Gálatas 1.19 com a paráfrase: “eu não vi nenhum dos apóstolos; vi apenas Tiago, irmão do Senhor”. Quanto à Andrônico e Júnias, apontados em Romanos 16.7 como “notáveis entre os apóstolos”, Brian defende que eles tinham, simplesmente, uma boa reputação entre os apóstolos. Após estas e outras observações, ele conclui: “Não existe apóstolos hoje, a menos que levemos em conta os ‘super apóstolos’ aos quais Paulo se referiu em 2 Co. 11. Mas ele os rejeitou como ‘falsos apóstolos’, obreiros fraudulentos, transformando-se em apóstolos de Cristo (v. 13)”. Há ‘super apóstolos’, ainda hoje, tencionando alçar voo nas asas do crescimento acelerado da igreja local. 

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Referências Bibliográficas:
COMISKEY, Joel. Crescimento explosivo da igreja em células. Fortaleza, CE: Editora Premius, 2013.
EDWARDS, Brian. Onde estão os apóstolos e profetas. São José dos Campos, SP: Fiel, 2001.
GOMES, Paulo Sérgio; OLIVETTI, Odayr. Novo Testamento Interlinear Analítico Grego-Português: texto majoritário com aparato crítico. São Paulo, Cultura Cristã. 2ª ed, 2015. 
MACARTHUR, John. Fogo estranho. Thomas Nelson Brasil, 2015.
NICODEMUS, Augustus. Ministério Pastoral. Campina Grande, PB: Visão Cristã, 2016.
NICODEMUS, Augustus. Apóstolos: a verdade Bíblica sobre o apostolado. São Paulo, Editora Fiel. 1ª ed, 2014.

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Sobre a autora: Karoline Evangelista é aluna do Seminário Teológico Congregacional do Nordeste. Formada em Fonoaudiologia pela Universidade Federal da Paraíba. Congrega na Igreja Presbiteriana do Bairro dos Estados em João Pessoa-PB. Atua na área de Apologética Cristã, escreve para a Revista Vida Cristã e é colunista no blog Cosmovisão Cristã
Imagem: Saint Paul Writing His Epistles. Valentin de Boulogne, 1618-1620. Arte: Bereianos
Divulgação: Bereianos
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