Meu Pai Me Ensinou a Como Morrer

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Será que nos atreveríamos a pensar na morte como uma vocação? O autor de Eclesiastes fez esta declaração:


Tudo tem o seu tempo determinado, e há o tempo para todo propósito debaixo do céu: há tempo de nascer e tempo de morrer.” (Ec. 3.1, 2a) 

Da mesma forma, o escritor de Hebreus diz:

E, assim como aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois, o juízo.” (Hb 9.27)

A Escritura fala da morte em termos de um “propósito debaixo do céu” e de “ordenamento”. A morte é um ordenamento divino. É parte do propósito de Deus em nossas vidas. Deus chama pessoas para morrer. Ele é soberano sobre tudo da vida, incluindo a experiência final de vida. 

Estou ciente de que há professores nos dizendo que Deus não tem nada a ver com a morte. A morte é vista estritamente como um dispositivo demoníaco do Diabo. Toda dor, doença, sofrimento e tragédia são atribuídos ao Maligno. Deus é absolvido de qualquer responsabilidade. Essa visão é formulada para se certificar de que Deus seja absolvido da culpa por qualquer coisa que dê errado neste mundo. “Deus sempre deseja curar”, nos é dito. Se essa cura não acontece, então a culpa recai sobre Satanás - ou a nós mesmos. A morte, eles dizem, não é o plano de Deus. Ela representa a vitória de Satanás sobre o Reino de Deus.

Tais visões podem trazer alívio temporário para o aflito. Mas elas não são verdadeiras. Elas não têm nada a ver com o cristianismo bíblico. Em um esforço para absolver Deus de qualquer culpa, eles fazem isso à custa da soberania de Deus.

Sim, existe um Diabo. Ele é o nosso arqui-inimigo. Ele fará qualquer coisa ao seu alcance para trazer miséria para as nossas vidas. Mas Satanás não é soberano. Satanás não guarda as chaves da morte. 

Quando Jesus apareceu em uma visão a João na ilha de Patmos, ele se identificou com estas palavras:

Não temas; eu sou o primeiro e o último e aquele que vive; estive morto, mas eis que estou vivo pelos séculos dos séculos e tenho as chaves da morte e do inferno.” (Ap. 1.17, 18)

Jesus segura as chaves da morte. Satanás não pode apanhar essas chaves de suas mãos. O pulso de Cristo é firme. Ele segura as chaves, porque são propriedades dele. Toda a autoridade no céu e na terra foi dada a ele. Essa autoridade inclui toda a autoridade sobre a vida e toda a autoridade sobre a morte. O anjo da morte está à disposição e chamado dele. 

Acima de todo sofrimento e da morte está o Senhor crucificado e ressurreto. Ele derrotou o último inimigo da vida. Ele venceu o poder da morte. Ele nos chama para morrer, mas esse chamado é um chamado à obediência para a transição final da vida. Por causa de Cristo, a morte não é o final. É uma passagem de um mundo para o outro. 

Eu nunca esquecerei as últimas palavras que o meu pai disse para mim. Estávamos sentados juntos no sofá da sala. O seu corpo havia sido arruinado por três derrames. Um lado do seu rosto estava distorcido pela paralisia. Seu olho e lábio do lado esquerdo pendiam de maneira incontrolável. Ele falou comigo com uma pronúncia pesada. Suas palavras eram difíceis de entender, mas o seu significado estava muito claro. Ele proferiu estas palavras: “Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé”.

Essas foram as últimas palavras que ele me falou. Horas mais tarde, ele sofreu a sua última hemorragia cerebral. Encontrei-o caído no chão, um fio de sangue escorrendo no canto da sua boca. Ele estava em coma. Misericordiosamente, ele morreu um dia e meio depois, sem recuperar a consciência. 

Enquanto as suas últimas palavras para mim foram heroicas, minhas últimas palavras para ele foram covardes. Eu protestei suas palavras premonitórias. Eu disse de forma rude: “Não diga isso, pai”. 

Há várias coisas que eu disse em minha vida que desejo desesperadamente que não tivesse dito. Nenhuma das minhas palavras é mais vergonhosa para mim do que essa. Mas as palavras não podem ser trazidas de volta, assim como uma flecha acelerando após a corda do arco ter vibrado em lançamento pleno. 

Minhas palavras foram repreensão a ele. Eu me recusei a lhe permitir a dignidade de um último testemunho para mim. Ele sabia que estava morrendo. Eu me recusei a aceitar o que ele já havia aceitado graciosamente. 

Eu tinha 17 anos. Não sabia nada sobre a morte. Não foi um ano muito bom. Eu vi meu pai morrer um pouco de cada vez durante um período de três anos. Eu nunca o vi reclamar. Nunca o ouvi protestar. Ele sentava na mesma cadeira dia após dia, semana após semana, ano após ano. Ele lia a Bíblia com uma lupa enorme. Eu estava cego para as ansiedades que deve tê-lo atormentado. Ele não podia trabalhar. Não havia renda nenhuma. Nenhum seguro por invalidez. Ele sentava lá, esperando morrer, observando as suas economias da vida esvaírem-se juntamente com a sua própria vida. 

Eu estava zangado com Deus. Meu pai não estava zangado com ninguém. Ele viveu os seus últimos dias fiel à sua vocação. Ele combateu o bom combate. Um bom combate é um combate travado sem hostilidade, sem amargura, sem autopiedade. Eu nunca havia estado em um combate assim. 

Quando meu pai morreu, eu não era cristão. A fé era algo além da minha experiência e além da minha compreensão. Quando ele disse, “guardei a fé”, não me dei conta do peso de suas palavras. Eu me fechei para elas. Eu não tinha ideia de que ele estava citando a última mensagem do apóstolo Paulo para o seu discípulo amado, Timóteo. O seu testemunho eloquente foi desperdiçado comigo naquele momento. Mas não agora. Agora eu compreendo. Agora eu quero perseverar como ele perseverou. Quero completar a carreira e terminar o percurso como ele fez antes de mim. Não tenho nenhum desejo de sofrer como ele sofreu. Mas quero guardar a fé como ele guardou. 

Se meu pai ensinou alguma coisa, foi a como morrer. Meu pai completou a carreira porque Deus o chamou a completa-la. Ele terminou o percurso porque Deus estava com ele ao passar por cada obstáculo. Ele guardou a fé porque a fé o guardou. 

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Autor: R. C. Sproul
Fonte: GUTHRIE, Nancy. Antes de Partir: Encarando a Morte Com Confiança Corajosa em Deus. São José dos Campos, SP: Fiel, 2013, pp. 75-79
Divulgação: Bereianos
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Apócrifos e Cânon no Cristianismo Primitivo

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Uma das afirmações mais repetidas pelos críticos do Cânon do NT é a afirmação de que os apócrifos, e em especial os evangelhos apócrifos, eram tão comuns e tão utilizados quanto os escritos do Novo Testamento. Helmut Koester é um bom exemplo dessa tendência. Ele lamenta o fato de que os termos “apócrifo” e “canônico” ainda sejam usados pelos estudiosos modernos, porque, segundo ele, esses termos estão relacionados a “preconceitos de longa data” contra a autenticidade dos textos apócrifos.¹ Koester, em seguida, argumenta: “Se considerarmos o período mais antigo da tradição, veremos que vários evangelhos apócrifos são tão atestados quanto aqueles que mais tarde receberam o status de canônico”.² William Petersen oferece uma abordagem semelhante quando diz que os evangelhos apócrifos eram tão populares que “estavam se multiplicando como coelhos”.³

Mas será que é realmente verdade que os evangelhos apócrifos foram tão populares e difundidos quanto os Evangelhos canônicos? Eles estavam realmente em pé de igualdade? Três conjuntos de evidência sugerem o contrário:

Manuscritos sobreviventes. Os restos físicos dos escritos podem nos dar uma indicação de suas popularidades relativas. Esses restos são capazes de dizer quais livros eram utilizados, lidos e copiados. Quando examinamos os restos físicos de textos cristãos, desde os primeiros séculos (segundo e terceiro), nós rapidamente descobrimos que os escritos do NT eram de longe os mais populares. Atualmente, temos mais de 60 manuscritos existentes (no todo ou em partes) do Novo Testamento a partir deste período, com a maioria das nossas cópias provenientes de Mateus, João, Lucas, Atos, Romanos, Hebreus, e Apocalipse. O Evangelho de João revela-se o mais popular de todos, com 18 manuscritos, alguns dos quais derivam do segundo século (por exemplo, P52, P90, P66, P75). Mateus não está muito atrás com 12 manuscritos, e alguns deles também datam do século II (por exemplo, P64-67, P77, P103, P104).

Durante o mesmo período de tempo, entre o segundo e terceiro século, possuímos cerca de 17 manuscritos de apócrifos, como o Evangelho de Tomé, o Evangelho de Maria, o Evangelho de Pedro, o proto-evangelho de Tiago, e outros. De todos, o Evangelho de Tomé é o que tem mais manuscritos: apenas três.

As implicações dessa disparidade numérica não foram ignoradas pelos estudiosos modernos. Larry Hurtado afirma que o baixo número de manuscritos apócrifos “não justifica qualquer noção de que estes escritos tenham sido particularmente favorecidos” e que quaisquer que fossem os círculos que os utilizavam, eles “eram provavelmente uma minoria clara entre os cristãos dos séculos II e III”.⁴ Da mesma forma , C.H. Roberts observa: “Uma vez que a evidência dos papiros está disponível, indiscutivelmente os textos gnósticos são notáveis por sua raridade.⁵ Scott Charlesworth concorda: “Se o ‘heterodoxo’ estava entre a maioria por tanto tempo, os evangelhos não-canônicos deveriam ter sido preservados em maior número no Egito.

Frequência de citação. Embora os estudiosos geralmente se concentrem em determinar se os livros apócrifos foram ou não citados, eles não prestam atenção o suficiente na frequência em que eles são citados em comparação com os escritos canônicos. Quando esses dados são considerados, a disparidade entre os escritos apócrifos e os canônicos torna-se ainda mais evidente.

Tomemos, por exemplo, Clemente de Alexandria, muitas vezes mencionado como um pai igreja primitiva que tem igual preferência quando se trata de escritos canônicos e apócrifos. No entanto, quando a freqüência das citações é considerada, essa alegação se revela infundada. Clemente prefere vastamente os livros do Novo Testamento à literatura apócrifa ou a outros escritos cristãos. JA Brooks observou que Clemente cita os livros canônicos “cerca de 16 vezes mais do que escritos apócrifos e patrísticos.”⁷ Esta disparidade é torna-se ainda maior se considerarmos apenas os quatro Evangelhos. De acordo com o trabalho de Bernard Mutschler, Clemente se refere ao Evangelho de Mateus 757 vezes, ao de Lucas 402 vezes, ao de João 331 vezes, e ao de Marcos 182 vezes.⁸ Comparativamente, Clemente cita apenas 16 vezes os evangelhos apócrifos.⁹ Aparentemente, Clemente não tinha dúvidas sobre quais livros ele considerava canônicos.

Forma de citação. Se, de fato, os escritos apócrifos eram tão valorizados quanto os escritos canônicos, esperaríamos que isso se refletisse na forma como esses livros são citados. Será que os pais da igreja primitiva citaram os  escritos apócrifos como Escritura? Raramente. Em alguns casos, parece que livros como o Pastor de Hermas ou a Epístola de Barnabé foram considerados como tendo um status de escritura. Mas esse era um ponto de vista minoritário. Quando examinamos quais livros os primeiros cristãos realmente consideravam como Escritura (e não simplesmente aqueles que os cristãos utilizavam de forma geral), então os livros canônicos são, de longe os mais populares. Isso é confirmado pelo fato de que havia um cânon “central” de livros num período próximo à metade do segundo século.

Além disso, um grande número desses escritos apócrifos foi expressamente condenado pelos primeiros cristãos. Tomemos, por exemplo, o tão discutido Evangelho de Tomé. Esse livro nunca foi mencionado em qualquer uma das listas canônica primitivas. Esse livro nunca foi encontrado em qualquer uma de nossas coleções de manuscritos do Novo Testamento. E esse livro nunca entrou como figura de destaque nas discussões canônicas, e muitas vezes foi condenado abertamente por uma variedade de pais da igreja.¹⁰ Assim, se o Evangelho de Tomé foi um relato amplamente lido e amplamente recebido, então ele deixou muito pouca evidência histórica disso.

Todo mundo adora uma boa teoria da conspiração. Certamente seria muito mais divertido se alguém pudesse mostrar que os livros apócrifos realmente eram Escrituras da Igreja Primitiva e que foram reprimidos pelas maquinações políticas da igreja posteriormente (ie, com Constantino). Mas a verdade é muito menos sensacional. Apesar de os livros apócrifos receberem algum status bíblico de vez em quando, a esmagadora maioria dos primeiros cristãos preferiram os livros que estão hoje em nosso cânon do Novo Testamento. Assim, somos lembrados mais uma vez que a igreja não “inventou” o cânon arbitrariamente no quarto ou quinto século. Pelo contrário, as afirmações posteriores da igreja simplesmente refletiram o que já era o caso de muitos e muitos anos.

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Notas:
[1] H. Koester, “Apocryphal and Canonical Gospels,” Harvard Theological Review 73 (1980): 106.
[2] Koester, “Apocryphal and Canonical Gospels,” 107.
[3] W. L. Petersen, “The Diatesseron and the Fourfold Gospel,” in The Earliest Gospels (ed. C. Horton; London and New York: T&T Clark International, 2004), 51.
[4] Larry Hurtado, The Earliest Christian Artifacts, 21-22.
[5] C. H. Roberts, Manuscript, Society and Belief, 52.
[6] Scott Charlesworth, “Indicators of “Catholicity” in Early Gospel Manuscripts,” in The Early Text of the New Testament (ed. C. E. Hill and M. J. Kruger; Oxford: Oxford University Press, 2013).
[7] J. A. Brooks, “Clement of Alexandria,” 48.
[8] Bernard Mutschler, Irenäus als johanneischer Theologe (Tübingen: Mohr Siebeck, 2004), 101.
[9]  Brooks, “Clement of Alexandria,” 44.
[10] E.g., Hippolytus, Ref. 5.7.20; Origen, Hom. Luc. 1; Eusebius, Hist. eccl. 3.25.6.

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Autor: Michael Kruger
Fonte: The Gospel Coalition
Tradução: Erving Ximendes
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A Utilidade e Importância dos Credos e Confissões - parte 2

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2. A necessidade e importância dos credos e confissões se evidenciam a partir da consideração de que um grande desígnio de se estabelecer a Igreja em nosso mundo foi que ela pudesse ser, em todas as épocas, uma depositária, uma guardiã e testemunha da verdade.

Os cristãos, coletiva e individualmente, são representados na Escritura como testemunhas de Deus. São ordenados a manter sua verdade e “preservar a palavra da vida” em toda a sua pureza e brilho ante uma geração perversa, para que outros sejam iluminados e convertidos. São exortados a “comprar a verdade e não a vender”, a “lutar pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos”, a “apegar-se à forma das sãs palavras que receberam” e a “lutar juntos pela fé evangélica”. Esses e muitos outros mandamentos de significado similar claramente fazem o dever de cada igreja cristã detectar e expor as heresias prevalecentes, excluir todos os que abraçam heresias radicais de sua comunhão e “levantar uma bandeira” pela verdade, onde quer que “o inimigo venha como um dilúvio”.

Mas isso tudo não implica em tomar medidas efetivas para distinguir a verdade do erro? Isso tudo não implica necessariamente no dever de esboçar e publicamente manifestar uma linha entre os que, enquanto professam, de modo geral, crer na Bíblia, negam realmente todas as suas doutrinas essenciais, e os que simples e humildemente recebem “a verdade segundo é em Jesus”? Mas como essa distinção há de ser feita, visto que os que abraçam as doutrinas essenciais do evangelho igualmente professam receber a Bíblia? Pode apenas ser feito ao cuidadosamente averiguar e explicitamente declarar como a própria igreja e como aqueles que ela suspeita laborarem em erro entendem e interpretam a Bíblia; ou seja, extraindo certos artigos de fé das Escrituras, de acordo com o entendimento da igreja a respeito deles, e comparando esses artigos com a crença professa daqueles que ela supõe sejam hereges. E o que é isso senão extrair das Escrituras uma Confissão de Fé – um Credo – e aplicá-lo como um teste de princípios sadios? 

Realmente parece-me que aqueles irmãos ortodoxos, que admitem que a igreja está obrigada a levantar sua voz contra o erro e a lutar pela verdade e, apesar disso, denunciam os credos e confissões são extremamente incoerentes. Eles reconhecem a obrigação e importância de um grande dever, mas rejeitam o único meio pelo qual essa obrigação pode ser realizada. São tão insensatos, sou obrigado a dizer, quanto “os feitores do Egito”: exigem que a obra seja feita, sem fornecer a matéria-prima para sua realização. Antes que a igreja possa, como tal, detectar hereges e lançá-los fora de seu seio; antes que possa levantar sua voz, em um “dia de angústia, de castigo” [Is 37.3], contra os erros prevalecentes, seus oficiais e membros devem concordar quanto ao que é a verdade. A menos que se entreguem, em seu julgamento oficial, a todos os caprichos e efervescências febris do sentimento ocasional, devem ter algum documento reconhecido e permanente, exibindo o que concordaram em considerar como verdade. Não há, na realidade, outra alternativa. Ou terão uma “forma das sãs palavras”, que voluntariamente adotaram e fizeram juras de “apegar-se” a elas, ou não poderão ter segurança alguma que duas ou mais decisões sucessivas relativas à fidelidade na fé possam ser iguais. Em outras palavras, não podem alcançar, de uma forma contínua, uniforme e consistente, um dos grandes propósitos para o qual a igreja visível foi estabelecida.

Certamente não será dito por qualquer pessoa ponderada que a igreja ou quaisquer de seus membros individuais podem suficientemente cumprir o dever em questão simplesmente proclamando, de tempo em tempo, em meio ao erro circundante, sua aderência e sua ligação à Bíblia. Todos podem ver que isso seria, de fato, nada fazer como “testemunhas da verdade”, pois não seria fazer nada peculiar, nada distinto, nada que qualquer herege na Cristandade não esteja pronto a fazer, ou melhor, não esteja fazendo diariamente, tão ruidosa e tão frequentemente como a mais ortodoxa das igrejas. A própria ideia de “dar testemunho da verdade” e de separar aqueles que são tão corruptos que a comunhão cristã não pode ser mantida com eles necessariamente implica algum ato de discriminação pública, no qual a igreja concorda e expressa sua crença nas grandes doutrinas do cristianismo, em contraste com os que creem erroneamente. Agora supor que algo desse tipo possa ser realizado fazendo-se uma profissão, a mesma, em todos os aspectos, que o pior herege faria, é muito palpavelmente absurdo para satisfazer qualquer inquiridor sóbrio. 

Que valor, permitam-me perguntar, teriam os valdenses e albigenses como testemunhas da verdade – como luzeiros no mundo, em meio às trevas da corrupção circundante –, especialmente que valor teriam tido para a igreja nas épocas subsequentes e para nós no tempo presente, se não tivessem formulado e transmitido para a posteridade aquelas celebradas confissões de fé, tão preciosas como memoráveis, das quais lemos em sua história, e que permanecem como tantos outros testemunhos monumentais para o verdadeiro “evangelho da graça de Deus”? Sem isso, como jamais saberíamos de que forma interpretavam a Bíblia ou em que diferiam dos mais grosseiros hereges, que viveram na mesma época e professaram receber a mesma Bíblia? Sem isso, como jamais teremos visto tão clara e satisfatoriamente, como o vemos, que mantiveram a verdade e a ordem da casa de Cristo, em meio a todas as assoladoras desolações do “homem da iniquidade”, e assim cumpriram a promessa de que sempre haveria “uma semente para servi-lo e para falar do Senhor à geração vindoura”?

3. A adoção e publicação de um credo é um tributo à verdade e franqueza, que cada igreja cristã deve a outras igrejas e ao mundo ao seu redor.

Toda pessoa sábia desejará se unir no dever e privilégio religiosos com aqueles que mais intimamente concordam consigo em suas posições sobre doutrina e ordem; com aqueles em cujas relações ela pode ser mais feliz e mais bem edificada. É claro que desejará, antes de juntar-se a qualquer igreja, saber algo a respeito de sua fé, governo e características gerais. Tenho em mente um indivíduo piedoso e inteligente, prestes a formar suas conexões religiosas para o restante da vida. Ele olha em volta para as igrejas as quais tem maior acesso e deseja decidir em qual delas pode ficar mais confortável. Vamos supor que, em sua pesquisa, volta seus olhos para a verdadeira igreja bíblica e primitiva a qual é nossa felicidade pertencer. Ele anseia conhecer tanto a doutrina como a ordem que pode esperar encontrar em conexão com nosso ajuntamento. Como pode conhecer essas coisas? Certamente não é indo de igreja em igreja, por todos os nossos limites, e aprendendo o credo de cada pastor individual de seus próprios lábios. Isso seria fisicamente impossível, sem que se concedesse à tarefa um grau de tempo e esforço que dificilmente alguém pode dar. Ele não conseguiria, na realidade, ouvir por si mesmo as doutrinas ensinadas em vinte por cento de nossos púlpitos. E se pudesse, ainda seria incapaz de decidir, somente dessa fonte, até onde o que ouviu poderia ser considerado como o uniforme e universal e, especialmente, como o caráter permanente da igreja, e não, antes, uma exibição acidental. Mas quando esse investigador descobre que temos um credo publicado, declarando a maneira como entendemos as Escrituras, e explicitamente declarando em detalhe as grandes verdades que concordamos em nos unir para manter, então ele pode verificar em algumas horas, e sem deixar sua própria casa, o que professamos crer e praticar e até onde pode esperar estar em casa em nossa comunhão. E enquanto é capacitado a assim entender o sistema ao qual professamos aderir, nos permite entender seus pontos de vista, ao verificarmos até onde estão de acordo com nosso credo publicado.

Ademais, o que é devido a esses indivíduos inteligentes, que desejam conhecer o caráter verdadeiro de nossa igreja, também é devido às igrejas vizinhas, que podem ter não menos desejo de verificar os princípios que abraçamos. É prazeroso para as comunidades eclesiásticas, que se aproximam umas das outras em fé e ordem, manifestar sua afeição mútua ao cultivar algum grau de relacionamento cristão.

Mas que igreja que valoriza a preservação de sua própria pureza e paz se aventuraria em tal relacionamento com um corpo que não tenha um sistema definido, seja de doutrina ou de governo, ao qual permaneça ligado por juramento, e que poderia, portanto, provar-se uma fonte de poluição e desordem a cada outra igreja com a qual tivesse o menor relacionamento de cultos? Um dos pastores dessa denominação, quando convidado ao púlpito de um irmão ortodoxo, poderia dar inteira satisfação, enquanto outro, a quem uma marca similar de afeição e confiança cristã fosse mostrada, poderia pregar as mais corruptas heresias. Credos e confissões, então, longe de ter a tendência de “alienar” e “amargar” aquelas denominações cristãs que têm pensamentos parecidos, e devem manter relacionamento fraternal, tendem, na realidade, a familiarizá-las umas com as outras; a lançar um fundamento para o relacionamento regular e cordial; a gerar confiança mútua e assim promover a harmonia da igreja de Deus. 

Não hesito, portanto, em afirmar que, assim como cada pastor individualmente deve a todos à sua volta uma confissão franca de sua fé cristã, também cada igreja deve ser igualmente franca e explícita em publicamente declarar seus princípios a suas igrejas irmãs. Essa igreja sem dúvida crê que esses princípios sejam puramente bíblicos. Ao publicamente confessá-los, portanto, realiza o duplo dever de prestar testemunho à verdade e de se esforçar para atrair de denominações menos puras e do mundo circundante novo apoio ao que ela conscientemente crê sejam sentimentos mais corretos que os deles. Ela pode incorrer em erros nessa expectativa, mas não deixa de fazer o que pode e o que sinceramente crê seja correto, e o que, é claro, enquanto essa convicção persistir, é seu dever fazer. Ademais, não hesito em defender que, em todas as épocas, aquelas igrejas cristãs que têm sido mais honradamente distinguidas por sua piedade, zelo e apego à simplicidade do evangelho têm sido não apenas notáveis por seu cuidado em formular seu credo doutrinário, mas também por sua franqueza em confessá-los, bem como sua disposição em permitir que todos à sua volta distintamente compreendam o que ela professa considerar como as doutrinas fundamentais de nossa santa religião.

Continua...

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Autor: Rev. Samuel Miller
Tradução: Tiago Cunha (Seminarista do Seminário JMC)
Divulgação: Bereianos

Leia também: A Utilidade e Importância dos Credos e Confissões - parte 1

Por que batizamos crianças?

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As igrejas reformadas ministram o batismo, não só a adultos convertidos, mas também aos filhos de pais crentes. A doutrina do batismo infantil está fortemente relacionada à Teologia do Pacto, portanto, é necessário primeiramente apresentar tal teologia a fim de que se possa entender a base sobre a qual os pais cristãos estão sob a obrigação de apresentarem seus filhos ao batismo. Em seguida, serão refutados os argumentos que têm sido levantados contra a defesa da normatividade do batismo infantil.

Segundo a Teologia do Pacto, Deus Pai fez uma Aliança com Deus Filho na Eternidade, chamado “Pacto da Redenção”. Neste Pacto, Cristo é o nosso Representante. O “Pacto da Redenção” é aquele no qual Cristo, como representante de um povo eleito, assume o compromisso de realizar a obra da expiação (Salmos 2.7-9; Efésios 3.11; Apocalipse 13.8).

Deus também fez um Pacto com Adão, chamado “Pacto de obras”, no qual a vida foi prometida à humanidade sob a condição de perfeita obediência. Se esse pacto, no entanto, fosse transgredido, a punição seria a morte (Gênesis 2.17; Gálatas 3.10,12). Depois que Adão, representando a humanidade, transgrediu a Lei, todos aqueles nele representados ficaram encerrados sob condenação eterna (Romanos 5.12).

Deus, no entanto, fez um Pacto de Graça com o homem através do qual os benefícios da redenção são comunicados à humanidade representada em Cristo. Assim como a morte veio sobre todos os que estão representados em Adão no Pacto das Obras, a vida eterna agora vem sobre todos aqueles que estão representados em Cristo no Pacto da Redenção, isto é, os eleitos com quem Deus estabeleceu uma Aliança de Graça (Romanos 5.18-19).

O Pacto da Graça é único, mas possui duas grandes economias, designadas como “Antigo Testamento” e “Novo Testamento”. Assim como “nova Terra”, “nova criatura”, etc. não significam algo inédito (o termo grego usado é “καινός” que significa novo no sentido de ‘renovado’ e não novo no sentido de ‘inédito’, que seria “νέος”). Assim, a Nova Aliança é substancialmente a mesma Aliança, embora “renovada”. O Novo Testamento é uma renovação do Antigo Testamento e não uma ruptura que instaura um pacto inédito (Romanos 4.13-18; Gálatas 3.15-18; Hebreus 6.12-18). Assim como não há total descontinuidade entre o nosso corpo atual e o nosso corpo futuro, entre o mundo atual e o mundo futuro, etc. há certa continuidade entre o Antigo Testamento e o Novo Testamento: “Não há, pois, dois pactos de graça diferentes em substância, mas um e o mesmo sob várias dispensações.”¹

Sendo assim, deve-se ter em mente que há um só Deus, que Deus tem um só povo ou uma só Igreja na Terra e que a salvação sempre foi pela graça. O Antigo Israel é a Igreja no Antigo Testamento, não sem motivo, os crentes sob a dispensação cristã, são chamados “o Israel de Deus” (Gálatas 6.16) e “semente de Abraão” (Gálatas 3.29). Em um sentido mais amplo, pode-se falar do Pacto da Graça como a Aliança que Deus tem com sua Igreja, com seu povo, tanto do Antigo quanto do Novo Testamento. No Antigo Testamento esse povo tinha sua forma visível no antigo Israel, a partir do Novo Testamento, esse povo tem sua forma visível naqueles que professam a fé católica (universal), a igreja cristã visível.

A Aliança da Graça possui dois sacramentos, um rito de iniciação, e um rito de confirmação. O rito de iniciação é aquele que serve de selo de que a pessoa que o recebe faz parte da igreja visível, da comunidade da Aliança. No Antigo Testamento este rito era a circuncisão que foi substituída pelo batismo no Novo Testamento. O ritual de confirmação é um memorial de celebração da redenção. No Antigo Testamento este rito era a páscoa que foi substituída pela santa ceia no Novo Testamento.

À Igreja Visível no Antigo Pacto, Deus ordenou a cerimônia da circuncisão. Este era o sinal de que alguém fazia parte do povo da Aliança. A circuncisão era o rito de iniciação do Antigo Testamento. Quando um adulto pagão se convertia à religião de Israel ou intentava fazer parte do povo, exigia-se que fosse circuncidado. Desse modo, a circuncisão servia como “selo da fé” (Romanos 4.11). Servia como símbolo de uma mudança interior (“a circuncisão de coração”). No entanto, a circuncisão não implicava em salvação, e alguém poderia ser circuncidado na carne sem o ser no coração. Apesar de ser “selo da fé” e símbolo de arrependimento, a circuncisão era também ministrada aos filhos dos israelitas como sinal de que eles eram parte da Igreja do Antigo Israel. Deus tinha um pacto com seu povo, e esse pacto incluía os filhos dos cristãos do Antigo Testamento.

Visto que o Novo Testamento não é senão uma nova administração de uma mesma Aliança, que somos parte de uma mesma Igreja, que temos uma mesma fé, cremos em um mesmo Deus, num mesmo “Cristo” ou “Messias” – como poderíamos esperar que Deus privasse agora os filhos dos cristãos de um privilégio que Ele lhes concedeu sob a antiga dispensação? Deus não tem mais que um povo sobre a face da Terra:

“...Deus nunca teve senão uma só Igreja no mundo. O Jeová do Velho Testamento é nosso Senhor; o Deus de Abraão, Isaque e Jacó e nosso Deus e Pai pactual; nosso Salvador foi o Salvador dos santos que viveram antes de seu advento em carne. A pessoa divina que libertou os israelitas do Egito; que os guiou através do deserto; que apareceu em sua glória a Isaías no templo, aquele para cuja vinda os olhos do povo de Deus se voltaram em fé e esperança desde o princípio, é aquele em quem reconhecemos como Deus manifestado em carne, nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Aquele, pois, que foi o cabeça da teocracia é o cabeça da Igreja. O sangue que ele derramou por nós foi o sangue derramado desde a fundação do mundo...”²

Tudo o que se diz sobre a circuncisão se diz a respeito do batismo: (i) é um rito de iniciação; (ii) é exigido dos adultos novos convertidos que recebam esse rito; (iii) é selo da fé; (iv) serve como símbolo da mudança de coração e (iv) não implica necessariamente em salvação. Nenhuma dessas características, comuns ao batismo e à circuncisão, impediu que esta última fosse administrada às crianças. Por que, então, se privam as crianças do batismo sob o argumento de que o batismo exige “fé”, simboliza o arrependimento, destina-se a novos conversos, se o mesmo pode ser dito da circuncisão? O batismo é a circuncisão cristã:

No qual também estais circuncidados com a circuncisão não feita por mão no despojo do corpo dos pecados da carne, pela circuncisão de Cristo; Sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos”. – Colossenses 2.11-12

Quando o Todo-Poderoso chamou Abrão para fazer dele um povo inumerável, uma de suas primeiras promessas foi que seria abençoado ele e seus filhos e sua descendência depois dele. Quando Deus inaugurou uma nova economia para a Igreja Cristã, repetiu similar promessa e advertiu explicitamente através de Pedro: “Porque a promessa vos diz respeito a vós, a vossos filhos, e a todos os que estão longe, a tantos quantos Deus nosso Senhor chamar.” (Atos 2.39). De igual modo o apóstolo Paulo inclui os filhos dos crentes na comunidade dos santos: “Porque o marido descrente é santificado pela mulher; e a mulher descrente é santificada pelo marido; de outra sorte os vossos filhos seriam imundos; mas agora são santos.” (1Coríntios 7.14).

O ensino bíblico, portanto, é que o batismo deve ser administrado aos filhos dos crentes: “as crianças, cujos pais, ou um só deles, professarem fé em Cristo e obediência a ele, estão, quanto a isto, dentro do pacto e devem ser batizadas.”³ Algumas objeções, no entanto, tem sido levantadas contra a doutrina reformada do batismo infantil, as quais serão respondidas agora:

RESPOSTAS ÀS OBJEÇÕES CONTRA O BATISMO INFANTIL

Objeção 1: O Novo Testamento apresenta a fé como uma condição para o batismo e bebês não têm capacidade de exercer fé.

Resposta: O Novo Testamento também diz que a circuncisão é “selo da fé” (Romanos 4.11), nem por isso as crianças foram excluídas. Evidentemente que se exige dos adultos que sejam batizados ao se converterem ao Cristianismo. No entanto, os filhos dos crentes já estão na igreja, e, portanto, não há outro requisito que precisem cumprir para receberem o batismo.

Objeção 2: O Novo Testamento não ordena batizar crianças.

Resposta: Visto que desde o Antigo Testamento as crianças recebiam o rito de iniciação na Aliança, se isso tivesse sido modificado, era de se esperar que o Novo Testamento se pronunciasse sobre essa mudança, no entanto, visto que o Novo Testamento não faz isso, devemos presumir que as crianças ainda devem receber o selo do pacto. Como observou Louis Berkhof:

“É verdade que não há nenhum mandamento explícito para batizar crianças, nem qualquer exemplo claro de batismo infantil no Novo Testamento, mas não há também qualquer autorização explícita para a prática dos batistas. Não somos ensinados, nem por palavras, nem por exemplos, que as pessoas nascidas e criadas nas famílias cristãs não possam ser batizadas até que cheguem à idade adulta e tenha professado sua fé em Cristo.”⁴

Objeção 3: Não há exemplos de batismos infantis no Novo Testamento.

Resposta: O Novo Testamento não menciona explicitamente o batismo infantil, embora em alguns textos nos quais se fale de batismos de famílias inteiras, ele possa estar subtendido: “...foi batizada, ela e a sua casa...” “logo foi batizado, ele e todos os seus.” (Atos 16.15,33). No entanto, é perfeitamente compreensível a escassez de relatos de batismos infantis na igreja primitiva. Grande massa de pessoas se converteu ao Cristianismo no primeiro século, era a primeira geração de cristãos. A Igreja era constituída em sua maioria de novos convertidos adultos, não de “filhos de crentes”. Não se deve espantar, pois, da ausência de relatos explícitos de batismos infantis no Novo Testamento. A Igreja se viu primeiro envolvida na evangelização de adultos que foram se convertendo ao evangelho. Seguiu-se depois tempo de ferrenha perseguição. Cristãos evitaram se casar e constituir famílias em meio a essa hostilidade. No entanto, quando a igreja se estabeleceu, quando começaram a surgir as novas gerações de filhos e netos de crentes, a prática do batismo encontrou mais claro testemunho histórico. Além disso, devido à continuidade lógica e natural entre a circuncisão e o batismo não era necessário que se declarasse explicitamente a necessidade de batizar crianças. Isso já estava pressuposto com base na administração deste sacramento aos infantes na antiga economia. Assim, não foi preocupação dos escritores do Novo Testamento registrar batismos infantis.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Pesa sobre os pais cristãos uma grande responsabilidade: que apresentem seus filhos ao batismo! Como advertiu Charles Hodge:

“Portanto, aqueles que, havendo sido batizados e professando ainda sua fé na religião genuína, tendo competente conhecimento e estando isentos de escândalo, não só devem receber a permissão, mas deve-se insistir e ordenar-lhes que apresentem seus filhos para que sejam batizados, a fim de que pertençam à Igreja e sejam criados sob vigilância e cuidado. Não serem eles batizados é um grave mal e afronta, algo que um pai não pode privar a seus filhos sem grave responsabilidade. A negligência do batismo, que implica a falta de apreço por esta ordenança, é um dos pecados clamorosos desta geração.”⁵

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Notas:
[1] Confissão de Fé de Westminster, 7.6.
[2] Charles Hodge. Teologia Sistemática, p.1428.
[3] Catecismo Maior de Westiminster, 166 .
[4] Louis Berkhof. Manual de Doutrina Cristã, pp.236-237.
[5] Charles Hodge. Teologia Sistemática, p.1448.

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Autor: Bruno dos Santos Queiroz
Divulgação: Bereianos
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A Bíblia prediz a vinda de Maomé?

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Os muçulmanos tem afirmado por um bom tempo que a vinda de Maomé foi profetizada na Bíblia, ou seja, nas Escrituras judaicas (Antigo Testamento) e nas Escrituras Cristãs (Novo Testamento). Por que os muçulmanos fazem essa declaração? A alegação baseia-se na afirmação contida no Alcorão de que a vinda de Maomé está descrita nas Escrituras do ahl al-Kitab (i.e., “o povo do Livro), um título dado aos judeus e cristãos. Ele afirma: “Aqueles que seguiram o Apóstolo, o Profeta iletrado [Muhammad], o qual encontram mencionado em suas próprias (Escrituras), na Lei e no Evangelho” (Alcorão 7:157). A Lei e o Evangelho se referem, naturalmente, às Escrituras judaicas e cristãs, respectivamente.

A Definição Bíblica de Heresia

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Um Tratado sobre Múltiplas Questões, cap. 9.

O Apóstolo diz: “Pois também deve haver heresias, para que os que são aprovados se manifestem entre vocês, ou como outros leem, para que os que são aprovados entre vocês sejam manifestos” (1 Coríntios 11:19).

O que se entende na Escritura pela palavra heresias, e como devemos entender que deve haver heresias, a fim de que a parte piedosa, ou aqueles que são aprovados, se manifeste?

A Doutrina da Geração Eterna do Filho

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Muitos cristãos têm descartado ou a ignorado a crença trinitária clássica na geração eterna do Filho de Deus. Esta doutrina é ratificada pelas confissões reformadas e pelos quatro primeiros concílios ecumênicos da Igreja reconhecidos pelos protestantes. Este artigo busca retomar essa verdade como importante para uma cosmovisão trinitária e até mesmo para a práxis cristã.

TRINDADE ONTOLÓGICA, IMANENTE E ECONÔMICA

Willian Lane Craig, negando a doutrina da geração eterna do Filho, afirma que acha que seria:

“útil distinguir entre a Trindade ontológica e a Trindade econômica. A Trindade ontológica é a Trindade conforme existe por si mesma à parte da relação de Deus com o mundo. A Trindade econômica está relacionada aos diferentes papéis interpretados pelas pessoas da Trindade com relação ao mundo e, especialmente, com relação ao plano da salvação. Na Trindade econômica há subordinação (ou, talvez seja melhor dizer, submissão) de uma pessoa à outra, assim como o Filho encarnado faz a vontade do Pai e o Espírito fala, não por sua própria conta, mas em nome do Filho. A Trindade econômica não reflete diferenças ontológicas entre as pessoas; pelo contrário, é uma expressão da amorosa condescendência de Deus em prol da salvação. O erro da cristologia do Logos está em combinar a Trindade econômica com a Trindade ontológica, introduzindo a subordinação na natureza da própria Divindade.” 

A Regra de Rahner, por outro lado, diz o contrário: “A Trindade ‘econômica’ é a Trindade ‘imanente’ e a Trindade ‘imanente’ é a Trindade ‘econômica’”. Quem estará correto, Craig ou a Regra de Rahner?

Como Deus fala conosco?

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Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo. (Hb 1.1,2)

Introdução

Quando perguntamos “como Deus fala conosco?” diversas respostas podem ser formuladas. Por exemplo, se olharmos para o texto bíblico acima, algumas respostas já podem ser dadas. Ao consideramos a progressividade do Antigo Testamento vemos em algumas passagens Deus falando de forma audível, usando um anjo, os profetas ou até mesmo com o próprio dedo.

Os perigos de uma igreja que não te disciplina

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Disciplina eclesiástica (Mateus 18.15-20) é muitas vezes confusa, custosa e danosa. Quando um crente tem de ser publicamente afastado da igreja local, a dor sentida costuma ser inigualável.

Ainda assim, quando praticada biblicamente, ela é biblicamente consistente com o amor, o cuidado, e a obediência bíblica a Cristo. Mark Dever acertadamente afirmou que a disciplina eclesiástica é “um amoroso, provocativo, atrativo, distinto, respeitoso e gracioso ato de obediência e misericórdia, e ajuda a construir uma igreja que traz a glória de Deus”. Nessa mesma linha, um amigo meu foi biblicamente disciplinado para fora de uma grande igreja, e, até os dias de hoje, admite que isso foi uma das melhores coisas que já aconteceu com ele. Mas, mais importante, isso é uma questão não negociável no tipo de Igreja que Deus deseja.

O Direito e o cristão ou o Direito versus o cristão?

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A crise de fundamentação

Desde o Iluminismo, a configuração jurídica sofreu profunda mudança. A influência da filosofia kantiana, “o homem como fim”, levou a uma leitura moderna da realidade jurídica que considera a autonomia humana como a medida de todo o bem legal.

Entretanto, diante das crises perpetradas pelas Guerras Mundiais do século XX, fez-se uma reflexão humanística da realidade social que encontrou no Judiciário, como interprete da lei, uma âncora de apoio para a defesa de minorias e de direitos individuais em detrimento da rígida e formal leitura da lei.

Tal iniciativa, porém, somada às profundas mudanças da compreensão da filosofia da linguagem moderna, levou a um empoderamento do Poder Judiciário que, nos dias de hoje, tende a uma ditadura de sua interpretação legal. Isto é, diante da crise de conteúdo das normas legais, as Cortes Supremas dos países ocidentais passaram a desempenhar um papel proeminente na interpretação que, nos dias de hoje, parece sem controle legal e reduzida ao jogo político.

Ora, essa percepção não é tão recente assim. O autor Francis Schaeffer, em seu livro “Manifesto Cristão”, que data do início da década de 80, referindo-se a crise jurídica desencadeada nos Estados Unidos da América, já apontava que o principal motivo de tamanha mudança foi filosófica: um abandono da cosmovisão judaico-cristã para uma abordagem humanística. Nesta última, o homem, à parte de influências externas e baseado nos postulados da imparcialidade e objetividade, seria autônomo para decidir seu próprio destino comunitário. Isto é, o homem passa a ser a base pela qual a lei é criada e medida.

Essa virada humanística tem um alto custo: tanto a Constituição como as normativas legais passam a ser profundamente relativizadas e usadas como uma linguagem para se tomar decisões políticas nos tribunais, especialmente nas Cortes Supremas.

Com efeito, Ratzinger (2007, p. 170) chama esse esfacelamento linguístico de “virada linguística” em que se renuncia a verdade, a partir da noção de que não se pode atingir o que está por trás da linguagem e das suas imagens, já que a razão está linguisticamente condicionada e perpetrada de vícios políticos.

Desse modo, o quadro pode ser resumido no seguinte sentido: a modernidade, com seu postulado de autonomia, abandonou uma crença no sentido da linguagem, a relativizando, e se dispôs a atribuir mais força legal ao Poder Judiciário, especificamente, às Cortes Supremas, como sendo o guardião da interpretação constitucional e das garantias individuais. Entretanto, isso tem feito com que essas Cortes Superiores, sem controle legal, já que se encontram no topo da “pirâmide normativa”, usem da linguagem jurídica como um instrumento político para impor uma espécie de “ditadura jurídica moderna”.

Ditadura jurídica moderna

Diante do quadro apresentado, as crises institucionais e, principalmente, de base moral e filosófica, que abrange o abandono da influência judaico-cristã, levam a uma imposição jurídica de ideologias e de crenças dos julgadores que solapam o frágil regime democrático.

Schaeffer (1985, p. 44) diz que “esta mudança da base judaico-cristã para a lei e para o desvio das restrições da Constituição, automaticamente milita contra a liberdade religiosa”. Nesse sentido, a lei se torna um meio de forçar um modo político-ideológico de pensar sobre a população.

É a tentativa de que uma minoria se imponha legitimamente sobre a maioria, o que, em última instância, se constitui no que C. S. Lewis (2012, p. 56-57) dizia: “o poder do Homem para fazer de si mesmo o que bem quiser significa (...) o poder de alguns homens para fazer dos outros o que bem quiserem”.

Consequentemente, como já alertava Schaeffer (1985, p. 102) a mais de trinta anos, os tribunais são utilizados, ao invés do legislativo, porque eles não se sujeitam ao crivo da opinião pública para serem reeleitos e porque podem aumentar a criação de leis sem passar por um árduo processo de debates legislativos.

Nos tempos mais recentes, coaduna Scruton (2015, p. 256) ao dizer que

É notório o abuso da Suprema Corte, com juristas astutos e perspicazes, ao criar argumentos que decidem questões de matérias rejeitadas pelo Congresso eleito, ao mesmo tempo que reivindicam a autoridade de uma Constituição, à qual todos têm o dever de fidelidade.

Tal atuação, chamada por alguns do Direito de “ativismo judicial”, leva ao escanteamento da religião do debate público. Os religiosos são ridicularizados como fundamentalistas, retrógrados, fascistas, reacionários, entre outros.

Com o tempo, esse esvaziamento da moral judaico-cristã é preenchido por falsos ídolos ideológicos que prometem demais, mas que produzem mais instabilidades e crises. Não se cria com isso um vácuo que será preenchido por valores objetivos em que o homem, supostamente, analisando a realidade social, cria de sua mente e democraticamente leis que são melhores para todos. Na verdade, o vácuo é preenchido por valores que são antagônicos a tudo aquilo que taxam de conservador. Como coloca Razzo (2016, p. 232), “o homem totalitário impõe ao Estado e à sociedade um ordenamento jurídico revelado de sua própria imaginação, apelando para a ‘mudança muito mais radical’ como a verdadeira e única fonte do direito”.

Desse modo, o resultado é que, como prenunciava Schaeffer (1985, p. 77), a Suprema Corte: a) impõe leis sociológicas arbitrárias; b) cria novas leis e formula os pareceres que vinculam todas as interpretações legais; c) domina os dois outros poderes governamentais, solapando o princípio da tripartição dos poderes.

Resistência cristã

Em um dos documentos mais antigos do federalismo, em que se postulou a limitação estatal, Althusius (2003, p. 217) dizia que não é lícito aos administradores estatais ultrapassar os limites da lei. Quando esses assim o fazem deixam de ser ministros de Deus e se tornam pessoas privadas, “às quais não mais é devida a obediência naquilo que excederam os limites de seu poder".

Nesse sentido, é preciso que os cristãos resistam a esses avanços ideológicos que levam a uma crise estatal e a uma ditadura jurídica por parte dos tribunais. Consideram-se, assim, três pontos fundamentais apresentados:

Primeiramente, é preciso que se afirme que a linguagem humana tem algum grau de sentido objetivo que deve ser respeitado quando a lei é aprovada legislativamente. A hermenêutica não pode ser usada para relativizar e aprisionar o homem em uma espécie de “gabinete de espelhos das interpretações” (RATZINGER, 2007, p. 172).

Além disso, é essencial que os valores fundamentais, de influência judaico-cristã, que são base da sociedade moderna, sejam devidamente respeitados como previstos na Constituição porque garantem o mínimo de segurança jurídica, previsibilidade legal e imparcialidade que limitam os agentes estatais, e, também, porque são “propriedade de outros que ainda estão por nascer” (SCRUTON, 2015, p. 272).

Por fim, absolutizar as decisões judiciais que impõem uma agenda ideológica é, como ensinou Dooyeweerd (2015), considerar autossuficiente o que não é autossuficiente. Por isso, o Judiciário, que serve para controlar os outros poderes, deve também ser controlado para que não se permita a perpetuação de uma “ditadura jurídica moderna”.

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Referências bibliográficas:
ALTHUSIUS, Johannes. Política. Rio de Janeiro: Topbooks Editora, 2003.
DOOYEWEERD, Herman. Raízes da Cultura Ocidental. São Paulo: Cultura Cristã, 2015.
LEWIS, C. S. A abolição do homem. – 2ª. ed. – São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012.
RATZINGER, Joseph. Fé, verdade, tolerância: o cristianismo e as grandes religiões do mundo. São Paulo: Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência, 2007.
RAZZO, Francisco. A imaginação totalitária: os perigos da política como esperança. 1. ed. Rio de Janeiro: Record, 2016.
SCHAEFFER, Francis A. Manifesto Cristão. Refúgio Editora: Brasília, DF. 1ª ed, 1985.
SCRUTON, Roger. Como ser um conservador. 2 ed. – Rio de Janeiro: Record, 2015.

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Autor: Anderson Barbosa Paz é seminarista do Seminário Teológico Betel Brasileiro. Bacharelando em Direito pela Universidade Federal da Paraíba. Congrega na Igreja Presbiteriana do Bairro dos Estados em João Pessoa-PB. Atua na área de Apologética Cristã, debatendo e ensinando.
Divulgação: Bereianos
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