Lições Bíblicas para Liderança na Igreja Local - Parte 2/2

image from google

A Liderança de Moisés

Moisés foi o maior líder do povo de Deus depois de Jesus. A história desse homem de Deus nos ensina grandes e valiosas lições. Esse espaço não comportará as inúmeras aplicações que podemos extrair da vida de Moisés. O livro de Êxodo nos mostra o nascimento de Moisés, como Deus preservou sua vida, como a providência guiou a vida deste homem para ser o grande líder do povo de Deus. Moisés enfrentou várias dificuldades em sua liderança. A idolatria do povo construindo um bezerro de ouro, a revolta de seus irmãos Arão e Miriã, a sedição do povo, a rebelião de Corá, Natã e Abirão, a murmuração do povo. O salmo 78 nos mostra com riqueza de detalhes como o povo de Israel foi rebelde no deserto. Moisés foi um líder que orava pelo povo, rogava a misericórdia de Deus, até mesmo quando seus irmãos erraram Moisés pediu por Miriã que estava leprosa.

Clamou, pois, Moisés ao Senhor, dizendo: Ó Deus, rogo-te que a cures. E disse o Senhor a Moisés: Se seu pai cuspira em seu rosto, não seria envergonhada sete dias? Esteja fechada sete dias fora do arraial, e depois a recolham, (Números 12.13,14).

Moisés tinha um coração pastoral, mesmo diante da ingratidão e sedição dos seus liderados ele demonstrava amor por eles. Quando Deus desejou destruir o povo por causa do bezerro de ouro, Moisés também intercedeu por eles:

Moisés, porém, suplicou ao Senhor seu Deus e disse: Ó Senhor, por que se acende o teu furor contra o teu povo, que tiraste da terra do Egito com grande força e com forte mãoPor que hão de falar os egípcios, dizendo: Para mal os tirou, para matá-los nos montes, e para destruí-los da face da terra? Torna-te do furor da tua ira, e arrepende-te deste mal contra o teu povo. Lembra-te de Abraão, de Isaque, e de Israel, os teus servos, aos quais por ti mesmo tens jurado, e lhes disseste: Multiplicarei a vossa descendência como as estrelas dos céus, e darei à vossa descendência toda esta terra, de que tenho falado, para que a possuam por herança eternamente. Então o Senhor arrependeu-se do mal que dissera que havia de fazer ao seu povo, (Êxodo 32.11-14).

Quantas coisas podemos aprender com esse homem de Deus! Um pastor que orava pelo seu rebanho, um líder que suportava a afronta. Um homem que amava seu povo e apelava para as bênçãos do pacto. Poderíamos extrair várias lições para uma liderança bíblica olhando para a história de Moisés, mas, apontaremos apenas algumas:

  1. Um líder não pode ser levado pelo sentimento de injustiça e esmorecer.
  2. Um líder não deve deixar ressentimentos o travarem, deve perdoar quando seus liderados se portam de forma errada, deve orientá-los, deve exortá-los, mas não deve ser dominado pela mágoa e ressentimento.
  3. Um líder deve interceder pelo seu povo, deve lutar em oração por quem Deus o confiou.
  4. Um líder confia em Deus em sua Palavra que é poderosa (Êxodo 14).
  5. Um líder deve ensinar a Palavra mesmo quando seu povo se porta rebeldemente contra o Senhor, um grande exemplo está nas pregações de Moisés em Deuteronômio.
  6. Um líder zela pela santidade do culto a Deus, guiando o povo a pureza espiritual.
  7. Um líder prepara outros líderes, a correta visão de liderança bíblica é preparar sucessores, temos como exemplo Josué e Calebe.

A liderança de Moisés também nos mostra seus erros, quando ele bateu na rocha. Deus cobrou do seu servo, não o permitiu entrar na terra prometida. Com essa correção severa de Deus para com ele, lembramos das palavras de Jesus:

Mas o que a não soube, e fez coisas dignas de açoites, com poucos açoites será castigado. E, a qualquer que muito for dado, muito se lhe pedirá, e ao que muito se lhe confiou, muito mais se lhe pedir, ( Lucas 12.48).

Uma leitura dos livros de Moisés nos mostram a integridade desse homem santo que as Escrituras nos apresentam, sobre ele Deus testemunhou:

E disse: Ouvi agora as minhas palavras; se entre vós houver profeta, eu, o Senhor, em visão a ele me farei conhecer, ou em sonhos falarei com ele. Não é assim com o meu servo Moisés que é fiel em toda a minha casa. Boca a boca falo com ele, claramente e não por enigmas; pois ele vê a semelhança do Senhor; por que, pois, não tivestes temor de falar contra o meu servo, contra Moisés? (Números 12.6-8)

A Liderança de Davi

Nos livros de Samuel encontramos a história de Davi, que era um pastor de ovelhas, vivia a trabalhar ajudando seu pai Jessé e também era músico. A narrativa bíblica nos mostra como Deus chamou aquele jovem e o tirou do pastoreio de animais e o constituiu pastor do povo, rei de Israel. Sobre os reis diz-nos Deuteronômio:

Se quando entrarem na terra que o Senhor, o seu Deus, lhes dá, tiverem tomado posse dela, nela tiverem se estabelecido, vocês disserem: "Queremos um rei que nos governe, como têm todas as nações vizinhas", tenham o cuidado de nomear o rei que o Senhor, o seu Deus, escolher. Ele deve vir dentre os seus próprios irmãos israelitas. Não coloquem um estrangeiro como rei, alguém que não seja israelita. Esse rei, porém, não deverá adquirir muitos cavalos, nem fazer o povo voltar ao Egito para conseguir mais cavalos, pois o Senhor lhes disse: "Jamais voltem por este caminho". Ele não deverá tomar para si muitas mulheres; se o fizer, desviará o seu coração. Também não deverá acumular muita prata e muito ouro. Quando subir ao trono do seu reino, mandará fazer num rolo, uma cópia da lei, que está aos cuidados dos sacerdotes levitas para o seu próprio uso. Trará sempre essa cópia consigo e terá que lê-la todos os dias da sua vida, para que aprenda a temer o Senhor, o seu Deus, e a cumprir fielmente todas as palavras desta lei, e todos estes decretos. Isso fará que ele não se considere superior aos seus irmãos israelitas e a não se desvie da lei, nem para a direita, nem para a esquerda. Assim prolongará o seu reinado sobre Israel, bem como o dos seus descendentes, (Deuteronômio 17.14-20).

Um texto riquíssimo para refletirmos sobre liderança cristã, a partir do rei Davi. Podemos ver aqui que Davi cumpriu muitos desses requisitos da lei, mas, também violou muitos outros. Deus havia dado essa lei ao seu povo, especificamente aos futuros reis de Israel, considerando as tentações que tal liderança sofreria. Um líder pode ser tentado e muito tentado no exercício da sua tarefa, pode ser seduzido pelo poder, pelas facilidades, pela fama, pelo status, pela honra humana, pelo seu ego. Listemos esse valoroso ensino que os reis deveriam manter e zelar por eles em sua vida, numeraremos pela ordem no texto bíblico.

  1. O rei deveria ser um israelita, deveria ser da família da fé. Isso pode nos ensinar algo importante, básico, mas necessário. O líder cristão deve ser cristão.
  2. O rei não deveria acumular cavalos. Um líder cristão, não deve acumular riquezas as custas dos seus liderados. Liderar o povo de Deus não é sinônimo de enriquecimento por meio da fé alheia.
  3. O rei não poderia fazer o povo voltar para o Egito. A bíblia nos ensina que o Egito é sinônimo da nossa vida pregressa no pecado. Um líder cristão não pode fazer o povo de Deus se desviar do caminho da verdade.
  4. O rei não poderia tomar para si muitas mulheres. Isso nos ensina que a vida sexual do líder é importante para o exercício de uma liderança saudável. A impureza sexual impede o exercício da liderança cristã. Paulo nos diz o mesmo em primeira Timóteo 3, o pastor deve ser marido de uma só mulher.
  5. O rei deveria ter uma cópia da lei. Deveria lê-la, conhecê-la, vivê-la. O líder cristão deve seguir esse mesmo padrão. Deve ter contato com a Palavra de Deus diariamente (Josué 1.8). Deve observar a lei de Deus com zelo e piedade, deve viver a palavra dia a dia (Tiago 1.23-25).
  6.  O rei deveria guiar seus súditos na lei do Senhor. O líder cristão deve guiar seus liderados na vontade de Deus expressa em sua Palavra. A autoridade do líder não está nele mesmo, mas, deve entender que é um comissionado, a autoridade da liderança cristã está na Palavra de Deus. O líder deve ser fiel a Palavra.

Davi quebrou alguns desses pontos, e acertou em outros deles. Davi foi um líder importante na história do povo de Deus, dele proveio o messias. Davi foi um homem piedoso, mas, que caiu em pecado algumas vezes, desobedecendo ao Senhor. Seu coração arrependido é mostrado de forma belíssima no salmo 51 que mostra seu lamento pelo pecado com a mulher de Urias. Poderíamos apontar vários pecados do rei Davi, mas, não é necessário, evidentemente a Bíblia nos mostra tais pecados e com isso sabemos que líderes e até grandes líderes do povo de Deus podem cair, podem errar e pecar gravemente. Isso nos mostra que somos pecadores, nos mostra que devemos lutar contra o pecado, nos mostra que devemos buscar a vontade de Deus e não a nossa no exercício da liderança na igreja.

A Liderança do Rei Josias

As histórias dos reis de Israel me chamam muita atenção. Na verdade, ao lermos o livro de Josué, Juízes, 1º e 2º Samuel; 1º e 2º Reis; 1º e 2º Crônicas; temos livros inteiros que tratam sobre lideranças do povo de Deus, lideranças boas e lideranças ruins. A história de Josias nos ensina muitas lições importantes para uma liderança genuinamente bíblica. O texto começa expondo algo valioso sobre esse grande homem de Deus:

Josias tinha oito anos de idade quando começou a reinar, e reinou trinta e um anos em Jerusalém. Ele fez o que o Senhor aprova e andou nos caminhos de Davi, seu predecessor, sem desviar-se nem para a direita nem para a esquerda, (2 Crônicas 34.1,2)

O rei Josias foi um homem levantado por Deus para por em ordem o culto e todos os negócios do reino. Um homem de coragem e fé que foi zeloso pela Palavra de Deus. Josias é um exemplo clássico de líder bíblico e reformador. O sacerdote Hilquias achou o livro da lei do Senhor, isso causou uma grande reforma no reinado de Josias, o texto sagrado nos diz que quando o rei teve contato com a notícia disse:

Vão consultar o Senhor por mim e pelo remanescente de Israel e de Judá acerca do que está escrito neste livro que foi encontrado. A ira do Senhor contra nós deve ser grande, pois os nossos antepassados não obedeceram à palavra do Senhor e não agiram de acordo com tudo o que está escrito neste livro, (2 Crônicas 34.21).

Podemos ver claramente que a preocupação do rei era com o cumprimento da Palavra de Deus. Justamente o que era requerido em Deuteronômio 17. O versículo 15 do capítulo 34 de segundo Crônicas nos diz algo que vale para uma aplicação cabível aqui:

Hilquias disse ao secretário Safã: Encontrei o livro da Lei no templo do Senhor. E o entregou a Safã, (2 Crônicas 34.15).

O livro da lei estava perdido na casa do Senhor. Que ensino importante! A liderança cristã precisa estar sempre alerta a isso. Podemos estar liderando o povo de Deus sem a lei de Deus, podemos estar no templo e não acharmos o que é mais importante no tempo: a Palavra, a Lei do Senhor! A lei perdida no tempo, que tragédia.

Podemos aprender algumas questões bem peculiares na narrativa da história deste rei de Israel. Ele também foi um grande administrador da casa de Deus. Devemos compreender que lidar com dinheiro faz parte em muitos casos da liderança bíblica. Devido ao grande crescimento no meio cristão da charlatanice, muitos pastores e líderes se acanharam de falar sobre dinheiro e até mesmo de ensinar sobre isso. Como se fosse algo pecaminoso. Jesus falou mais sobre dinheiro do que sobre o inferno. Vejamos algumas lições importantes no texto bíblico sobre a liderança de Josias sobre a administração da casa de Deus.

Sucedeu que, no ano décimo oitavo do rei Josias, o rei mandou ao escrivão Safã, filho de Azalias, filho de Mesulão, à casa do Senhor, dizendo: Sobe a Hilquias, o sumo sacerdote, para que tome o dinheiro que se trouxe à casa do Senhor, o qual os guardas do umbral da porta ajuntaram do povo, E que o deem na mão dos que têm cargo da obra, e estão encarregados da casa do Senhor; para que o deem àqueles que fazem a obra que há na casa do Senhor, para repararem as fendas da casa; Aos carpinteiros, aos edificadores e aos pedreiros; e para comprar madeira e pedras lavradas, para repararem a casa. Porém não se pediu conta do dinheiro que se lhes entregara nas suas mãos, porquanto procediam com fidelidade, ( 2 Reis 22.3-7).

Desse texto podemos extrair algumas aplicações, vejamos:

  1. Josias delega a Safã. Um líder bíblico não é centralizador, mas compartilha a liderança e as funções, isso é um princípio sábio. O líder forja outros futuros líderes, treina-os e envia-os.
  2. O líder administra os bens sagrados para a glória de Deus e escolhe pessoas habilitadas para fazerem o trabalho.
  3. A liderança bíblica reconhece dons e talentos no meio do povo de Deus, ninguém sabe ou poder fazer tudo. A pessoa certa no lugar certo produz muito fruto.
  4. A integridade, a firmeza de caráter tem grande peso na liderança cristã, a fidelidade na administração dons bens divinos transmite ao povo liderado confiança, segurança e louvor a Deus pelo serviço feito e pelos líderes que Deus dá a seu povo.

Conclusão

A liderança espiritual bíblica pode usar sabiamente ferramentas do conhecimento humano, como administração, comunicação, pedagogia e psicologia. Mas, se ela não for regida por uma sólida base bíblica ela ruirá mais cedo ou mais tarde. O sucesso da liderança bíblica é integridade, piedade, temor ao Senhor. Toda liderança que seguir esses princípios será uma liderança bem-sucedida.

Líderes bíblicos, são líderes que amam a Deus e o servem de todo coração.

***
Autor: Rev. Thomas Magnum de Almeida
Divulgação: Bereianos

Leia também: 
Lições Bíblicas para Liderança na Igreja Local - Parte 1/2
.

A intercessão de Cristo, o pacto da redenção e a nossa felicidade eterna

image from google

Por isso, também pode salvar totalmente os que por ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles” (Hb 7.25).

Eu fico impressionado com quão pouco paramos para meditar a respeito da maravilhosa verdade da continuidade da obra sacerdotal de Jesus Cristo, no céu, em nosso benefício. Durante o seu ministério terreno, como sacerdote, Jesus foi o sumo sacerdote perfeito, que ofereceu a si mesmo como sacrifício todo-suficiente para a nossa salvação. Após a sua ascensão, o Senhor continua a desempenhar o ofício sacerdotal, nas palavras do autor aos Hebreus, “vivendo sempre para interceder” por aqueles por quem entregou a sua vida como sacrifício agradável a Deus.

Em Hebreus 4.14-15, o autor diz: “Tendo, pois, a Jesus, o Filho de Deus, como grande sumo sacerdote que penetrou os céus, conservemos firmes a nossa confissão. Porque não temos sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; antes, foi ele tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado”. Por volta de 1645 algumas pessoas chegavam até o puritano Thomas Goodwin e diziam: “Esse texto coloca um problema diante de nós. Ele diz que Cristo penetrou os céus. Ele está exaltado no lugar mais alto e distante. Como é possível que ainda lembre de nós?” A resposta de Goodwin era que esse texto também apresenta a solução, a resposta, pois esse que penetrou os céus se compadece de nossas fraquezas. Goodwin afirmava que essa passagem “por assim dizer, pega as nossas mãos e as coloca no peito de Cristo, e nos deixa sentir como o seu coração bate e suas afeições anseiam por nós” (The Heart of Christ. p. 48).

Assim, de acordo com Goodwin, as nossas fraquezas inspiram a compaixão de Cristo. E ao trabalhar a passagem, ele argumentou que o termo “fraquezas” envolve tanto o mal das aflições quanto o mal dos nossos pecados, pois Hebreus 5.2 diz que Jesus “é capaz de condoer-se dos ignorantes e dos que erram”. Assim, mesmo a nossa tolice e nossas escolhas pecaminosas despertam a compaixão do nosso meigo e doce Redentor.

Quando o autor aos Hebreus nos diz que Jesus, estando á destra do Pai, vive sempre para interceder pelos seus, precisamos compreender que essa intercessão tem como alvo as nossas fraquezas, o que envolve, as nossas dores e também os nossos pecados.

Muitas vezes entendemos errado o que significa a intercessão de Jesus. É como se ele se colocasse diante do Pai e começasse a argumentar, a nos defender, a tentar convencer um Pai indisposto que não deseja nos perdoar. Não! Jesus não argumenta com base em nosso esforço. Ele não tenta lembrar ao Pai que, mesmo ainda cometendo pecados, temos nos esforçado para fazer o que é correto (Rm 7.21). Como afirma Richard D. Phillips: “Jesus não precisa falar nada disso. Ele só precisa identificar você como um daqueles que pertencem a ele” (Reformed Expository Commentary: Hebrews. Posição 3168. Edição Kindle).

A intercessão de Jesus é feita a partir da sua obra em nosso benefício, não do nosso esforço. O apóstolo João nos dá um vislumbre dessa verdade: “Filhinhos meus, estas coisas vos escrevo para que não pequeis. Se, todavia, alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo” (1Jo 2.1). O nosso advogado é o Justo. Sua intercessão em nosso benefício é feita com base na sua morte na cruz.

Tente imaginar o Filho apresentando ao Pai as marcas nas suas mãos, nos seus pés e no lado do seu corpo, e dizendo: “Foi por ele! Ele é meu!” Não há outra consequência senão perdão e desfrute prático do amor trinitário que é derramado em nossos corações.

Mas, como Jesus pode se dirigir ao Pai, dizendo: “Ele é meu!”?

João, em seu Evangelho, registrou a mais bela oração já feita, a oração sacerdotal do Senhor. E nessa oração, várias vezes Jesus afirma que lhe fomos dados pelo Pai: “Manifestei o teu nome aos homens que me deste do mundo. Eram teus, tu mos confiaste, e eles têm guardado a tua palavra […] É por eles que eu rogo; não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste, porque são teus” (vv. 6,9). Além disso, no famoso cântico do Servo Sofredor, nós encontramos a seguinte declaração: “Ele verá o fruto do penoso trabalho de sua alma e ficará satisfeito; o meu Servo, o Justo, com o seu conhecimento, justificará a muitos, porque as iniquidades deles levará sobre si. Por isso, eu lhe darei muitos como a sua parte, e com os poderosos repartirá ele o despojo, porquanto derramou a sua alma na morte; foi contado com os transgressores; contudo, levou sobre si o pecado de muitos e pelos transgressores intercedeu” (Is 53.11-12). Percebam: o Servo, o Senhor Jesus Cristo, como recompensa da sua obra perfeita, da sua obediência perfeita recebeu “muitos”.

A passagem acima e muitas outras nas Escrituras nos falam de um acordo prévio entre o Pai e o Filho, não de forma explícita, é verdade, mas, ainda assim, de forma muito clara. Quando fomos dados pelo Pai ao Filho? Quando foi que muitos foram prometidos pelo Pai ao seu Servo como a sua parte na obra da Redenção? Pense também nas várias passagens em que o Filho declara que veio tão somente para fazer a vontade daquele que o enviou (Jo 4.34; 5.30; 6.38,39).

Considere, por exemplo, Lucas 22.29: “Assim como meu Pai me confiou um reino, eu vo-lo confio”. As palavras de Jesus aos seus discípulos são uma espécie de testamento. Por duas vezes neste versículo Jesus usa um verbo cujo significado é “fazer um pacto”. Literalmente, o Senhor Jesus afirmou: “Assim como meu Pai me confiou, por meio de um pacto, um reino, eu o confio a vocês também por meio de um pacto”. O Filho fala de um Pacto feito entre ele e o Pai. Quando tal Pacto foi feito? Com toda certeza, Jesus está se referindo àquilo que na teologia é chamado de “Pacto da Redenção”, a aliança entre Pai e Filho, na qual todos os detalhes da nossa salvação são acertados. Nesse pacto o Pai, representando a Trindade, apresenta todas as exigências da lei e toda a penalidade que o Filho deveria assumir sobre si. Por sua vez, o Filho recebe as promessas em caso de obediência perfeita. Uma dessas promessas foi um povo, uma Noiva, um rebanho.

Pense nas implicações dessa verdade gloriosa!

Na eternidade passada teu nome foi pronunciado pelo Pai como fazendo parte daqueles que foram dados ao Filho. O Pai se dirige ao Filho, o fiador da Nova Aliança e diz algo como: “O Alan será teu”. Hoje, no tempo presente, teu nome continua a ser pronunciado pelo Filho em sua intercessão. O Filho se dirige ao Pai e diz: “O Alan é meu! Tu mo deste!”. E teu nome continuará a ser pronunciado no céu até à eternidade futura, pelos séculos dos séculos, como alguém que é amado pelo Filho, mas não apenas por ele, mas também pelo Pai e pelo Espírito Santo.

Nossos pecados são tratados completamente por nosso Senhor Jesus Cristo, que morreu por nós e por nós intercede. Nossas aflições também são alvo da intercessão do Senhor. É por causa dele que temos recebido bênção sobre bênção. É por causa dos seus méritos que somos abençoados com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais (Ef 1.3).

De nenhum modo tais conceitos devem nos lançar à inércia na busca pelo crescimento na piedade. Muito pelo contrário, como expressão de nossa gratidão, não nos resta outra coisa a fazer senão lutar, pelo Espírito, para mortificarmos os feitos do corpo (Rm 8.13).

Somos fracos, é verdade. Mas, uma vez que ele é tudo aquilo de que necessitamos, podemos bradar com Richard Sibbes: “Somos fracos, mas somos dele” (The Bruised Reed. p. 62). Somos vacilantes, fracos, tímidos, mas pertencemos a ele; fomos comprados com o seu sangue precioso, puro, sem mácula. Por esta razão, aborreçamos toda dúvida, toda incerteza, todo pensamento que nos leve a imaginar que não há mais esperança, sejam quais forem os nossos problemas e pecados.

***
Autor: Rev. Alan Rennê
Fonte: Jovem Reformado
.

Amor e a desumanidade do casamento homossexual

image from google

Mais e mais comentaristas dizem que já passamos do ponto crítico em relação ao casamento homossexual nos Estados Unidos. Quase que diariamente um político ou uma celebridade encara um microfone e declaram seu apoio à causa. Parece que o paradigma mudou, que os valores estão invertidos.

Se o casamento homossexual é politicamente uma realidade indiscutível, eu não sei. O que me preocupa, atualmente, é a tentação entre os cristãos de seguirem a corrente. A premissa é de que a nação não compartilha mais de nossa mesma moralidade e nós não podemos impor nossa visão aos outros ou ultrapassar a linha que divide Estado e Igreja. Além do mais, nós não queremos que nenhuma política impertinente entre no nosso caminho de pregar o evangelho, certo? Então nós também devemos simplesmente engolir essa realidade. E dessa maneira, o pensamento continua.

Lições Bíblicas para Liderança na Igreja Local - Parte 1/2

image from google

Introdução

Muitos estudos têm sido empreendidos na área de liderança, na verdade há sempre uma necessidade de reavaliar tais posicionamentos sobre a questão da condução de qualquer obra, grupo, igreja, povo, tribo ou nação. A liderança é algo necessário e presente na cultura humana. A liderança não foi instituída por causa da Queda. Deus já havia instituído tal liderança a Adão e também a Eva. Eram eles subgerentes na criação. Deus havia lhes dado os mandatos da criação: espiritual, social e cultural¹.

Então temos de fato uma necessidade de refletir biblicamente sobre liderança. Sobre os princípios que a Bíblia ensina sobre liderança, a importância disso é muito grande, uma liderança sem princípios é como um navio sem bússola. Liderança sem o processo de experiência é como um navio sem o capitão. Liderança sem um padrão é como um navio sem porto seguro². Tal é a importância dos princípios bíblicos para a liderança, serão uma bússola, um capitão, um padrão, um porto seguro. Os princípios ditarão o que será a liderança e mostrarão os pressupostos da liderança exercida. Se o pressuposto não for a glória de Deus, o que teremos é uma liderança que glorifica a criatura em vez do Criador. Isso é relevante para entendermos o que disse o Dr. Shedd:

Os eventos, as pessoas e as circunstâncias afetam as atitudes e produzem reações que as pessoas desenvolvem desde o nascimento até a morte. Enquanto uma pessoa amadurece, ela aprende através da experiência e da reflexão. A leitura, o estudo e a discussão afetam o processo que transforma um jovem imprudente em um líder respeitado³.

Os princípios serão aprimorados pela experiência do líder, Paulo nos diz isso em várias de suas epístolas, “Não neófito, para que, ensoberbecendo-se, não caia na condenação do diabo”, (1 Timóteo 3.6); é um exemplo escriturístico. Então, como disse Shedd, a experiência e reflexão devem seguir os princípios bíblicos. Tudo na liderança deve girar em torno da sabedoria bíblica. A boa liderança bíblica é marcada pela integridade de caráter e sabedoria bíblica. Alguém pode até ser um bom líder e arrebanhar multidões sem ser bíblico e íntegro. Portanto, o que marca o líder cristão não é o sucesso diante dos homens, mas, sua fidelidade a Deus e sua Palavra. O que um líder cristão precisa ler? Ele pode ler bons livros sobre liderança, pode recorrer a palestras e a congressos, mas, diante da enxurrada de literatura sobre o assunto pautada na literatura secular empresarial, meu conselho é simples, o líder bíblico deve procurar sabedoria, então, leia Provérbios.

Deve ser piedoso, buscar sabedoria. Temos muitos líderes com muito conhecimento, mas pouca sabedoria. Fontes sem águas. A sabedoria bíblica é prática. O conhecimento de Deus deve permear a comunidade e redundar em prática, em vida. Devemos ensinar nosso povo a buscar conhecimento, mas, também devemos ensiná-los a amar a sabedoria, afinal, “O temor do Senhor é o princípio da sabedoria”, (Pv 1.7), isso é tão básico que esquecemos tamanha riqueza.

Uma liderança bíblica destoa grandemente do tipo de liderança que temos visto em nosso tempo. Não podemos negar que uma grande onda de influência empresarial tem invadido, mudado o foco e distorcido o que dizem as Escrituras sobre uma liderança bíblica. Estratégias, planejamento, projeções, análises de dados tem sido as principais abordagens de muitos autores que escrevem nessa área, não apenas isso, muitos pastores têm tomado conselhos de uma abordagem puramente empresarial e não bíblica da liderança e isso causa consideráveis problemas a igreja. Neste artigo, iremos caminhar observando alguns líderes na Bíblia, extrairemos alguns exemplos nas narrativas que mencionam cada um deles. Necessário é sabermos que o foco não está, de fato, na vida deles, mas, como Deus operou através deles, usou e corrigiu muitos dos seus erros. A Bíblia é o maior manual de liderança já conhecido. Não há e não haverá outro livro que supere a Bíblia nos ensinamentos sobre liderança, nela temos as diretrizes eternas para o exercício da liderança espiritual.

A Igreja não funciona como uma empresa

Não queremos dizer com isso que a igreja não deve se preocupar com suas obrigações como registro de funcionários, pagamentos de contas como de água, luz, telefone e internet. Não queremos dizer com isso que uma igreja não possa ter trabalhos como creches ou escolas infantis, absolutamente não. Não queremos dizer que a igreja não deva valer-se de recursos vindos do mundo empresarial, porque se fizéssemos isso, estaríamos negando a graça comum. Quando dizemos que a igreja não funciona como uma empresa, dizermos que o rebanho do Senhor não pode ser visto como consumidores, funcionários, gerentes, supervisores (no sentido empresarial) e proprietários. A igreja é uma organização no sentido de que ela precisa estar organizada com fins a melhor testemunhar com evangelho de Cristo, mas, a igreja também é um organismo vivo. Então, é necessário cuidado com abordagens seculares a respeito da liderança, liderar na igreja não é a mesma coisa de chefiar um departamento numa empresa. A liderança espiritual está totalmente ligada a edificação da igreja para glória de Deus.

A Igreja não funciona como um clube

Muitos tem figurado a igreja como um clube ou agremiação. Uma associação de pessoas que estão ali para viverem juntas em com um objetivo terapêutico. Não devemos duvidar que a vida em comunidade na igreja também é terapêutico, pessoas solitárias, deprimidas, atribuladas, indecisas, assoladas por tragédias e sofrimentos que não temos como listar, estão na igreja e são atraídas para a igreja. Essas pessoas são, em grande medida, transformadas pelo evangelho e desfrutam na comunidade de fé de amizades saudáveis, relacionamentos que lhes fazem bem, companhia e cura de dores dos seus sofrimentos. É verdade que na igreja pessoas tristes encontram alegria de viver em comunidade, mas, isso não faz da igreja um clube. A igreja é a comunidade da Palavra, todos os benefícios que a igreja proporciona deve girar em torno da Palavra. Toda comunhão, alegria, solidariedade, compaixão, misericórdia, bondade, longanimidade e fé são frutos da Palavra e para a glória da graça que opera na santa igreja de Deus.

A Igreja como Comunidade Cristã

Segundo a confissão de fé congregacional, mais conhecida como Declaração de Savoy, sobre a igreja:

A igreja católica ou universal, a qual é invisível, consiste de todo o número dos eleitos que têm sido, são ou serão reunidos num só corpo, sob Cristo – sua Cabeça; ela é a Esposa, o corpo, a plenitude daquele que a tudo enche em todas as coisas⁴.

Isso é a igreja de Cristo, a reunião dos eleitos de Deus, que foram predestinados, chamados, justificados, santificados e que serão glorificados, para a glória única do Deus triúno. Nos diz ainda o Catecismo de Heidelberg, pergunta 55:


O que você crê sobre a comunhão dos santos?
Resposta: Primeiro, creio que todos os crentes, juntos e cada um em particular, como membros de Cristo, têm comunhão com Ele e participam de todos os Seus tesouros e dons. Segundo, creio que cada um têm o dever de usar seus dons com disposição e alegria para o benefício e o bem-estar dos outros membros.

Através dessa pergunta do catecismo podemos mensurar o que é a liderança bíblica: o exercício de dons para a edificação da igreja. Os dons de liderança que foram dados a igreja em todas as eras, mostram que a finalidade da existência de líderes é para o bem-estar  da comunidade de fé que é regida pela Palavra de Deus. Líderes bíblicos servem a Deus e o glorificam, cuidando da igreja seguindo os princípios bíblicos e não formulas empresariais ou publicitárias. A liderança cristã bíblica é cativa ao ensino bíblico e a busca da sabedoria bíblica. 


A Liderança Espiritual Bíblica

Aqui temos um princípio básico, a liderança espiritual é humilde e exemplo. Quando era menino ouvi muito um ditado proferido por cristãos imaturos dizendo “manda quem pode e obedece quem tem juízo”, há certa verdade nesse ditado, mas absolutamente ele não transmite o que a Bíblia diz sobre liderança cristã. Temos vários exemplos de liderança cristã nas Escrituras, vamos falar um pouco sobre cada uma delas. Nossos objetos de estudo serão as lideranças de Adão, Moisés, Davi e Josias.

A Liderança de Adão

Poderíamos tratar de vários personagens bíblicos que serviriam de estudo de caso para a liderança bíblica, mas, por questões de espaço selecionamos alguns. Nosso primeiro estudo será com base na liderança de Adão. Deus criou o homem e a mulher (Gn 1.26,27) a sua imagem e semelhança. Colocando-os como vice-gerentes na criação. Eles tinham que cuidar, gerir tudo aquilo que Deus tinha colocado em suas mãos. Nesse contexto, temos a liderança de Adão como o cabeça de sua esposa. Adão deveria governar o que Deus havia lhe dado como trabalho na criação e também sua mulher e seus filhos. Observamos na narrativa bíblica algo interessante, vejamos:

E ouviram a voz do Senhor Deus, que passeava no jardim pela viração do dia; e esconderam-se Adão e sua mulher da presença do Senhor Deus, entre as árvores do jardim, (Gênesis 3.8)

Podemos extrair algumas aplicações desse texto sagrado. Depois de pecarem, o homem e sua mulher, não mais eram atraídos pela voz do Senhor, mas, temeram juízo. A liderança de Adão foi destruída por causa do seu pecado, Adão agora perdera a comunhão com Deus; sem comunhão como poderia liderar justamente, como poderia exercer aquilo para que Deus o havia criado? Adão pecou, seu pecado comprometeu sua liderança. Uma liderança bíblica deve ser santa, uma vida que busca a piedade e afasta-se do pecado. O apóstolo Paulo disse que o presbítero deve ser irrepreensível, equilibrado, modesto e que tenha domínio próprio (1 Timóteo 3). Essas são algumas das características para um pastor, mas, devemos perceber que tais atribuições morais e espirituais não são restritas a pastores, mas a todo cristão. Mas, de fato, principalmente aqueles que lideram. Um líder intemperante, ímpio, sem equilíbrio não promoverá saúde aos seus liderados.


***
Continua em breve...
____________________
Notas:
[1] Para estudos mais profundos sobre esse assunto da liderança de Adão e Eva, as obras de Gerard Van Groningen são uma contribuição ímpar. Criação e Consumação, são três volumes publicados pela editora cultura cristã.
[2] SHEDD, Russell. O Líder que Deus Usa. Ed. Vida Nova, p. 25.
[3] Ibid, p. 24.
[4] Declaração de Savoy. Capítulo 26. 1. Ed. Aliança.

***
Autor: Rev. Thomas Magnum de Almeida
Divulgação: Bereianos
.

O que é a Pregação Expositiva?

image from google

O antigo puritano William Perkins, no segundo capítulo da sua obra clássica sobre pregação The Art of Prophesying, ofereceu a seguinte instrução aos pregadores: “A Palavra de Deus, exclusivamente, deve ser pregada, em sua perfeição e consistência intrínseca. A Escritura é o objeto exclusivo da pregação, o único campo onde o pregador deve trabalhar”.[1] Isso está intrinsecamente relacionado com a natureza da pregação expositiva.

De forma simples e até tautológica, John A. Broadus afirma que a pregação expositiva “ocupa-se principalmente da exposição das Escrituras”.[2] Tudo flui do texto: as suas divisões e a exploração dessas divisões, todo o conteúdo de pensamento. De acordo com ele, a principal característica de um sermão expositivo é a unidade no discurso: “A unidade no discurso é necessária à instrução, à convicção e à persuasão. Sem ela, o gosto dos ouvintes cultos não será satisfeito; mesmo os incultos, embora talvez não saibam por que, se sentirão bem menos profundamente impressionados”.[3] Isso é interessante, visto que há muita pregação versículo por versículo em nossos dias, mas que nada mais é do uma série de observações desarticuladas e desconexas sobre versículos sucessivos. 

O grande problema com a obra de Broadus é aquilo que pode ser percebido no ideário da vasta maioria dos evangélicos e até mesmo de muitos protestantes, a saber, que pregação expositiva é apenas um estilo de pregação, apenas um tipo de sermão classificado de acordo com a sua estrutura homilética. Antigamente, mesmo nossos seminários e institutos bíblicos trabalhavam a prática da pregação da seguinte forma: Primeiro, você prega um sermão tópico. Segundo, um sermão textual. Terceiro, um sermão expositivo. Scholars e professores chegam a recomendar uma variação de estruturas homiléticas em seus sermões, com vistas a “alcançar variedade no método sermonário [...] Essa variedade será aceitável e agradável à congregação atenta”.[4]

Interessa-me, particularmente, a definição de pregação expositiva que Albert Mohler apresenta:

A pregação expositiva é aquele tipo de pregação cristã que tem como seu propósito central a apresentação e a aplicação do texto da Bíblia. Todos os outros assuntos e interesses são subordinados à tarefa central de apresentar o texto bíblico. Como Palavra de Deus, o texto das Escrituras tem o direito de estabelecer tanto o conteúdo como a estrutura do sermão. A exposição autêntica acontece quando o pregador apresenta o significado e a mensagem do texto bíblico e mostra com clareza como a Palavra de Deus estabelece a identidade e a cosmovisão da igreja como o povo de Deus.[5]

Nisso reside a principal diferença entre a pregação expositiva e os outros tipos de pregação. Enquanto a pregação temática parte de um tópico em direção a textos bíblicos, e a pregação textual faça uso de uma passagem particular sem, contudo, examinar o intento original daquela passagem, a pregação expositiva “está, portanto, inescapavelmente ligada à obra de exegese séria. Se o pregador tem de explicar o texto, ele deve estudá-lo e dedicar horas de estudo e pesquisa necessárias ao entendimento do texto”.[6] Michael Houdmann afirma que, “tanto no sermão temático como no textual, a passagem da Bíblia é usada como material de apoio para o tema. Em sermões expositivos, a passagem da Bíblia é o tema, e materiais de apoio são usados para explicá-la e esclarecê-la”.[7]


Alguns eruditos, como Sidney Greidanus e John Stott, discordam da diferença estabelecida entre pregação expositiva e pregação textual, afirmando que esta distinção nada mais é do que um ato de confusão. A distinção alvo das críticas é aquela que diz que o sermão expositivo brota de uma passagem da Bíblia mais extensa do que dois ou três versículos, que é uma explicação versículo por versículo de uma passagem escolhida, dentre outras afirmações. Greidanus afirma que pregar expositivamente é “manusear o texto ‘de tal forma que seu significado essencial e real seja manifestado e aplicado às necessidades atuais dos ouvintes, como ele existe na mente do escritor bíblico em particular e como ele existe à luz de todo o contexto da Escritura’”.[8]

John Stott afirma:

Se ele [o texto] é longo ou curto, nossa responsabilidade como expositores é esclarecê-lo de tal forma que ele fale sua mensagem de forma clara, aberta, correta, relevante, sem adição, subtração ou falsificação. Na pregação expositiva o texto bíblico não é nem uma introdução convencional para um sermão num tema totalmente diferente, nem um pretexto conveniente sobre o qual projeta-se uma mistura de pensamentos heterogêneos, mas um mestre que dita e controla o que é dito.[9]

Mesmo Karl Barth disse acertadamente que, “se o pregador se dá por tarefa expor uma ideia sob uma forma qualquer – mesmo se esta ideia resulta de uma exegese séria e adequada – então não é a Escritura que fala, mas fala-se sobre ela. Para ser positivo, a pregação deve ser uma explicação da Escritura”.[10]


O fundamento bíblico de tudo o que foi dito pode ser percebido em Neemias 8:

1 Em chegando o sétimo mês, e estando os filhos de Israel nas suas cidades, todo o povo se ajuntou como um só homem, na praça, diante da Porta das Águas; e disseram a Esdras, o escriba, que trouxesse o Livro da Lei de Moisés, que o SENHOR tinha prescrito a Israel. 2 Esdras, o sacerdote, trouxe a Lei perante a congregação, tanto de homens como de mulheres e de todos os que eram capazes de entender o que ouviam. Era o primeiro dia do sétimo mês. 3 E leu no livro, diante da praça, que está fronteira à Porta das Águas, desde a alva até ao meio-dia, perante homens e mulheres e os que podiam entender; e todo o povo tinha os ouvidos atentos ao Livro da Lei. 4 Esdras, o escriba, estava num púlpito de madeira, que fizeram para aquele fim; estavam em pé junto a ele, à sua direita, Matitias, Sema, Anaías, Urias, Hilquias e Maaséias; e à sua esquerda, Pedaías, Misael, Malquias, Hasum, Hasbadana, Zacarias e Mesulão. 5 Esdras abriu o livro à vista de todo o povo, porque estava acima dele; abrindo-o ele, todo o povo se pôs em pé. 6 Esdras bendisse ao SENHOR, o grande Deus; e todo o povo respondeu: Amém! Amém! E, levantando as mãos; inclinaram-se e adoraram o SENHOR, com o rosto em terra. 7 E Jesua, Bani, Serebias, Jamim, Acube, Sabetai, Hodias, Maaséias, Quelita, Azarias, Jozabade, Hanã, Pelaías e os levitas ensinavam o povo na Lei; e o povo estava no seu lugar. 8 Leram no livro, na Lei de Deus, claramente, dando explicações, de maneira que entendessem o que se lia.

O texto foi lido e o texto foi exposto, explicado e aplicado às vidas do povo de Israel. Isto posto, fica claro que os seguintes elementos mínimos identificam uma pregação expositiva[11]:

  1. A mensagem encontra a sua única fonte na Escritura.
  2. A mensagem é extraída da Escritura a partir de cuidadosa exegese.
  3. A preparação da mensagem interpreta corretamente a Escritura em seu sentido normal e em seu contexto.
  4. A mensagem claramente explica o significado original da mensagem de Deus na Escritura.
  5. A mensagem aplica o significado da Escritura para os dias de hoje.

_______________________

Notas:
[1] William Perkins. The Art of Prophesying. Acessado em 11/10/2012.  http://www.monergism.com/thethreshold/sdg/perkins_prophesying.html >.
[2] John A. Broadus. Sobre a Preparação e a Entrega de Sermões. São Paulo: Hagnos, 2009. p. 65.
[3] Ibid. p. 67.
[4] Ibid.
[5] R. Albert Mohler, Jr. Deus Não Está em Silêncio: pregando em um mundo pós-moderno. São José dos Campos: Fiel, 2011. p. 75.
[6] Ibid. p. 76.
[7] Michal Houdmann. What Is Expository Preaching? Acessado em 12/10/2012. <http://www.gotquestions.org/expository-preaching.html>.
[8] Sidney Greidanus. O Pregador Contemporâneo e o Texto Antigo. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. p. 26.
[9] John R. W. Stott. Between Two Worlds: the art of preaching in the Twentieth Century. Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1982. p. 126.
[10] Karl Barth. A Proclamação do Evangelho. Brasília: Monergismo, 2007. pp. 7-8. Acessado em 12/10/2012. <http://monergismo.com/wp-content/uploads/proclamacao_evangelho_barth.pdf>.
[11] Richard L. Mayhue. “Rediscovering Expository Preaching”. In: John MacArthur (Org.). Recovering Expository Preaching. Nashville, TN: Thomas Nelson, 1992. pp. 12-13.

***
Autor: Rev. Alan Rennê Alexandrino Lima
Fonte: Electus
.

Refutação das objeções contra a guarda do domingo

image from google

Mesmo antes da Queda, Deus instituiu o descanso semanal (Gênesis 2.1-4). O sétimo dia foi observado pelo povo do Senhor mesmo antes do Sinai (Êxodo 16.23), foi incluído entre os preceitos do Decálogo como um lembrete da Criação (Êxodo 20.8-11) e da Redenção (Deuteronômio 5.12-15). O quarto mandamento foi exposto pelos profetas como um dia de descanso (Isaías 58.13-14) e o povo, após o exílio, comprometeu-se pactualmente em observá-lo (Neemias 13.15-22). 

Série Credo Apostólico - Parte 10: A Esperança no Porvir

image from google

INTRODUÇÃO

Creio... na ressurreição do corpo e na vida eterna. Amém”.

O Cristianismo professa um credo enraizado na vida após a morte. E esta vida tem dois destinos: comunhão com o Deus triuno ou exclusão de sua presença. Trocando em miúdos, salvação e condenação eterna são as duas realidades possíveis, de forma que há um abismo intransponível entre os dois.

Na parábola contada por Jesus sobre O Rico e Lázaro (Lc 16. 19-31), fica claro que não há nenhum tipo de passagem do inferno para o paraíso. Os destinos estão definidos e o ensino de que é possível mudar sua condição eterna é uma mentira, pois, não encontra nenhuma base bíblica. Assim sendo, crenças como a reencarnação, ensinada pelo Espiritismo, devem ser rejeitadas, assim como a crença da Igreja Católica Romana no purgatório - local de penitência para alguns que podem chegar ao céu após um período expurgando seus pecados. Há também um ensino que permeia os círculos da teologia liberal que se chama “universalismo” (Também faz parte do corpo doutrinário do catolicismo romano). Este ensino diz que no fim, toda a humanidade será salva. Mas será isso mesmo o que a Escritura diz? A resposta é um sonoro não. Do Antigo ao Novo Testamento vemos a dualidade que divide a raça humana em salvos e não salvos. E como disse o saudoso pastor Russell Shedd:

Sem nascer de novo não há esperança de ver o Reino de Deus. Achar que o amor de Deus é tão extenso que ninguém pode cair fora dele, é uma crença muito conveniente para os que rejeitam o teor de todo o ensino da Bíblia. Não convém se arriscar em tão fraca esperança”.

Se todos conhecem bem João 3.16, a sequência não é tanto conhecida, ou pelo menos, não tão recitada: “
Pois Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para condenar o mundo, mas para que este fosse salvo por meio dele. Quem nele crê não é condenado, mas quem não crê já está condenado, por não crer no nome do Filho Unigênito de Deus”. - João 3:17,18

A realidade bíblica pode não ser tão doce como gostaríamos, mas a verdade consiste no que o texto diz, e florear o texto é macular as palavras que são divinas, em outras palavras, é se colocar no lugar de Deus, ou até mesmo, uma tentativa pretenciosa de co-escrever o que Deus já decretou. Mas, passemos para a palavra de esperança que o Credo trás para a Igreja de Cristo, pois n’Ele temos a esperança de vida plena, e para entendermos esta plenitude, é preciso atentar para a doutrina da ressurreição corpórea.

UMA REMISSÃO COMPLETA

Vimos no texto anterior que Cristo nos redime e é por causa de sua obra redentora que temos acesso ao Reino dos Céus. Não conquistamos a salvação por nossos méritos, mas pela graça (Ef 2.8). E esta obra da graça, executada pela Trindade no espaço e no tempo é uma obra completa. Somos redimidos por inteiros e isso incluirá também os nossos corpos. O Catecismo de Heidelberg trata dessa questão como sendo um consolo:

Meu consolo é que depois desta vida minha alma será imediatamente elevada para Cristo, seu Cabeça. E que também esta minha carne, ressuscitada pelo poder de Cristo, será unida novamente à minha alma e se tornará semelhante ao corpo glorioso de Cristo”.

Há diversos textos que abordam a questão do nosso corpo ressurreto (Jó 19:25-27; 1Co 15:53,54; Fp 3:21; 1Jo 3:2), o espanto de muitos a respeito deste assunto atesta que há pouca leitura bíblica em boa parte dos arraiais evangélicos. A melhor maneira de reverter este déficit doutrinário é ensinar, ensinar e ensinar, demonstrando claramente que as Escrituras tratam deste assunto de maneira clara. Além do mais, a crença de que a carne é inerentemente má, é uma heresia antiga, combatida pelos apóstolos, sobretudo Paulo, em suas epístolas. Devemos lembrar que Cristo veio a este mundo em carne e subiu aos céus corporalmente, todavia, sem ter nenhuma relação com o pecado. Sempre que recorremos aos documentos confessionais, como os credos e confissões, temos um ótimo portifólio para aprendermos corretamente, por isso, o
Catecismo Maior de Westminster (CMW) é recomendado para um bom entendimento acerca da ressurreição. Vejamos o que ele diz em resposta à pergunta 87:

Devemos crer que no último dia haverá uma ressurreição geral dos mortos, dos justos e dos injustos; então os que se acharem vivos serão mudados em um momento, e os mesmos corpos dos mortos, que têm jazido na sepultura, estando então novamente unidos às suas almas para sempre, serão ressuscitados pelo poder de Cristo. Os corpos dos justos, pelo Espírito e em virtude da ressurreição de Cristo, como cabeça deles, serão ressuscitados em poder, espirituais e incorruptíveis, e feitos semelhantes ao corpo glorioso dEle; e os corpos dos ímpios serão por Ele ressuscitados para vergonha, como por um juiz ofendido”.

Esta resposta do CMW resume de maneira esplendida todo o conteúdo bíblico como se dará esta ressurreição futura. E ela também apresenta aquilo que de fato é uma mensagem de esperança para a Igreja de Cristo. Atente: “Os corpos dos justos, pelo Espírito e em virtude da ressurreição de Cristo, como cabeça deles, serão ressuscitados em poder, espirituais e incorruptíveis, e feitos semelhantes ao corpo glorioso dEle”.

Não fazemos ideia de como será este corpo glorificado, mas podemos exultar no fato de que os efeitos do pecado desaparecerão e nossas limitações derivadas do pecado não vão mais existir. Isso nos dá uma gama de possibilidades, todavia, é apenas na glória que experimentaremos o que de fato será este corpo renovado por completo.

PLENITUDE DE VIDA

A vida eterna muitas vezes é assimilada apenas no quesito de ser um período de tempo que não finda. E de fato, a eternidade é a ausência do tempo cronológico. Mas, se não focarmos na qualidade deste “tempo sem tempo”, perderemos a noção da maravilha que será viver para sempre com Cristo e com todos os remidos no Céu de Glória. A obra do Triuno Deus em redimir os pecadores, que estavam em estado decaído desde o pecado de Adão, possibilitou que os seus santos obtivessem, por meio de Cristo, as condições necessárias para gozar do paraíso que fora perdido quando o pecado entrou no mundo.

Quando o primeiro casal caiu do estado de graça, Deus os expulsou do Éden para que não comecem da árvore da vida naquelas condições, tendo a imagem divina desfigurada dentro de si (Gn 3.22-24). Usando uma frase de Aslam, personagem criado por C.S. Lewis nas famosas Crônicas de Nárnia: “a eternidade com um coração mau é a perpetuidade da desgraça”.

O desdobramento da História foi a execução da redenção que a Trindade já tinha firmado na eternidade, com Cristo assumindo o papel de fiador de uma aliança que nos reconciliaria com o Divino. A linearidade da história tem seu clímax na cruz, embora seu desfecho seja o dia da segunda vinda de Jesus. E então, os que são o seu rebanho, ao serem reunidos com seu Pastor supremo, poderão gozar de todas as benesses do Paraíso, incluindo, desfrutar do delicioso fruto da árvore da vida (Ap 2.2).

Louvado seja Cristo por nos conceder tamanha benção! Novamente recorrendo ao Catecismo de Heidelberg, vemos que esta promessa nos consola, nos enchendo de esperança e alegria indescritível:

Meu consolo é que, como já percebo no meu coração o início da alegria eterna, depois desta vida terei a salvação perfeita. Esta salvação nenhum olho jamais viu, nenhum ouvido ouviu e jamais surgiu no coração de alguém. Então louvarei a Deus eternamente”.

Vejamos a beleza nesta obra encabeçada por Cristo. A vida eterna é uma realidade do provir, todavia, podemos sentir nuances desta vida, pois temos o selo da promessa que é o Espírito Santo. Não devemos perder a perspectiva na vida eterna. A Confissão Belga nos exorta: “Por isso, esperamos este grande dia com grande anseio para usufruirmos plenamente das promessas de Deus em Jesus Cristo, nosso Senhor”.

CONCLUSÃO

O Credo termina com “Amém”. Esta palavra de origem hebraica, usada no fim de nossas orações é um termo de assentimento, indicando que aquilo que foi dito anteriormente é tido por verdadeiro, gerando concordância, derivada da firmeza do que se disse

O “amém” faz do Credo uma oração, nos lembrando que temos o dever de exercitar a nossa vida piedosa com base nestes postulados centrais da fé. A crença que praticamos em nosso dia a dia precisa de uma base doutrinária. Logo, o Credo nos dá a base necessária para fazermos de nossas vidas uma caminhada de oração, nos colocando na dependência de nosso SENHOR. Buscando louvar a beleza de Sua majestade ainda nesta era, confiantes de que no porvir, continuaremos o louvor, todavia, o veremos face a face, sentado em seu trono de graça. Aquilo que em parte conhecemos, será revelado de maneira plena.

E diante de tamanha glória, talvez, expressaremos algo semelhante ao que Jó falou diante do Soberano:

"Sei que podes fazer todas as coisas; nenhum dos teus planos pode ser frustrado. Tu perguntaste: ‘Quem é esse que obscurece o meu conselho sem conhecimento? ’ Certo é que falei de coisas que eu não entendia, coisas tão maravilhosas que eu não poderia saber. Tu disseste: ‘Agora escute, e eu falarei; vou fazer-lhe perguntas, e você me responderá’. Meus ouvidos já tinham ouvido a teu respeito, mas agora os meus olhos te viram”. Jó 42:2-5

Soli Deo Gloria

***
Autor: Pr. Thiago Oliveira
Divulgação: Bereianos

Leia também:
Série Credo Apostólico - Parte 1: Um Símbolo da Fé Cristã
Série Credo Apostólico - Parte 2: Pai, Todo Poderoso, Criador
Série Credo Apostólico - Parte 3: Jesus Cristo é o Senhor
Série Credo Apostólico - Parte 4: O Redentor no Espaço-Tempo
Série Credo Apostólico - Parte 5: O Padecimento do Cristo
Série Credo Apostólico - Parte 6: A Vitória do Cristo
Série Credo Apostólico - Parte 7: O Espírito Santo em Ação
Série Credo Apostólico - Parte 8: A Santa Igreja Universal 
Série Credo Apostólico - Parte 9: A Remissão dos Pecados